Capítulo 2 2. Renascido

Ponto de vista da Hope

Abro os olhos com um pequeno gemido. Minha cabeça lateja de forma surda enquanto uma luz suave atravessa o ambiente. O rangido de uma cadeira chama minha atenção.

— Hope?

A voz do meu pai me puxa da névoa. Eu pisco uma vez, duas, e o mundo se organiza, fica nítido. Inspiro um baque de ar, em choque.

Eu consigo ver.

Minha loba ganhe, tão confusa quanto eu.

Dou um pulo, sentando de vez, com o coração martelando contra minhas costelas. A última coisa de que me lembro é da queda do penhasco.

Engulo em seco, examinando a expressão preocupada do meu pai. A pele dele está lisa, e as ruguinhas em volta dos olhos diminuíram.

— Pai? — Minha voz falha. — O-o que aconteceu?

Ele aperta meu ombro, e eu preciso me concentrar para segurar as lágrimas repentinas que ameaçam cair.

— Você levou uma pancada na cabeça enquanto assistia a uma luta de treino. Um dos guerreiros foi descuidado. Você desmaiou. — O sorriso dele é forçado enquanto passa um dedo suave pela minha testa. Eu estremeço quando ele toca o lado esquerdo da minha testa. — A curandeira disse que você teve sorte de sair só com um belo galo.

Isso não pode ser possível. Eu conheço essa história. Esse momento, mas não é possível… é?

Eu estudo o rosto dele. Está mais liso. Nenhum fio grisalho na barba, nenhum leve mancar na postura.

Pisco de novo, absorvendo o quarto.

— Quanto tempo eu fiquei apagada?

— Não muito. Algumas horas, no máximo. — Ele franze a testa, analisando meu rosto como se pudesse enxergar qualquer problema que eu tivesse. — Como você está se sentindo?

A pressão aumenta atrás dos meus olhos. Minha loba lamenta. Nada disso faz sentido. Memórias se sobrepõem à realidade enquanto olho para as paredes caiadas de branco e o piso de madeira arranhado perto da cama. O cheiro de agulhas de pinheiro e antisséptico. Abafando o aroma de lenha do meu pai.

A cena é o passado ganhando vida, uma de anos atrás. Da primeira vez que conheci o Keith.

Como isso é possível?

O que aconteceu depois da queda?

Quem me empurrou?

Sinto a ansiedade subir, mas sou incapaz de interromper a espiral.

Jogo as pernas para fora da cama, ignorando o quanto estão bambas.

— Que dia é hoje?

— Hope… — Meu pai tenta me alcançar, querendo me guiar de volta para a cama.

— Que dia é hoje? — grito, puxando meu braço para longe dele.

Isso não pode ser real.

Minha loba arranha e empurra a barreira da minha mente, sentindo meu desespero e querendo me proteger dele.

Meu pai hesita.

— Quinze de março.

— E o ano?

— Dois mil e seis. O mesmo de hoje de manhã. — Ele segura meu braço com delicadeza. — Que tal a gente sentar?

Deixo que ele me conduza de volta para a cama.

Minha respiração falha. Sinto meu coração tropeçar, e disparo:

— Eu tenho dezoito anos.

Ele me lança um olhar ainda mais preocupado.

— Tem…

Agarro o cobertor em busca de conforto.

Ontem eu tinha vinte e um.

A náusea que me toma faz com que eu agradeça à deusa por estar sentada. Minha loba anda de um lado para o outro, mas não tenta me tirar desse triângulo de pensamentos.

Eu tinha vinte e um anos. Cega há três anos.

Eu… eu morri, acho.

Keith… eu não consigo nem suportar terminar essa frase. A traição, a dor, o fogo… tudo vem à tona de uma vez.

Eu morri.

— Aqui, bebe isso — diz meu pai, me entregando um copo d’água.

Eu pego o copo, nem que seja só pra ter alguma coisa pra fazer com as mãos.

Eu fui enviada de volta. Renascida.

Será que a Deusa deixou isso como um presente pra mim?

As sobrancelhas dele se juntam. — Hope…

Eu me viro pro Papai, com mil pensamentos rodando na cabeça. No meio de todos eles, dois se destacam acima de tudo.

Ninguém pode saber, e eu tenho que evitar o Keith a qualquer custo.

Se eu estou recebendo essa chance de refazer tudo, eu preciso ter certeza de que vou fazer direito.

Coloco minha melhor expressão envergonhada. — Desculpa, Papai. Eu já tô bem. Tudo só ficou… confuso por alguns segundos.

