Capítulo 7: A garotinha tem medo de ficar sozinha
Lomesa saiu do carro e foi recebida pela cena de três marginais erguendo cassetetes, prontos para acertar o motorista do táxi, que parecia estar em desvantagem. Os olhos de Lomesa ficaram gelados na mesma hora. Ela estava sem paciência. Queria ir para casa e colocar a garotinha para dormir. Não queria perder mais tempo enrolando por aí, sem fazer nada.
De repente, ela se moveu. Os caras que iam partir para cima do motorista nem tiveram a chance: foram arremessados contra o chão. Só se ouviam gritos de dor. Dava para achar que era o som de um porco sendo abatido.
Lomesa sacudiu a poeira inexistente do casaco e se virou para ir embora. Os homens no chão não ousavam nem respirar. Estavam apavorados com aquela garota de aparência tão inocente. Ela era um monstro! Estava claramente usando uma fachada!
O motorista também ficou atônito, mas não se atreveu a dizer nada. Apenas agradeceu a Lomesa com sinceridade. Até ele tinha ficado com medo ao ver que estava cercado por bandidos. Só de imaginar o que teria acontecido se a garotinha não tivesse intervindo, ele suou frio.
— O que você está esperando? — Lomesa já tinha dado mais de três passos, mas não sentiu o motorista se mexer. Franziu a testa, virou-se para encarar o homem imóvel e perguntou, confusa.
— Hã? Sim! — O motorista saiu do transe e abriu a porta depressa, entrando no carro.
Lomesa fez o mesmo e trancou a porta. A viagem continuou. Ela observou com calma a criança dormindo. Nem percebeu a confusão do lado de fora. Ah… a inocência das crianças.
Depois de um longo trajeto, o táxi finalmente parou na casa de Lomesa. Ela pagou a corrida e se virou para tocar de leve no ombro da menina adormecida. Valeria se mexeu no sono e acordou.
— Vamos — disse Lomesa, pegando-a no colo para tirá-la do carro. Ela se virou para o motorista, agradeceu e, então, segurou a mão da garota e entrou na sua vila. Valeria olhou ao redor com curiosidade. No entanto, não parecia uma menina sem educação; tinha modos e se mostrava contida. Até Lomesa ficou admirada com aquela postura reservada.
Lomesa a fez sentar no sofá da sala enquanto pedia comida. Depois de fazer o pedido, saiu e subiu. Entrou no quarto de hóspedes e trocou os lençóis da cama. A partir dali, Valeria dormiria no quarto de hóspedes. Após alguns minutos arrumando o quarto, desceu para chamar Valeria.
— Este vai ser o seu quarto de agora em diante. Entre e dê uma olhada — Lomesa fez um carinho na cabeça dela e apontou para o quarto de hóspedes.
Porém, Lomesa esperou que ela se mexesse e, mesmo depois de um tempo, não sentiu movimento nenhum. Ao baixar a cabeça para olhar a menina, viu que Valeria estava agarrada à barra do seu casaco com força, recusando-se a soltar. Lomesa franziu a testa, confusa.
— O que foi? — Lomesa se agachou até ficar na mesma altura de Valeria e perguntou, sem entender.
— Irmã… eu vou dormir sozinha? — Valeria perguntou com cuidado.
— Sim. Você pode considerar esse quarto como seu a partir de agora — Lomesa assentiu e explicou com um sorriso.
— N-não… não, irmã… eu não quero ficar sozinha. Não, por favor… — Valeria de repente se agitou e caiu no choro. Lomesa se assustou com a reviravolta. O que houve? A menina tinha medo de ficar sozinha? Devia ser isso! Mas por que estava tão assustada? Por que a reação era tão forte?
— Tá bom, tá bom… Você vai dormir comigo no meu quarto. Tudo bem? — Lomesa imediatamente pegou Valeria no colo e a consolou em voz baixa.
— Sério? — Valeria perguntou, insegura, ao ouvir aquilo.
— Sério — Lomesa encarou Valeria nos olhos e garantiu.
— Para sempre? — Valeria perguntou de novo, a insegurança evidente na voz.
— Sim. Não se preocupe, eu estou aqui — Lomesa apaziguou a menina. Ela não sabia se a garota poderia continuar no mesmo quarto que ela quando crescesse. Mas isso não era o mais importante. O mais importante era garantir que a menina relaxasse e não ficasse agitada. Lomesa suspirou, impotente, por dentro. Crianças eram mesmo trabalhosas. Já que tinha escolhido adotar a criança, precisava se preparar para o que viesse.
Assim, Lomesa foi obrigada a mudar de rumo e puxar a garota em direção ao seu quarto.
