Capítulo 5: Orfanato Hope.
Como não tinha nada para fazer no dia seguinte, que era domingo, Lomesa decidiu fazer uma visita ao orfanato onde havia sido criada. Estava com saudade da sua tutora, que era a diretora do orfanato. Depois de pedir comida pela internet, ela se largou preguiçosamente no sofá e, de vez em quando, se espreguiçava enquanto assistia a um drama na TV que estava passando. Trinta minutos depois, a campainha tocou e ela foi pegar a encomenda. Depois de comer até se fartar, subiu para o quarto e tirou a tarefa de Matemática, começando a resolver os exercícios. Como ficaria fora o dia inteiro no dia seguinte, decidiu terminar a tarefa ali mesmo para evitar contratempos de última hora. Afinal, tinha decidido virar uma aluna exemplar e ficar longe de encrenca.
Levou uma hora para concluir a tarefa. Depois disso, foi direto para a cama e adormeceu. Nesta vida, ela levava o sono muito a sério. Na vida passada, por causa dos problemas e acidentes intermináveis, tinha desenvolvido insônia; mal conseguia dormir. Como renasceu antes que a insônia e os infortúnios começassem, decidiu usar o tempo com sabedoria. Não podia desperdiçar um segundo com coisas insignificantes.
No dia seguinte, às 9h, Lomesa pegou um táxi e seguiu para o orfanato. Era uma viagem de duas horas, então, depois de dar as direções ao motorista, ela se aninhou no banco e tirou um cochilo. Andava com sono havia dois dias. Também se sentia cansada. Iria ao hospital fazer um check-up. Talvez tivesse algum problema? Só saberia depois dos exames.
Duas horas depois, o táxi finalmente parou. O motorista se virou, prestes a acordar a jovem senhorita, quando deu de cara com aqueles olhos de flor de pessegueiro. Ele se assustou. Ela não estava dormindo profundamente? Como tinha percebido que haviam chegado? Ele tinha muitas perguntas, mas decidiu não fazer nenhuma. Afinal, todo mundo tinha seus segredos. Além disso, ele era apenas um estranho para ela.
Depois de pagar a corrida, Lomesa foi imediatamente a pé até o portão do orfanato. O vigia lançou um olhar para a garota desconhecida e franziu a testa. Tinha a sensação de que a conhecia. Só não conseguia entender por quê.
— Olá, tio. — Lomesa cumprimentou o vigia com um sorriso.
— Olá, moça… eu te conheço? — O vigia estreitou os olhos e perguntou. Ele se perguntava por que aquela jovem estava agindo com tanta intimidade.
— Tio, como o senhor pode me esquecer em só alguns anos? — Lomesa reclamou, magoada.
Ao ouvir o tom choramingado, a silhueta de uma certa menina passou pela mente dele.
— Lomesa? — perguntou o homem do portão, ainda incerto.
— Finalmente lembrou de mim. — Lomesa fez um biquinho, aliviada.
— Desculpa não ter te reconhecido. Mas você… por que está tão diferente? — ele insistiu. Afinal, Lomesa sempre fora a garota mais bonita de todo o orfanato. Ninguém se comparava a ela em beleza e inteligência. Ela até tinha atraído haters sem querer enquanto vivia ali. Apesar disso, muitos no orfanato a admiravam.
— Aham… não se preocupe, eu fiquei doente por um tempo; com o tempo eu melhoro. — Lomesa inventou uma mentira. Como ela explicaria que tinha sido enganada por dois canalhas e vítima de uma armação? Meu Deus… seria humilhante demais. Afinal, ela era uma figura de destaque no orfanato.
— Tá bom, que bom. Cuide-se — o vigia assentiu, aconselhando-a.
— Tio, vou entrar para ver a tia; até mais. — Lomesa acenou e entrou no orfanato.
O caminho de pedras que levava para dentro era ladeado por pessegueiros floridos e grama verdejante. Os pinheiros altos deixavam o lugar ainda mais etéreo. Lomesa inspirou o perfume das flores, e seu ânimo se elevou na hora. Levou um tempo até chegar aos prédios do orfanato. Quando estava prestes a entrar no primeiro, ouviu um gemido fraco. Ela parou e foi ver o que estava acontecendo.
— Quem mandou você ficar perto do Trevor? — uma garota perguntou com ferocidade, enquanto estapeava a bochecha da outra.
— Eu… eu realmente não sei de nada, ele… ele só me trouxe biscoitos. — A menina soluçou no chão, o rosto coberto de lágrimas. Parecia tão digna de pena, e mesmo assim aquelas valentonas não a deixavam em paz. Que tipo de coração alguém precisava ter para torturar uma criança tão nova daquele jeito?
— Você ainda não admite? Hoje eu vou te dar uma lição! — disse a garota que já tinha estapeado a menina uma vez.
