CAPÍTULO TRÊS: OS VALENTÕES DA ESCOLA
— Ei, pra onde você pensa que vai? Nem tão rápido! — Uma garota de aparência feroz de repente bloqueou o caminho de Lomesa e cruzou os braços sobre o peito, satisfeita demais consigo mesma. Lomesa achou aquilo ridículo.
— Por que eu não posso ir? — embora Lomesa tivesse entendido as intenções delas desde o começo, fingiu não perceber e perguntou com a voz trêmula. Do ponto de vista das garotas, a voz vacilante de Lomesa era sinal de que ela estava morrendo de medo. Isso as deixou cheias de si.
“Será que elas não perceberam?” pensou Lomesa, confusa. Ela achava que não era uma grande atriz, então esperava ser desmascarada na hora. Quão burras eram essas pessoas? Ao pensar nisso, o olhar que lançou para elas ficou carregado de desdém. No entanto, recolheu a expressão tão rápido que ninguém notou nada de estranho.
— Se você for embora, com quem a gente vai brincar, hein? — a garota que respondeu olhou para Lomesa como se estivesse olhando para uma idiota. Por que ela estava perguntando o óbvio?
— Ah, então venham brincar comigo. Eu tenho uma coisa pra resolver — respondeu Lomesa, com indiferença.
O convite direto de Lomesa pegou todo mundo de surpresa. Afinal, era a primeira vez que as garotas viam Lomesa falar de cabeça erguida e com uma expressão calma. Antes, quando elas a intimidavam, ela não chorava de forma patética enquanto implorava por piedade? Não evitava o olhar delas o tempo todo? Enfim, ela tinha convidado… então por que não?
As poucas garotas não faziam ideia de que Lomesa estava armando contra elas. Em vez disso, avançaram contentes, marchando alegres e caindo, uma a uma, direto na toca do tigre. Quando todas entraram na toca, a porta bateu com força e se fechou na mesma hora.
Cercada pelas garotas, Lomesa tirou a mochila e a jaqueta e as largou no chão. Estalou os dedos e, antes que alguém pudesse reagir, acertou a primeira bem no nariz. O nariz estalou na hora; o golpe foi forte o bastante para arremessá-la para longe. Ela caiu no chão com um baque e cuspiu imediatamente uma bocada de sangue. Em seguida, os olhos reviraram e ela desmaiou.
— O que vocês estão esperando? Ataquem! — a líder, vendo todo mundo paralisado, ficou tão furiosa que berrou ordens. As garotas atônitas voltaram a si e avançaram todas de uma vez contra Lomesa. Ninguém entendeu o que aconteceu, mas, no minuto seguinte, as meninas estavam estiradas no chão, desacordadas — todas, menos a líder, que parecia apavorada e se arrastava aos pés de Lomesa, implorando por misericórdia.
Lomesa, por outro lado, não tinha um arranhão. Encostou com naturalidade numa árvore, com uma mão no bolso e a outra enrolando uma mecha do próprio cabelo. Apesar de feia, parecia incrivelmente fria. O barulho no chão a fez lembrar da valentona. Ela ergueu a garota pelo pescoço e a puxou para perto do próprio rosto. Quando a líder encarou o olhar gelado de Lomesa — um redemoinho que parecia sugá-la para dentro —, não conseguiu evitar um grito. No instante seguinte, um cheiro acre se espalhou pelo ar. Ao olhar para baixo, Lomesa viu um líquido amarelado escorrendo pelas pernas da agressora. O nariz de Lomesa se enrugou de nojo, e ela jogou a garota longe.
— Some! — Lomesa disse uma única palavra, mas, assim que falou, todas se dispersaram numa velocidade impressionante. Até a valentona, que antes estava toda convencida, foi embora com o rabo entre as pernas. Ela até se esqueceu das comparsas. A cena era cômica.
Depois que todo mundo foi embora, Lomesa bateu as mãos, como se estivesse tirando uma sujeira que nem existia, e pegou suas coisas. Em seguida, foi direto para casa. Tinha muita coisa que precisava colocar em ordem e, com a ajuda das memórias da vida passada, reconheceu imediatamente o apartamento em que estava morando. Assim que chegou, foi tomar banho.
