Capítulo 8: Babá

Vendo que Lomesa insistia, Valeria só pôde morder o lábio e, obediente, abrir a mão devagar. A visão que se apresentou a Lomesa quando ela olhou a palma da menina era realmente horrível. A palma macia e pálida tinha um corte que ia do dedo mindinho até o pulso. Ainda parecia recente, o que significava que ela tinha se machucado mais cedo naquele dia; o talho deixado pelo ferimento era de dar náuseas, tão sangrento.

Lomesa mordeu o lábio para não perder o controle. Naquele momento, ela só queria matar alguém. No entanto, não queria assustar a garotinha, então reprimiu o impulso. Assim, pegou um tubo de pomada na prateleira e começou a aplicá-la na palma dela. A sensação refrescante do remédio fez a criança querer puxar a mão de volta.

— Aguenta só um pouquinho, tá? — Lomesa abaixou a cabeça e encarou os olhos de Valeria enquanto a acalmava.

Valeria parou de se mexer até Lomesa terminar de passar a pomada no ferimento e envolvê-lo com um esparadrapo elástico bonitinho.

Depois disso, Lomesa escolheu um conjunto de roupas da sacola que tinha sido entregue. Pegou uma calça de moletom branca, fofinha, e um moletom. Eram um pouco largos; assim, quando a menina vestiu, ficou absurdamente fofa. Fofa a ponto de ser impossível tirar os olhos dela.

— Uau, meu bebê é tão fofo — provocou Lomesa, admirada.

A menina piscou os olhos roxos, parecendo um gatinho.

— Quer se ver? — perguntou Lomesa de repente.

Ao ouvir a pergunta, a menina assentiu; ela também queria ver como estava.

Lomesa segurou a mão dela e a colocou de frente para o espelho. Quando se viu refletida, a menina ficou tão atônita que deixou a boca entreaberta. Não sabia como descrever o que sentia.

— Você gostou? — Lomesa perguntou, ansiosa.

— Sim, obrigada. — Dessa vez, Valeria conseguiu dizer algumas palavras. Ela estava realmente grata.

— Boba… Da próxima vez, quando você vir alguma coisa de que gostar, me diga, viu? Eu compro pra você, tá? — Lomesa beliscou a bochecha dela e disse.

Ao ouvir isso, a menina sentiu vontade de chorar. Ela abraçou Lomesa com força na mesma hora.

Lomesa, abraçada de surpresa, primeiro congelou; depois, pegou a menina no colo e a apertou contra si. Sentindo a umidade do cabelo dela, Lomesa fez a garotinha se sentar no sofá enquanto secava seus cabelos com o secador.

Depois de terminar de arrumar a menina, Lomesa pegou o próprio pijama e correu para o banheiro. Precisava se apressar, para que sua garotinha não passasse fome. E, de fato, dessa vez Lomesa não demorou tanto quanto costumava. Em cinco minutos, saiu do banheiro já vestida. Secou o cabelo às pressas e, em seguida, segurou a mão da menina e a levou até a mesa de jantar. Como a mesa era um pouco alta, Lomesa colocou a menina no colo. Depois de servir a comida, alimentou a menina primeiro. De vez em quando, também comia a sua parte.

Lomesa nunca soube o que era contentamento até ver a garotinha arrotar, satisfeita, depois de comer até se fartar. A menina quis suco espremido na hora, mas Lomesa recusou na lata. A menina pareceu abatida por causa disso.

— Bebê, seja boazinha. Está tão frio agora… não faz bem pro seu corpo. Amanhã, durante o dia, eu deixo você tomar, tá? — Lomesa quase cedeu à expressão fofa, mas, ao se lembrar da condição de saúde dela, endureceu o coração e negou.

— Espera aqui — disse Lomesa, e foi para a cozinha.

Cinco minutos depois, voltou com um copo de leite morno. Quando Valeria viu o leite, seus olhos brilharam. Leite! Ela gostava de leite. Infelizmente, no orfanato, o leite dela sempre era roubado pela colega de quarto. Ela mal conseguia provar leite enquanto vivia lá. Assim que Lomesa chegou perto, colocou-a no colo de novo, mas dessa vez não a alimentou. Valeria tomou o leite sozinha.

Quando ela terminou e Lomesa limpou a mesa, as duas subiram. Lomesa pegou a menina no colo e a colocou na cama. Não a deixou se deitar de imediato; em vez disso, fez com que ela se sentasse primeiro. Era porque tinha algo para conversar com a criança. Depois de explicar tudo e dar instruções sobre o que ela podia e não podia fazer, a menina assentiu, obediente.

