Capítulo 9: Ensinando uma lição aos rufiões

Quando a voz do homem cessou, todos se viraram para olhar Lomesa, com deboche e desprezo estampados no olhar. Lomesa, porém, não ligou para aqueles olhares estranhos. Caminhou até o armário e só então percebeu o tamanho da bagunça que a esperava. Todos os seus livros estavam espalhados pelo chão; algumas páginas tinham até sido rasgadas.

Nesse instante, a aura dela mudou de repente. Lomesa emanou uma frieza assustadora, perigosa, e os colegas não conseguiram evitar puxar o ar com força.

— Quem foi? — Lomesa se virou de súbito, os olhos semicerrados.

— Eu. E daí? Vai me punir? — respondeu na hora, cheio de orgulho, um garoto de aparência arrogante. Ao encarar Lomesa, ergueu o queixo com desdém. Tinha certeza de que a garota não ousaria encostar nele. Afinal, viviam pregando peças nela, e ela sempre permanecia retraída.

Mas, dessa vez, o garoto arrogante estava terrivelmente enganado.

Antes que pudesse reagir, viu uma sombra passar num lampejo e parar ao seu lado, silenciosa. No instante em que Lomesa chegou perto, não perdeu tempo. Agarrou-o pelo pescoço com força e o ergueu da cadeira. Naquele momento, o garoto — Rollins — ficou tão chocado que levantou a cabeça bruscamente para ver quem o segurava. Quando olhou para cima e viu aqueles olhos frios e assassinos cravados nele, o medo foi tanto que seu rosto empalideceu.

Dessa vez, ele sentiu como se estivesse diante de um demônio recém-saído do inferno. A garota à sua frente parecia aterradoramente gelada. Principalmente a intenção de matar que se acumulava no olhar dela. Fazia Lomesa parecer um demônio sedento de sangue, vindo cobrar vingança.

Foi então que Rollins finalmente entendeu, de verdade, o que era o medo — e como ele se sentia. E, ao mesmo tempo, se arrependeu de ter provocado Lomesa. Abriu a boca, prestes a falar, quando Lomesa o arremessou para o lado. Ele se chocou contra a parede, num estado lamentável.

Quando os capangas dele viram aquilo, ficaram furiosos. Os quatro avançaram contra Lomesa ao mesmo tempo. Lomesa parecia relaxada; mantinha até uma das mãos no bolso do agasalho. Rollins ia avisá-los, mas se atrasou um segundo.

Quando todos acharam que Lomesa seria espancada até a morte, ela desviou com agilidade do soco que vinha direto para o seu rosto. Ao mesmo tempo, usou a perna para chutar o outro que vinha na investida. Ele bateu numa carteira e soltou um gemido abafado de dor. Lomesa quebrou o pulso do sujeito que tentou socá-la de novo, e ele cuspiu sangue na hora. Os dois restantes foram derrubados com a mesma habilidade: um chute para cada um.

O processo inteiro não levou nem um minuto, mas, pelas expressões contorcidas dos garotos, os alunos da sala sentiam dor só de olhar.

Passado o choque inicial, os estudantes encararam Lomesa como se tivessem visto um fantasma. Ela era assustadora demais, estranha demais. Não era ela a caipira de ontem, que sempre baixava a cabeça, mansa, ouvindo as provocações e os insultos dos colegas? Como podia ter mudado da noite para o dia? Será que tinha acontecido alguma coisa que a transformou?

Sim, alguma coisa tinha mudado. Mas Lomesa não tinha a menor intenção de contar a ninguém o que, exatamente, aconteceu. Era um segredo que ela enterraria no coração até o dia em que morresse.

Agora, Lomesa caminhava devagar até onde Rollins estava sentado no chão; a cada passo, o coração dele martelava de medo. Quando ela parou diante dele, ele se encolheu na hora, olhando-a apavorado.

— Você sabe o que tem que fazer, né? Vou te dar um minuto.

Para os alunos que assistiam, Lomesa parecia estar falando de modo casual. Mas só Rollins, no chão, conseguia sentir a pressão esmagadora que ela emanava naquele momento. Ele só tinha vontade de correr para bem longe dela.

— Sim, sim... desculpa — disse Rollins, respeitoso, e se apressou.

A turma inteira viu Rollins recolher os livros do chão e arrumá-los direitinho no armário dela. Ele ainda limpou a poeira do assento dela. As pessoas ficaram tão chocadas que demoraram a conseguir fechar a boca. Mesmo assim, ninguém ousou fazer um som; Lomesa tinha realmente aterrorizado todos eles.