Ela já era maníaca por limpeza. Ficar sentada na sala de aula o tempo todo a deixava com a sensação de estar grudenta. Somado ao fato de ter visto como a valentona tinha sujado suas roupas, ela ficou tão enojada que só queria lavar do corpo qualquer impureza. Depois disso, poderia montar um plano.
Após o banho, Lomesa preparou rapidamente uma janta leve. Fez macarrão instantâneo, já que não estava com muita fome. Depois de comer, começou a fazer a lição de inglês. Na vida anterior, ela caiu no truque de Alvin e Samantha, que a aconselharam a não levar o inglês a sério, porque ela já era “boa o bastante”. Só foi se arrepender algum tempo atrás, numa conferência de negócios, quando pediram que apresentasse uma proposta e ela falhou por causa da péssima habilidade de falar inglês. Virou motivo de piada por um tempo em Sea City. E quem foi consolá-la? Ninguém menos que Alvin e Samantha. Naquela época, ela se lembrava de ter ficado comovida com o apoio e a consideração deles. Nunca teria imaginado que aquilo tudo era uma fachada, mantida até conseguirem dela o que queriam. Ela só descobriu isso no dia da sua morte.
A partir daquele dia, jurou que nunca mais se apaixonaria se tivesse outra chance. Será que conseguiria nesta vida? Ela esperava que sim.
Como sempre tinha sido uma aluna fraca, decidiu começar construindo uma base. Passou a ler sem se permitir relaxar. Isso ajudava, porque ela conseguia imitar sem precisar usar dicionário ou internet. Quando terminou, Lomesa se deitou na cama e ficou encarando o teto. Estava reorganizando os acontecimentos da vida passada. Queria saber com qual evento lidaria primeiro.
Ela também se sentia tão sozinha. Não tinha amigos com quem conversar, nem mesmo para trocar mensagens. Samantha realmente tinha feito um bom trabalho: garantiu que a única amiga que Lomesa tivesse fosse ela. Lomesa se lembrou de que, um dia, algumas garotas com intenções sinceras tentaram abrir seus olhos para a realidade de que Samantha era uma pessoa ruim. No entanto, antes que pudessem falar, Samantha já tinha corrido até lá e distorcido a verdade descaradamente. Manipulou Lomesa para acreditar que as meninas só estavam com inveja e tinham segundas intenções por se aproximarem de repente. Lomesa se lembrava de como as insultou e as avisou para nunca mais aparecerem na sua frente, ou ela chamaria a polícia. Ela tinha sido uma idiota. Lomesa deu um tapa forte em si mesma.
— Ai! — puxou o ar com dor, mas pelo menos aquilo a fez perceber que não era mais a tola que vivia sendo intimidada e manipulada. Queria se erguer de cabeça erguida e olhar com desprezo para as pessoas sob seus pés depois da vingança. Vingança era a única coisa que ecoava na mente dela naquele momento. Percebeu que ser misericordiosa era, na verdade, uma fraqueza, e queria se tornar implacável. Ela voltaria a ser quem era. Quem ela era antes de conhecer Alvin e Samantha. Fria e impiedosa.
Quando Lomesa olhou o saldo da conta bancária, sentiu uma dor de cabeça chegando. Desde quando ela, uma bilionária, tinha ficado tão pobre? Havia apenas cem dólares na conta naquele momento. Aquilo não ajudaria em nada. Ela precisava conseguir dinheiro o mais rápido possível!
Enquanto pensava num jeito de ganhar dinheiro, algo estalou na mente dela. Isso mesmo, ela não era a misteriosa hacker número um, LM? E por que ela disse que não tinha amigos, se podia simplesmente conversar com os colegas na dark web?
Quando entrou, descobriu que seu status tinha sido rebaixado para iniciante; como ela estava procurando trabalho, decidiram testá-la primeiro. A velocidade com que resolvia as tarefas que lhe davam era tão inexplicável que, na maioria das vezes, fazia as pessoas prenderem a respiração, chocadas. Quando passou em todos os testes, voltou imediatamente ao posto que sempre fora seu. Primeiro lugar. O nível S.
Naquele instante, numa mansão na zona norte da cidade, os celulares de quatro pessoas tocaram com uma notificação. Eles não conseguiram evitar arregalar os olhos, surpresos. Aquela notificação… eles conheciam muito bem. De quem poderia ser, senão do chefe misterioso deles?!
— Porra! Alguém me belisca, o chefe realmente entrou online? Eu… ai! — o grito saiu junto com a dor.
