Capítulo 8 Salão cheio

🤍 Lorenzo

O salão estava cheio de vozes abafadas, o som de risadas ecoando pelas paredes decoradas luxuosamente. Casamentos como esse eram sempre grandiosos, especialmente quando envolviam figuras como Giovane e Claudia. O casal, ambos pertencentes a famílias importantes dentro do nosso círculo, estava cercado por amigos e aliados da máfia. Uma ocasião perfeita para celebrar e reforçar alianças, e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para manter os negócios em ordem.

Eu estava no meio de uma conversa com alguns amigos da máfia, todos homens de confiança, aqueles que eu podia contar para manter a ordem nas regiões que controlávamos. Salvatore e Alessandro estavam ao meu lado, rindo e comentando sobre o evento. Eles eram como irmãos para mim, homens com quem eu compartilhava muito mais do que apenas negócios. Sabiam dos sacrifícios que fizemos para manter nossas famílias no poder.

— Então, Lorenzo — disse Alessandro, com um sorriso maroto. — Eu ouvi que aquele problema com Ricci foi resolvido.

Acenei levemente, levando o copo de uísque aos lábios, sentindo o líquido queimar levemente a garganta.

— Resolvido. Ricci não será mais um problema — respondi calmamente, com a voz baixa. Não era necessário entrar em detalhes, todos ali sabiam o que “resolvido” significava.

Salvatore riu, seu riso profundo ecoando.

— Sempre direto ao ponto, Lorenzo. É por isso que você está onde está. Sem piedade para aqueles que vacilam.

Dei um leve sorriso, mas meus pensamentos estavam em outro lugar. Ricci havia cometido um erro grave e, no nosso mundo, erros como aquele eram imperdoáveis. Ainda assim, mesmo depois de tantos anos, a sensação de dar o golpe final sempre deixava um gosto amargo. Até porque Ricci não era qualquer um dentro da nossa organização, mas parece que ele não se considerava assim tão importante.

Antes que eu pudesse continuar a conversa, vi Giovane se aproximando. Ele era o centro das atenções, como sempre, e havia uma aura de poder ao seu redor que não passava despercebida. Giovane era um homem forte, tanto fisicamente quanto em presença, e seu casamento com Claudia consolidava ainda mais seu lugar na organização.

Quando ele se aproximou, cumprimentando os convidados com apertos de mão firmes e risadas, eu me inclinei em sua direção e sussurrei uma brincadeira no seu ouvido.

— Devo lhe parabenizar ou dar meus pêsames? — perguntei com um sorriso de canto.

Giovane riu, um riso grave que parecia ressoar no salão.

— Pode fazer ambos, meu amigo — ele respondeu, batendo no meu ombro. — Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida, mas também o início de um compromisso eterno. Vamos ver como eu me saio. Não queria deixar meus brinquedos noturnos, mas fazer o quê? Já era. — Ele riu nos levando junto.

Alessandro, que estava ao nosso lado, acrescentou:

— Vai se sair bem, Giovane. Claudia vai te manter na linha.

Giovane acenou com a cabeça, concordando, mas em seu olhar havia uma faísca de apreensão, como se o peso da responsabilidade recém-assumida começasse a se instalar. Eu sabia que ele estava feliz, mas também sabia que, assim como eu, o casamento trazia uma nova camada de vulnerabilidade. Ele tinha ainda mais a proteger agora, e teria que abrir mão de muitas coisas na qual estava acostumado.

Enquanto conversávamos, algo chamou minha atenção. Um flash de câmera cortou o salão. Meu olhar vagou discretamente, evitando dar a entender que estava distraído. Mais flashes surgiram, e então, me virei e a vi.

Camille.

Ela estava do outro lado do salão, sua câmera em mãos enquanto me capturava. Ela parecia tão concentrada, tão profissional, mas a presença dela ali me surpreendeu. Eu não fazia ideia de que ela estaria no casamento, e vendo-a ali, tão linda quanto eu lembrava, senti uma faísca de algo que eu não conseguia controlar.

Nossos olhares se cruzaram, e por um breve segundo, o salão inteiro pareceu se silenciar. Ela parou, ainda segurando a câmera, e me olhou. Mas não houve desconforto em seu olhar, apenas uma curiosidade mútua que parecia crescer a cada encontro. Eu não conseguia evitar o sorriso que se formou no meu rosto. Algo nela me atraía, de um jeito que não acontecia há muito tempo. Até que ela apertou o clic e tirou algumas fotos minhas sorrindo.

— Com licença, rapazes — disse eu, ainda com o sorriso no rosto. Deixei Giovane, Salvatore e Alessandro para trás enquanto me preparava para ir até ela.

No caminho, peguei uma taça de vinho tinto de uma das bandejas que passavam ao meu lado. O vinho estava perfeito, sua cor rubi reluzente sob as luzes suaves do salão. Tomei um gole, sentindo o sabor profundo e encorpado, enquanto caminhava calmamente em direção a Camille.

Cada passo que eu dava parecia ser calculado, mas dentro de mim, eu estava curioso para saber como ela reagiria ao me ver mais perto.

Lá estava ela, em meio a tantas pessoas, capturando cada momento com sua habilidade de fotógrafa. Ela estava deslumbrante naquela noite, o vestido verde-esmeralda fluía com elegância, e seu cabelo solto em ondas suaves destacava sua beleza natural.

À medida que me aproximava, tomei mais um gole do vinho, tentando manter a compostura, mas meus pensamentos estavam focados nela. A presença dela me intrigava, me deixava desconfortavelmente ciente do que estava acontecendo entre nós. Eu sabia que tinha que ser cuidadoso. A vida que eu levava não era uma que permitisse distrações, muito menos sentimentos. Mas ali, naquele momento, tudo isso parecia irrelevante.

Finalmente, cheguei ao lado dela. Ela levantou o olhar da câmera, percebendo que eu estava bem ali, a centímetros de distância.

— Camille — falei suavemente, inclinando-me um pouco. — O destino parece gostar de brincar conosco.

Ela sorriu, um sorriso tímido.

— Ou talvez você esteja me seguindo, Lorenzo — respondeu, seu tom provocador, mas leve.

Eu ri, um som que há muito tempo não escapava com tanta facilidade. O clima ao redor parecia ter mudado, e por um momento, era como se só nós dois estivéssemos no salão.

— Se eu soubesse que você estaria aqui, teria me preparado melhor — brinquei, levantando a taça de vinho e tomando mais um gole, enquanto a olhava diretamente nos olhos.

Camille parecia relaxada, mas, ao mesmo tempo, havia algo em seus olhos que me dizia que ela também estava tentando entender o que estava acontecendo entre nós. O que quer que fosse, estava claro que não era apenas coincidência.

— Parece que nossos caminhos estão mais conectados do que imaginávamos — ela disse, sua voz suave, mas firme.

Concordei com um aceno, observando-a atentamente. Ela era diferente. Diferente de tudo o que eu havia encontrado nos últimos anos.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo