Capítulo 2: The Pack Punching Bag, pt 1
Seren
— Desça aqui, sua rameira!! — gritou o Alfa James do pé da escadaria central da casa da matilha.
— E agora? — resmunguei para mim mesma, enquanto me apressava até a escada. Você não fazia um alfa esperar, e ele parecia especialmente furioso naquela manhã.
“Quem sabe. Mas, seja o que for, provavelmente vai acabar sendo culpa nossa”, disse minha loba, Kara. Eu sabia que ela tinha razão. Com o Alfa, a culpa era sempre minha. Meu papel aqui na Blood Moon era ser o saco de pancadas da matilha, e sempre tinha sido. Não me lembro de uma época em que eu não fosse a culpada por cada coisinha que dava errado — imaginária ou não.
“Nosso aniversário está chegando, Kara. Só precisamos aguentar mais um pouco e vamos poder sair daqui”, eu disse a ela.
Cheguei ao último degrau e mantive o olhar baixo, tanto para que o Alfa não percebesse que eu estava falando com minha loba quanto para evitar qualquer sinal de desrespeito, o que poderia resultar num nariz quebrado ou coisa pior.
— Sim, Alfa? — perguntei.
O Alfa James não sabia que eu tinha uma loba. Ninguém nessa matilha maldita pela deusa sabia. Kara veio até mim quando eu tinha apenas dez anos — mais cedo do que a maioria, que costuma receber o lobo aos dezesseis. A primeira transformação acontece aos dezoito. Nossos lobos chegam antes da transformação para que possamos desenvolver o vínculo com eles, o que torna o processo muito mais fácil. Quando Kara veio cedo, ela foi categórica: ninguém na Matilha Blood Moon podia saber que ela estava aqui, que eu sequer tinha uma loba, e que ela podia compartilhar comigo sua cura e sua força desde o começo. Ela mascara nosso cheiro, então eles ainda acreditam que eu sou sem loba, mesmo eu estando perto do meu décimo oitavo aniversário. A parte ruim é que o alvo nas minhas costas ficou ainda maior por causa do meu “status” de sem loba, mas Kara fazia o melhor que podia para ajudar com os ferimentos que eu sofria.
— Vamos receber convidados daqui a dois dias, já que seremos os anfitriões do baile de acasalamento deste trimestre. Quero a casa da matilha impecável, as suítes de hóspedes alfa reluzindo, e nenhum sinal de você enquanto os convidados estiverem aqui. Se qualquer coisa — qualquer coisa mesmo — acontecer nesses próximos dois dias e eu não gostar, você vai passar a visita inteira deles nas nossas masmorras. Entendeu? — rosnou ele.
— Sim, Alfa. Vou começar a trabalhar agora mesmo. Posso ir?
O Alfa James me acertou com um tapa de costas da mão antes mesmo de eu terminar de perguntar, mas foi de leve, quase como um gesto distraído. Mal doeu.
— Sua putinha insolente. Vá começar e lembre do que eu disse. É melhor que tudo esteja perfeito — declarou, e então se virou para entrar no escritório.
Fiquei ali até ele fechar a porta do escritório e então subi para começar a preparar as suítes de hóspedes.
“Você sabe que ele vai achar alguma besteira como desculpa e enfiar a gente na masmorra quando terminarmos de limpar este lugar, né?” Kara me perguntou.
“Sei. Vou ver se consigo levar algumas coisas escondidas para lá entre agora e então, porque não sabemos quanto tempo esses ‘convidados’ vão ficar. Você sabe que ele não vai se preocupar com coisinhas insignificantes como comida e água enquanto estivermos presas lá embaixo; ele nunca se preocupa”, suspirei. “Três dias, Kara. Só três dias até fazermos dezoito e podermos fugir desta matilha.”
“Enquanto isso, eu vou manter a gente escondida. Você só fique fora do caminho o máximo que conseguir”, ela respondeu, e então se recolheu ao fundo da minha mente.
A essa altura, eu já tinha chegado ao andar de hóspedes da casa da alcateia e fui até o armário do corredor onde ficavam todos os produtos de limpeza e os lençóis limpos. Enquanto eu juntava o necessário, ouvi risadinhas e cochichos vindo do fim do corredor e soube que meu dia estava prestes a piorar. Com um gemido pesado por dentro e uma respiração funda, fechei a porta e me virei para encarar Amelia, a filha do Alfa, e o grupinho dela.
— Bom dia, senhorita Amelia. Tem alguma coisa em que eu possa ajudar? — perguntei.
— Sim, vira-lata, você pode se jogar no chão e morrer quando quiser. Já estou cansada de olhar pra sua cara — ela rosnou, enquanto as três amigas davam risadinhas atrás dela.
Eu não ousei encará-la nem responder, a menos que quisesse passar os próximos dois dias fazendo todo o meu trabalho com alguma coisa quebrada; então apenas fiquei quieta, com os olhos baixos. Kara se agitou no fundo da minha mente, atenta caso precisasse intervir, mas na maior parte do tempo eu só tinha que tolerar o esquadrão de vacas.
— Mas já que isso aparentemente é improvável, quero que você limpe a minha suíte. Quero tudo brilhando. O Alfa de Crescent Moon foi convidado e, se ele aparecer, eu pretendo garantir que ele veja por dentro dela. — Ela sorriu com malícia para as amigas enquanto falava. — Vou botar ele na cama e depois a gente dá um jeito de fazer com que ele tenha que me aceitar como Luna. Assim que o papai descobrir que a princesinha preciosa e inocente dele não é mais virgem, ele não vai aceitar um não como resposta do Alfa Duncan. Afinal, eu sou a filhinha dele — ela riu.
Ela até parecia uma princesa, com o cabelo loiro comprido e ondulado e os olhos azuis brilhantes, um narizinho pequeno e empinado e uma pele que denunciava que ela pegava sol só o bastante para ficar levemente dourada, mas não havia nada nela que fosse inocente ou precioso. Amelia era uma conspiradora cruel, que já tinha transado com metade dos guerreiros só porque podia. Eu a tinha visto com pelo menos seis homens diferentes, já que ninguém costumava reparar em mim enquanto eu cumpria minhas tarefas pela casa da alcateia. Saber que ela pretendia prender um Alfa num relacionamento só para virar Luna não me surpreendia. O que me surpreendeu foi a sensação imediata de incômodo e o aperto no estômago ao ouvir o nome do Alfa Duncan, e a pontinha de raiva que começou a ferver bem no fundo. Aquilo era novidade.
— Vou cuidar disso agora mesmo, senhorita Amelia — respondi, engolindo o que eu realmente queria dizer.
— É bom mesmo. Não quero ver um grãozinho de sujeira. E faça questão de que meus vestidos estejam passados e prontos, e que meus sapatos estejam limpos também. Eu preciso estar no meu melhor. Ah, e vira-lata? Se você abrir a boca sobre os meus planos pra alguém, eu digo pro papai que te peguei roubando comida antes de eu te espancar até você ficar toda ensanguentada. — Ela se virou, rindo com as garotas, já de volta a conversar e tramar sobre a visita que estava por vir.