— É claro. Você acabou de ser derrubada, perdeu a consciência. É normal ficar meio desorientada quando acorda.

Papai dá um tapinha no meu ombro. — Vou avisar a curandeira que você acordou. O Alpha Keith também vai querer uma atualização sobre a sua saúde.

Eu aperto os lábios e balanço a cabeça. Minha mente está a mil. Esse é o dia. Aquele em que tudo começa.

A cerimônia de sucessão da Alcateia Lótus. Keith assumindo o papel de Alpha. Eu vim aqui pra representar a nossa alcateia, já que minha irmã estava ocupada cuidando de assuntos do nosso bando. E então… eu fui apagada.

Do mesmo jeito que agora.

E quando eu acordei pela primeira vez… ele veio.

Jovem, encantador. Um novo Alpha pronto pra garantir que a família alfa de uma alcateia aliada não ficasse ofendida com o incidente.

Foi nesse momento que tudo mudou.

Nossos olhos se encontraram, e nós soubemos que éramos destinados.

Ele nem tinha terminado de pedir desculpa quando o lobo dele veio à tona e chamou pelo meu.

A mão do meu pai estava na maçaneta. Ele estava prestes a sair quando eu sussurrei:

— Não.

— O quê? — papai pergunta.

— Não tem necessidade de avisar ninguém, Papai — digo rápido.

— Hope, você não está fazendo sentido…

— Tô, sim. — Eu encaro ele, minha voz se firmando. — Eu acho que devia voltar pra nossa alcateia. Hoje à noite.

Ele balança a cabeça. — De jeito nenhum. Você precisa descansar…

— Você sempre confiou em mim. — Eu me levanto e seguro as mãos dele nas minhas. — Por favor. Confia em mim agora. Eu não posso explicar tudo, mas se eu ficar, alguma coisa ruim vai acontecer.

— Você tá com medo do Keith?

— Não, claro que não — acrescento rápido, quando vejo os sinais de irritação surgindo nos olhos do Papai.

Ele é um Alpha feroz, e eu e minha irmã significamos mais pra ele do que qualquer coisa. Se ele soubesse a verdade, se desconfiasse por um segundo que eu tenho ressentimento do Keith, isso ia causar tensão entre as nossas alcateias.

Guerra é a última coisa que eu quero.

Eu só quero ser livre.

Meu lobo se agita debaixo da minha pele. Um rosnado baixo sobe do meu peito, vibrando de raiva. Ela também se lembra.

A traição. As mentiras. A dor.

Ela se recusa a perdoá‑lo.

Eu também.

Ele me observa. Os olhos dele se estreitam.

— Você soa como a sua mãe quando tinha visões.

Eu detesto mentir para o meu pai, mas é a única forma de manter o laço entre nossas alcateias e, ao mesmo tempo, me dar uma chance de fugir e escolher um novo caminho.

— Eu não sei o que é isso. Mas é algo que eu preciso fazer. Eu sinto, Papa.

Ele solta um suspiro.

— Tá bom. O que você quer que eu faça?

— Diz que eu tô preocupada com a Tessa — digo, cruzando os braços com força sobre o peito. Meu pai ergue uma sobrancelha, desconfiado. — Ela brigou com você. Nem veio pra Alcateia Lótus com a gente.

Ele solta o ar devagar e então concorda com a cabeça.

— Você não tá errada. Ela é teimosa, igual à sua mãe. Mas como é que você quer que eu explique que você foi embora depois da pancada que levou?

— Fácil. Quando eu acordei, a Tessa tinha me ligado pedindo pra eu ir, e como eu tava me sentindo bem e os curandeiros de casa são mais avançados que os da Alcateia Lótus, você me deixou ir — respondo, agarrando a oportunidade com as duas mãos.

Ele considera minhas palavras.

— Você não tá errada. Pedra Azul sempre teve os melhores curandeiros.

Eu tento não demonstrar o alívio.

Talvez isso realmente funcione.

— Certo — Papa diz por fim. — Você pode ir pra casa. Vou pedir pro Tino te levar de volta.

Tino era o guerreiro de maior confiança do meu pai. Ele tomava conta de mim e da minha irmã desde que a gente era pequena.

Tomando cuidado pra não parecer ansiosa demais pra sair do território da Alcateia Lótus, começo a calçar os sapatos e vestir a jaqueta. Ainda bem que não tinham me trocado por uma bata de cura enquanto eu tava aqui.

Claro que não podia ser tão fácil assim.

Uma batida rápida ecoa na porta instantes antes de Karen, a namorada do meu pai, entrar com aquele sorriso claro demais. Atrás dela, seguindo como patinhos perdidos, vêm os filhos: Leah e Tyler.

