Capítulo 6: Adoção
— Tia, você pode me contar primeiro sobre ela? — Lomesa insistiu com a diretora do orfanato, piscando os olhos de um jeito meigo enquanto se agarrava ao braço dela de maneira manhosa. Diante disso, como a senhora Anastasia poderia ter coragem de desapontá-la? Ela suspirou, impotente, e começou a narrar.
— Naquela época, a gente tinha acabado de sair do shopping, onde foi comprar as coisas necessárias para as crianças do orfanato, quando ouviu um alvoroço do outro lado da rua. Então decidimos ir ver o que estava acontecendo. Quando chegamos, descobrimos que era um lixão, e as pessoas estavam apontando para um embrulho no meio do lixo. Era um recém-nascido que a própria mãe tinha descartado. Naquele momento, ele nem chorava, então todo mundo achou que estivesse morto. Mas eu resolvi ir conferir se era mesmo. Por sorte, ele só estava desacordado, por causa do frio e dos solavancos que sofreu quando foi jogado fora. Como ninguém o queria, eu o peguei, levei para o orfanato e cuidei dele até crescer. Foi também quando eu descobri que era menina e dei a ela o nome de Valeria. — A senhora Anastasia resumiu a história de Valeria, que agora tinha quatro anos.
Ao ouvir aquilo, Lomesa sentiu pena dela. Não conseguiu evitar amaldiçoar os pais em seu íntimo. Como alguém conseguia jogar o próprio filho fora? Que tipo de gente sem coração fazia isso? Nem um tigre comeria os próprios filhotes.
— Tia, existe algum procedimento para adoção? — Lomesa perguntou depois de pensar por um tempo.
— Você quer dizer…? — a senhora Anastasia perguntou, chocada.
Lomesa apenas assentiu, com naturalidade. Começou a ler os procedimentos. Por sorte, ela sempre andava com seus documentos, então não foi difícil.
— Mas antes preciso te lembrar de algumas coisas — disse a senhora Anastasia de repente, séria, encarando Lomesa.
— Claro. O que foi? — Lomesa perguntou, cordial.
— Aquela criança, por causa do choque de ter sido jogada fora, ficou autista. Ela está se esforçando, mas ainda é “diferente” para as outras pessoas, por isso é tão fechada. E também tem pneumonia crônica, porque foi abandonada quando estava nevando, no inverno. Na verdade, foi um milagre ela ter sobrevivido até o dia seguinte — disse a senhora Anastasia, solene.
— Tudo bem, não se preocupe. — Lomesa concordou de imediato e tranquilizou a senhora Anastasia. Afinal, Lomesa não deixaria os seus sofrerem ou morrerem enquanto ela estivesse olhando. Já que escolhera ser a guardiã dela, naturalmente precisava garantir que a criança ficasse bem e confortável. Além disso, tinha gostado dela no instante em que a viu. E isso era mais um motivo para fazer tudo o que pudesse para que ela fosse bem criada e saudável.
— Então, tia, pode me levar até onde ela está? — Lomesa olhou para o celular na mão e viu que já estava na hora de voltar. Afinal, tinham conversado por tanto tempo que quase perderam a noção. Lomesa tinha aula no dia seguinte, então precisava ir embora.
— Claro — disse a senhora Anastasia, indo na frente. Elas caminharam pelos corredores até chegarem ao quarto da menina e baterem na porta.
Quem abriu não foi Valeria, mas uma garota um pouco gordinha que parecia ter uns oito anos.
— Tia, seja bem-vinda — disse a menina, afastando-se para o lado para deixar as duas visitantes entrarem. Quando entraram, viram que a garota estava dormindo profundamente. Ainda assim, Lomesa estava determinada a sair com ela naquele dia, já que não sabia quando voltaria a visitar o orfanato. Quando a senhora Anastasia viu a menina dormindo, aproximou-se e a sacudiu de leve, chamando seu nome. Ao ouvir alguém chamando, a menina primeiro franziu a testa, antes de abrir os olhos.
— Tia…? — a garotinha perguntou, sonolenta e confusa.
— Sim, sou eu. — A senhora Anastasia beliscou de leve a bochecha dela e disse. A essa altura, a garotinha já tinha despertado por completo ao saber que a tia tinha vindo. Porém, ela travou ao ver Lomesa. Não era a menina que a tinha salvado mais cedo dos valentões?
— Pequena, lembra de mim? — Lomesa sorriu para Valeria e perguntou.
Valeria assentiu, já que não gostava de falar.
— Eu vim te levar para casa comigo — disse Lomesa de novo.
Casa? Ao ouvir aquela palavra, os olhos da menina se iluminaram. Porém, no instante seguinte, seu olhar se apagou quando ela lançou um olhar desconfiado para a senhora Anastasia. Vendo isso, a senhora Anastasia explicou com calma:
— Ela veio te levar. Você vai morar com ela, na casa dela. A partir de agora, ela vai ser sua irmã mais velha. Escute o que ela diz e não apronte, está bem? — aconselhou a senhora Anastasia a Valeria.