— Lembre-se de não abrir a porta de jeito nenhum, entendeu? E a cozinha está absolutamente proibida — disse Lomesa, num tom severo.

Valeria entendeu que Lomesa se preocupava com ela, então assentiu obediente.

Depois disso, Lomesa ajeitou o travesseiro ao lado da menina e fez com que ela apoiasse a cabeça nele. Em seguida, cobriu-a com um cobertor fofo e bem grosso.

— Vá dormir. Boa noite. — Lomesa deu um beijinho na bochecha dela.

— Boa noite. — respondeu a menina, baixinho. Estava com sono, principalmente depois de ter comido demais à mesa não fazia muito tempo.

Depois que Lomesa apagou a luz do abajur, cobriu-se com o mesmo cobertor grosso que tinha usado para cobrir Valeria. Então puxou a menina para os braços. Quando Valeria foi envolvida pelo abraço de Lomesa, sentiu-se tão segura e protegida que, na mesma hora, procurou uma posição mais confortável e se encolheu obediente. Lomesa olhou para a menina, e o canto dos lábios se contraiu. A pequena tinha mesmo usado a mão dela como travesseiro?

No dia seguinte, o alarme tocou e acordou Lomesa. Era segunda-feira, então ela precisava se levantar e se preparar para a escola. Ao ver a menina ainda dormindo em seus braços, ela passou a se mover com mais delicadeza. Com cuidado, soltou as mãos da garota, que estavam firmemente enroladas nela. Depois de conseguir, apoiou a cabeça de Valeria com suavidade no travesseiro fofo e a cobriu bem, antes de ir ao banheiro para se arrumar.

Em seguida, Lomesa foi para a cozinha e preparou chá para as duas. Por sorte, havia muffins, pãezinhos e pão na cozinha. Ela apenas aqueceu os pãezinhos e os muffins no micro-ondas. Enquanto aqueciam, fez suco de morango e suco de manga, ambos espremidos na hora. Colocou-os numa jarra e tampou, depois deixou tudo sobre a mesa de jantar. Aquilo era para a menina. Lomesa também colocou na mesa alguns tipos diferentes de lanches para ela. Não eram muitos, apenas uma quantidade moderada. Não queria que a garota ficasse com dor de barriga. Afinal, ela ainda estava muito fraca.

Ela não se esqueceu de colocar um iPad na mesa também. Aquilo ajudaria a menina a matar o tédio. Quando se certificou de que estava tudo pronto, Lomesa saiu de casa e foi para a escola. Dessa vez, não pegou um táxi. Em vez disso, escolheu correr. Afinal, tinha ficado um pouco gordinha por causa dos remédios que Samantha vinha colocando escondido na comida.

Enquanto corria, recebeu uma ligação da Sra. Anastasia, a diretora do orfanato.

— Oi, tia? — cumprimentou Lomesa, animada.

— Olá. Estou ligando para avisar que a babá que você me pediu para ajudar a encontrar já está aqui. O que devo dizer a ela? — perguntou a Sra. Anastasia do outro lado da linha.

— Ah, sim. Passe este endereço para ela e diga para me esperar lá. Eu vou buscá-la depois da escola — disse Lomesa, informando o endereço e orientando a diretora num tom suave.

— Certo. Vou desligar, tchau — disse a Sra. Anastasia, depois de anotar o endereço que Lomesa acabara de ditar.

— Tchau. — Lomesa se despediu e continuou correndo.

Ela seguiu correndo. No caminho, depois de uma curta distância, ouviu choros abafados no beco perto da rua. Decidiu ir dar uma olhada.

Quando chegou ao local, viu uma garota sendo pressionada contra o chão por um homem parrudo; as roupas dela estavam rasgadas, e ela parecia miserável e desgrenhada.

Sem pensar em mais nada, Lomesa deu um chute no homem em cima da garota, arremessando-o a alguns metros dali. Ele cuspiu sangue na hora. Quando os outros viram aquilo, se viraram e saíram disparados, deixando o homem no chão, numa cena patética. Lomesa nem se deu ao trabalho de olhar para ele. Tirou a jaqueta e a entregou à menina, que ainda estava no chão. Com o perigo eliminado, Lomesa se virou e voltou para a rua que levava à escola.

— Moça — chamou a garota no chão.

Quando Lomesa olhou para ela—

— Obrigada. — A menina se curvou e agradeceu. Lomesa apenas assentiu, indiferente, e continuou correndo. Correu até a sala de aula; gotículas de suor já se acumulavam na testa, fazendo a franja grudar na pele.

De repente, uma voz carregada de sarcasmo ecoou na sala:

— Olha só! A caipira chegou!

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