Uso a palavra “filhos” de forma bem solta. Tyler tinha a minha idade, e Leah era um ano mais nova, e os dois não podiam ser mais diferentes. Enquanto Tyler era claro e de olhos azuis, a irmã tinha cabelo castanho-escuro e pele em tom oliva.

Karen diz que os dois são filhos do mesmo macho, mas eu sempre tive minhas dúvidas. Eu nunca tiraria a felicidade do meu pai. Muitos shifters encontram companhia de novo depois de perder o par destinado. A nova ligação nunca seria igual à que tiveram, mas eles eram capazes de amar outra pessoa depois da perda.

Eu quero que meu pai seja feliz. Ele merece. No entanto, tinha alguma coisa em Karen que não descia.

Sem contar o fato de que ela odiava a mim e à minha irmã. Eu sei lidar com não ser querida, mas o que mais me incomoda é o teatro que ela faz na frente do Papa.

O olhar calculista dela desliza até mim.

Eu travo, a coluna enrijecendo instintivamente.

— Que bom que você já está de pé, querida. Como você está se sentindo? — ela pergunta, naquela vozinha aguda irritante dela.

— Melhor. Valeu — respondo, mantendo a resposta curta.

Agora, a única coisa que me importa é cair fora desse território o mais rápido possível.

— Clinton — ela se dirige ao Papai —, você não devia chamar o curandeiro? Foi uma pancada e tanto que ela levou.

— Não precisa, querida. Vou mandar a Hope pra casa pra ser atendida pelos nossos curandeiros — Papai diz, casual, como se a ideia tivesse sido toda dele.

Karen me lança um sorriso plástico antes de voltar a olhar para o Papai.

— Você tem razão. Nossos curandeiros têm muito mais conhecimento do que os do território da Alcateia Lotus. Ah, por que não deixa o Tyler levar a Hope? Aposto que ele ia adorar dirigir. Não é, Tyler?

— Claro, mãe — ele diz, sorrindo que nem raposa prestes a invadir galinheiro. — Vou ficar feliz em garantir que a Hope chegue em casa em segurança.

Meu pai ri.

— Não é má ideia. Assim poupa o Tino da viagem.

Meu estômago se contrai. Nem a pau vou deixar esse filhinho de mamãe pomposo me levar de volta.

Mantenho o tom neutro quando digo:

— Ele não pode.

Todo mundo olha pra mim, mas eu só sorrio docemente e continuo:

— A carteira do Tyler foi apreendida mês passado. Dirigindo bêbado, não foi?

Os olhos da Leah faiscam. A boca da Karen se entorta num quase imperceptível bico.

O rosto do Papai escurece quando ele direciona toda a força da sua dominância pro Tyler.

— Eu nunca fiquei sabendo disso. É verdade, Tyler?

— E-eu… foi só uma vez… — ele gagueja.

— Você dirigiu bêbado? — meu pai corta, a voz aumentando. — Você tem ideia das vidas que colocou em risco, incluindo a sua? Você diz que quer ser um guerreiro, mas enquanto não aprender a deixar esse seu comportamento inconsequente e irresponsável pra trás...

Karen dá um passo à frente, pousando a mão no braço do Papai e interrompendo.

— Clinton, ele é jovem. Cometeu um erro...

— Esse tipo de erro custa vidas — ele retruca.

Os lábios dela se comprimem.

— Você tem razão. Talvez seja melhor a gente terminar essa conversa em particular.

Ele concorda com a cabeça.

Ela o conduz pra fora do quarto, me lançando um olhar de ódio quando ele não está vendo.

Tyler e Leah só ficam me encarando, furiosos.

— Você é uma X-9 — Tyler sibila.

Dou de ombros.

— Não bota nos outros a culpa pelas suas escolhas idiotas. O Papai ia descobrir de qualquer jeito. Imagina só como ia ser se continuassem escondendo isso dele?

Os punhos dele se fecham, mas ele recua. Escolha inteligente.

Um minuto depois, o Papai volta pela porta. O maxilar ainda está travado, mas os olhos amaciam quando ele olha pra mim.

— O Tino está aprontando o carro pra você — ele diz. — Ele chega aqui em alguns minutos.

Eu aceno com a cabeça.

— Valeu, Papai.

Ele sai do quarto, e eu ignoro as duas pragas enquanto arrumo minhas coisas.

Não tem necessidade de mais conversa nem interrupção. Não quero dar pro Keith nem o cheiro da minha saída.

Quanto menos despedidas, melhor.

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