Ela ergueu a mão, pronta para acertar outro tapa na bochecha da pequena. A menina, instintivamente, cobriu a cabeça e se encolheu, esperando o golpe. No entanto, depois de esperar por um bom tempo, nenhuma dor veio. Assustada, ela levantou o olhar e viu a mão da agressora sendo segurada com força por outra garota.
— Fazendo bullying em plena luz do dia? Foi isso que o Orfanato Hope te ensinou? —
Ao ouvir isso, a garota que ia bater congelou; chegou a esquecer de pedir que Lomesa soltasse sua mão. Era isso mesmo: o Orfanato Hope só ensinava virtudes. Desde quando incentivavam bullying? Se fosse denunciada, com certeza seria expulsa. Ela não queria que isso acontecesse! Afinal, não tinha para onde ir. Além disso, ao encarar os olhos frios de Lomesa, a valentona estremeceu sem querer. De repente, sentiu culpa. Não devia ter sentido ciúmes de uma criança tão nova. No fim das contas, era só uma menina; o que ela poderia fazer com um adolescente? Mas agora já era tarde; só podia torcer para conseguir se redimir.
— Me desculpa — disse a agressora, humildemente, olhando para Lomesa.
— Você não devia estar pedindo desculpas pra mim — respondeu Lomesa, com significado.
— Me desculpa — a garota se virou para a menina e se desculpou com sinceridade.
— Ah? Tudo bem — a menina acenou com as mãos, dispensando-a. Ela ainda estava atordoada, sem nem ter certeza do que estava acontecendo.
Depois de pedir desculpas, a garota voltou a olhar para Lomesa.
— Some daqui! — disse Lomesa, fria, e arremessou o braço para o lado, livrando-se dela.
A agressora caiu no chão, num estado lamentável, mas Lomesa não se deu ao trabalho de ligar. As capangas também saíram correndo, como se estivessem sendo perseguidas por um fantasma vingativo. Ficaram até meio cômicas, se atrapalhando e fugindo sem rumo.
— Levanta. — Lomesa estendeu a mão para a menina. Em seguida, a garota segurou o braço dela e se pôs de pé.
— Obrigada — disse a menina, tímida.
— Qual é o seu nome? — perguntou Lomesa, languidamente, com uma mão no bolso da calça enquanto a outra brincava com uma mecha do próprio cabelo.
— Eu... eu sou Valeria — respondeu a menina.
— Certo. Vai passar pomada no rosto — disse Lomesa.
— Sim — disse Valeria e, por fim, ergueu o rosto para encará-la.
No instante em que Lomesa viu aquele rosto, ficou chocada! A garota ainda era muito nova, mas já era uma beleza. Seus olhos de corça eram roxos, uma cor raríssima — o que só aumentava seu encanto. Tinha lábios bonitos, rosados e carnudos, mas macios. Os dentes, brancos como pérola, eram bem alinhados e desenhados, fazendo um contraste marcante com os lábios cor-de-rosa. As sobrancelhas eram grossas e arqueadas; o nariz, pequeno e muito atraente. Os cílios longos e espessos também acrescentavam um toque de sedução. Era uma beleza sem igual! Lomesa, que era obcecada por rostos bonitos, teve uma ideia na hora — e seu semblante se iluminou.
— Até mais. — Lomesa deu um sorriso para Valeria e foi embora, rumo ao escritório da diretora.
A menina ficou parada, atônita, por um tempo. Só quando Lomesa já tinha sumido de vista e a bochecha que levara o tapa começou a doer é que ela voltou a si. Correu para o dormitório para passar pomada na bochecha latejante.
Enquanto isso, Lomesa já tinha chegado ao escritório da diretora. Quando bateu e ouviu a voz dela, seus olhos se encheram de lágrimas na mesma hora. Sem se importar nem um pouco com a própria imagem, ela se jogou nos braços da diretora.
— Tia, eu senti tanta saudade... Ainda bem que você está bem — disse Lomesa, abraçando a diretora. Ela se sentiu aliviada ao respirar aquele cheiro familiar.
— Essa menina... o que foi, querida? — perguntou a diretora, suspirando, exasperada.
— Eu só estava com saudade — disse Lomesa, enterrando o rosto no peito da diretora.
— Tá bom, tá bom. Eu estou aqui, certo? — A diretora fez carinho na cabeça dela, tentando acalmá-la.
Depois que Lomesa se acalmou, elas foram tomar uma xícara de chá e, em seguida, começaram a conversar sobre tudo e qualquer coisa.
— Ah, tia... você pode me contar a história daquela garota chamada Valeria? — perguntou Lomesa de repente, no meio da conversa.
— Por que você ficou interessada na história dela do nada? — perguntou a diretora, desconfiada.