Valeria assentiu obedientemente, o que era o mesmo que dizer que obedeceria a Lomesa.
— Certo, venha, vamos. — Lomesa estendeu a mão e chamou Valeria para ir até onde ela estava.
Valeria calçou as botas e vestiu uma jaqueta rosa-bebê. Usava um short jeans azul e uma regata branca. Estava tão adorável, como uma boneca Barbie. Olhou para o guarda-roupa e depois para Lomesa; a pergunta era óbvia.
— Você não precisa levar nada — respondeu Lomesa, paciente.
Ao ouvir isso, a garotinha parou de se preocupar, foi até ela e ficou ao lado de Lomesa. A menina gordinha, que tinha ouvido que Valeria seria adotada, ficou tão furiosa que desejou poder engoli-la viva. Se Valeria fosse embora, quem iria buscar comida para ela no refeitório? E lavar as meias dela? Quem seria o saco de pancadas dela se Valeria fosse embora? Queria protestar abertamente, mas tinha medo de que sua roupa suja viesse à tona se causasse um escândalo. Só pôde lançar a Valeria um olhar venenoso, às escondidas. Valeria, ao perceber o olhar, se encolheu na hora e recuou para mais perto de Lomesa. Lomesa, naturalmente, viu a mudança e os pequenos movimentos da menina. Imediatamente segurou a mão dela, para que parasse de se inquietar e para garantir que estava segura.
Então Lomesa se virou para a menina gordinha e semicerrrou os olhos. Parecia ter entendido alguma coisa. Aquela menina gordinha também maltratava Valeria. Essa garotinha? Pelo medo estampado no rosto dela, Lomesa tinha certeza do que suspeitava. Sentiu apenas amargura no peito. Por que uma criança tão pequena tinha de passar por tamanha tortura? Não ficaria traumatizada para o resto da vida? Lomesa planejou perguntar à menina, quando chegassem à sua casa, se ela precisava de ajuda.
— Certo, vamos, tia. — Lomesa saiu do devaneio e disse à senhora Anastasia.
E assim elas saíram. Lomesa ainda segurava a mão da garotinha quando deixaram o quarto. Nem se deram ao trabalho de se despedir da menina gordinha que tinha aberto a porta para elas antes. Quem daria atenção a alguém que gostava de intimidar crianças? Absolutamente ninguém!
Quando chegaram ao portão, Lomesa se virou e disse à senhora Anastasia:
— Tia, quando eu tiver um tempo, num desses dias, vou visitar o seu laboratório internacional de pesquisa, está bem? Não me esqueci — disse Lomesa à senhora Anastasia.
— Ainda bem que não se esqueceu. Certo, vocês duas vão, já está ficando tarde. — A senhora Anastasia acenou com a mão, apressando-as. Elas se despediram com um aceno e saíram pelos portões depois de se despedirem do tio que ficava na entrada.
A senhora Anastasia semicerrrou os olhos enquanto observava as costas de Lomesa. Por que tinha a sensação de que aquela garota tinha mudado? Ou estaria pensando demais? Esquece… talvez fosse porque estava envelhecendo e começando a superanalisar tudo. A senhora Anastasia não pensou muito nisso e voltou para o escritório.
Do outro lado, o táxi que Lomesa tinha chamado chegou. Lomesa colocou Valeria no carro primeiro e depois entrou. Em seguida, ajudou a garotinha a afivelar o cinto de segurança. O clima no carro era silencioso, mas confortável. Sem perceber, a menina adormeceu no ombro de Lomesa. Afinal, era uma criança, e crianças tendem a dormir a maior parte do tempo; não era estranho que dormisse naquela hora.
Lomesa olhou para a criança e franziu a testa. Havia tantas marcas no pescoço dela… tinham maltratado a ponto de estrangulá-la? Só de pensar nisso, Lomesa sentiu o peito apertar. Quantas marcas haveria pelo corpo inteiro? Ela decidiu examinar Valeria quando chegassem à sua casa. Enquanto observava a menina dormir, Lomesa pediu roupas de acordo com o tamanho dela. Pediu muitas. Tinha certeza de que seriam entregues assim que chegasse em casa. Enquanto Lomesa rolava a tela do celular e fazia os pedidos, o táxi em que estavam freou de repente, com um guincho. Se não estivessem de cinto, teriam sido arremessadas para a frente com o impacto.
— O que foi? — Lomesa franziu a testa e perguntou, ríspida, mas tomando cuidado para não acordar a criança.
— Desculpe, senhorita, parece que tem gente bloqueando o táxi. Vou descer e dar uma olhada — disse o motorista, saindo do carro. Ele queria saber o que aqueles caras realmente queriam.