— Volte para o seu lugar — ordenou Lomesa a Rollins, que ainda estava de pé, de cabeça baixa, diante da mesa dela. Ao ouvir isso, Rollins soltou, em segredo, um suspiro de alívio e correu para a carteira. Quando os capangas viram o que ele fez, imitaram-no e também voltaram para seus lugares. Percebendo o silêncio na sala, Lomesa esboçou um sorriso de canto, satisfeita. Era esse o efeito que ela queria causar. Queria que todos soubessem que ela não era alguém com quem se brincava. Não queria que pisassem nela. Aquilo não tinha nada a ver com quem ela era. Na verdade, ela desprezava o estado em que se encontrava, especialmente antes de renascer.

Só quando Lomesa se virou e voltou a cuidar das próprias coisas é que os outros ousaram respirar mais alto. Droga! Ela tinha assustado todo mundo. Mas o medo já estava gravado no coração deles. Sabiam que nunca conseguiriam vencer Lomesa, então juraram, em silêncio, evitar provocá-la.

Naquele dia, Lomesa conseguiu, de fato, um momento de paz. A sensação era nova e, ao mesmo tempo, satisfatória. Ela realmente não gostava de barulho. Detestava conversar também. Pelo menos não precisava lidar com gente problemática. Surpreendentemente, Samantha não foi atrás dela em nenhum momento. Estranho. Será que tinha faltado?

Quando as aulas terminaram naquele dia, Lomesa pegou um táxi imediatamente e foi ao lugar onde havia dito à babá para esperar, por ordem da tia. Ao descer, pagou a corrida e entrou no restaurante. Assim que viu a pessoa que procurava, foi direto até ela.

— Olá — disse Lomesa, estendendo a mão para a babá.

— Olá, madame. Meu nome é Lily — apresentou-se a babá, apertando a mão estendida de Lomesa.

— Prazer, Lomesa — Lomesa se apresentou de forma breve.

Depois das apresentações, Lomesa tomou a dianteira e as duas saíram do restaurante. Entraram num táxi e seguiram para a casa de Lomesa. No caminho, Lomesa contou a Lily sobre Valeria, incluindo a saúde e o estado psicológico da menina. Ela explicou tudo não por medo de que Lily maltratasse Valeria, mas para lhe dar a chance de desistir ali mesmo caso achasse que seria demais. Para sua surpresa, Lily não se incomodou com nada do que Lomesa disse. Era de se esperar. Afinal, ela era a serva mais confiável da Sra. Anastasia. Dada a rigidez da diretora, Lomesa tinha certeza de que Lily não reclamaria de palavra alguma, desde que a tia Anastasia tivesse dado a ordem.

Pouco depois, as duas chegaram à vila de Lomesa. Lomesa digitou a senha na fechadura e entrou, sem esquecer de chamar Lily para dentro. Assim que passaram pela porta, viram um pequeno vulto encolhido no sofá, em posição fetal. Lomesa se lembrou de um livro de psicologia que tinha lido: dizia que, quando alguém dorme em posição fetal, é porque se sente inseguro. O coração de Lomesa doeu ao pensar em tudo o que aquela garotinha tinha passado tão cedo. Como Valeria estava dormindo, Lomesa desviou o olhar e levou Lily primeiro para o quarto dela, no andar de cima. Conduziu-a ao quarto que havia preparado no dia anterior. A princípio, seria o quarto de Valeria, mas não havia necessidade, já que a menina estava morando com Lomesa agora. Lomesa ficou muito grata por ter arrumado tudo no dia anterior; isso a poupou de um grande trabalho.

Ela se desculpou e foi ao próprio quarto deixar a bolsa. Depois de colocá-la sobre a mesa de estudos, voltou para o andar de baixo para ver como estava sua garotinha. Nesse momento, a menina se mexeu no sono e, depois de muito esforço, finalmente acordou. Talvez a movimentação delas entrando na casa a tivesse perturbado. Ainda estava deitada no sofá, atordoada, quando sentiu alguém abraçá-la. Ao abraçá-la, Lomesa a colocou no colo.

— Irmã! — Os olhos da menina se iluminaram no instante em que viu que Lomesa tinha voltado. Ela tinha sentido muita falta da irmã mais velha durante o dia.

— Hum, eu estou aqui. Está com fome? — Lomesa fez carinho na cabeça dela e perguntou.

— Não. Olha, eu até terminei aquele pacote de lanches. — Valeria apontou para o pacote de batatas na mesa. Era o menor tamanho. Os lábios de Lomesa tremeram. Era isso que ela queria dizer com “não estou com fome”?

— Vamos te deixar limpinha. Depois disso, eu vou te apresentar a alguém, está bem? — Lomesa pegou a menina no colo e subiu as escadas.

Enquanto isso, ao ouvir o relato do que tinha acontecido na sala de Lomesa naquele dia, Samantha estreitou os olhos, perigosa.

“Não. Isso não pode continuar, de jeito nenhum!”

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