Ela fez Valeria se sentar no sofá do quarto enquanto ia preparar uma banheira para ela. A garotinha parecia imunda. Dava a impressão de que era ela mesma quem sempre tomava banho sozinha. Por isso, não ficava limpa o bastante para Lomesa, que era obcecada por limpeza. Não que ela desprezasse a menina, não. Só achava que ela ficaria melhor se aquela camada de sujeira fosse esfregada até sair.
— Vem aqui. — Lomesa pôs a cabeça para fora do banheiro e chamou Valeria.
Ao ser chamada, Valeria a seguiu obedientemente para dentro do banheiro.
Quando Lomesa trancou a porta, foi até onde Valeria estava parada, quietinha, e começou a despi-la. Valeria parecia extremamente envergonhada e sem jeito.
Quando terminou, Lomesa olhou para Valeria e a viu abraçando o próprio corpo, assustada. Havia tantos ferimentos que Lomesa não conseguiu evitar uma dor surda no peito. Droga! Quem era tão cruel assim?
— Não tenha medo. A partir de agora eu vou te ajudar a se lavar, tá bom? — Lomesa tentou acalmá-la, enquanto Valeria ainda recuava, apavorada.
Vendo que a menina não parecia ter intenção de relaxar, Lomesa sentiu uma dor de cabeça chegando.
— Eu vou cuidar dos seus machucados, e você vai voltar a ficar linda. Anda, vamos te deixar limpa primeiro.
Ao ouvir isso, Valeria finalmente ergueu o olhar e foi até onde Lomesa estava. Ela só esperava que os ferimentos não deixassem cicatrizes. Quando Lomesa garantiu que ajudaria a tratar deles, ela se sentiu esperançosa.
Lomesa estendeu os braços e colocou a menina dentro da banheira. A água estava na temperatura certa; assim que Valeria foi acomodada, ficou tão confortável que se recostou, preguiçosamente. Quase começou a cochilar.
— Ainda não dorme. Você nem jantou — Lomesa alertou, lembrando-a com suavidade.
Valeria desistiu da ideia de dormir por enquanto. Afinal, estava com fome.
Vendo como ela era obediente, Lomesa ficou de bom humor. Foi até a prateleira do outro lado e pegou seu xampu. Como ainda não tinha comprado produtos de higiene para a menina, Valeria teria que usar os dela até o fim de semana, quando Lomesa teria tempo de sair e comprar algumas coisas.
Lomesa enxaguou o cabelo da criança três vezes antes de se dar por satisfeita. Valeria não resistiu; ficou sentada, obediente, esperando até Lomesa terminar de limpá-la. Quando acabou, Lomesa a enrolou imediatamente numa toalha grande e a carregou para fora do banheiro. Colocou-a no sofá do quarto. Nesse momento, a campainha tocou.
— Senta aqui e não se mexe — instruiu Lomesa antes de sair.
A menina assentiu e ficou ali, quietinha, esperando Lomesa voltar para o quarto.
Lomesa saiu do quarto e desceu para abrir a porta.
— Senhorita, por favor, assine aqui — disse o entregador. Ele tinha trazido as roupas que Lomesa havia pedido pela internet para a garotinha.
Lomesa assinou e agradeceu; o entregador foi embora imediatamente. Ela tinha acabado de pegar as encomendas e estava entrando em casa quando—
— Senhora, por favor, espere um momento.
Outro chamado veio do portão. Lomesa parou de supetão e se virou.
Viu outro entregador vindo apressado, um pouco ofegante. Só então se lembrou de que também tinha pedido comida. Ela se virou de volta, assinou o comprovante, pegou a entrega e agradeceu ao entregador, que foi embora em seguida. Dessa vez, ela juntou tudo e entrou em casa. Sem mais interrupções, entrou sem problemas. Lomesa colocou a comida sobre a mesa de jantar, pegou o pacote com as roupas da menina e subiu. Quando entrou no quarto, encontrou a garota sentada obedientemente, toda enrolada. Parecia um pinguim. Que fofura. Lomesa sorriu, satisfeita. Ela gostava de gente obediente. Pegou o hidratante ao lado e fez um gesto para ela.
— Vem aqui — chamou Lomesa.
Valeria desceu do sofá e foi na ponta dos pés até Lomesa. O chão estava coberto por um carpete grosso, então Lomesa não se preocupou com os pés dela ficarem gelados. Quando a menina parou diante dela, Lomesa desenrolou a toalha que a cobria e começou a passar o hidratante no corpo dela. A essa altura, a pele já estava seca. Enquanto passava o creme nos bracinhos finos, tocou sem querer em algo áspero na palma da mão esquerda. A menina se encolheu na mesma hora e fechou a mão com força.
— Não se mexe. Deixa eu ver primeiro — disse Lomesa, com o rosto tomado por uma seriedade solene.
