Capítulo 3 3. Legado da mãe

Hope

Se eu não fizer contato visual, talvez eles vão embora.

Minha loba bufou diante da minha ingenuidade.

Cadela julgadora. Odeio quando ela está certa.

Puxando a jaqueta, eu tento esperar pelo Tino no corredor.

É aí que a Leah decide que quer fazer a jogada dela. Dando um passo pro lado, ela bloqueia a porta, braços cruzados, o queixo erguido, uma miniatura distorcida da mãe. Ótimo pra caralho.

Achei que aquele momento de silêncio queria dizer que ela ia fazer um favor pra todo mundo e guardar a choradeira pra alguém que se importasse.

Eu devia saber que não tinha tanta sorte.

A deusa me deu uma segunda chance, não um passe livre pra sair da cadeia.

Reviro os olhos, sem a menor vontade de brincar enquanto meu tempo está se esgotando.

— Bom, eu não tenho o dia todo. Se você tem algo pra dizer, sugiro que diga antes do Tino chegar — falo, controlada.

Não adianta deixar ela perceber que está me irritando, isso só vai fazer a conversa demorar mais.

— Você devia cuidar com quem tá falando, o papai não tá aqui pra te salvar — ela rosna, me olhando de cima a baixo com uma cara de nojo, como se eu não fosse o suficiente.

Minha loba pressiona logo abaixo da superfície da pele e eu faço o possível pra não reagir.

Papai.

Ela sabe que eu odeio quando ela chama meu pai assim.

Dou um riso curto.

— Você deve gostar muito dessa realidade falsa que você cria pra si mesma.

Um rosnado escapa da garganta dela. Sei que é pra parecer ameaçador; até seria, se o nível de dominância dela chegasse perto do meu.

Independentemente de quem é o meu pai, eu ficaria acima dela na hierarquia e nós duas sabemos disso.

O Tyler fica ali do lado dela, encostado no batente da porta. O corpo grande, relaxado, entediado até, mas tem fogo nos olhos dele.

— Agora, agora, meninas. Somos família. Não dá pra se aguentar por cinco minutinhos? — Tyler diz, com uma falsidade escorrendo da voz.

Pela deusa, não tem tempo pra esse joguinho que eles querem jogar.

— Que tal você cair fora e sair da minha frente? — retruco.

A Leah me analisa dos pés à cabeça antes de sorrir de lado, e eu sei que não vou gostar do que ela vai dizer em seguida.

— Claro. Mas eu quero algo em troca. Sabe, por tornar isso o mais indolor possível pra você.

— Toda essa gasolina de pintura que você cheira deve estar subindo pra cabeça. Sai da frente.

Ela dá um passo na minha direção.

— Você se acha tão esperta, né? Vamos ver o quanto você vai se achar inteligente quando eu for a Luna da matilha.

Merda, esqueci que essa é a ilusão dela.

Leah estava — está — determinada a ser a Luna do Keith.

Muitas fêmeas estão. A família dele descende de um ramo da realeza que carrega sangue de Lycan, as criaturas originais de onde surgiram todos os lobos metamorfos.

Embora a família do Keith não faça mais parte da linhagem real, ninguém questiona a força dele.

Se ele quiser, pode desafiar o Rei e tomar o lugar, mas não vai. A matilha dele, a matilha Lótus, se orgulha de ser formada por guerreiros.

Deusa, eu precisava sair daqui.

A maldade enche os olhos da Leah quando eu me preparo pra passar por cima dela.

— Ah, que bom que você tá indo embora. Acho que não vai precisar mais disso.

A mão dela voa em direção ao meu pescoço, rápida como um raio, mas eu sou mais rápida.

Jogo o ombro esquerdo pra trás; o colar que eu uso sobe quando os dedos dela quase o tocam.

Pisco.

— Como é que é?

— O colar — ela rebate, seca. — Eu cuido dele pra você.

Minha mão sobe instintivamente até o pingente encostado na minha clavícula.

Metal gelado, mas quente de memória.

Da minha mãe.

Quase nunca uso, mas hoje pareceu o dia certo. Pareceu destino.

Só que agora eu via que idiota eu tinha sido.

Dessa vez, não.

— Não.

As narinas da Leah se dilatam.

— Não?

— Isso não é um dos seus enfeites bonitinhos. Era da minha mãe — digo. — Você não encosta nele.

Ela se aproxima ainda mais, praticamente tremendo de irritação.

— Não seja egoísta, Hope. Você não pode sair acumulando joias quando tá abandonando o seu lugar aqui. Além do mais, ia ficar melhor em mim mesmo.

Abandonando? Que piada. Nós duas sabíamos que eu estava fazendo um favor pra ela ao ir embora.

Eu firmo a voz.

— Você não liga pro colar. Só quer alguma coisa brilhante pra exibir pro Keith. Na esperança de que finalmente ele repare em você.

Os olhos dela faiscam.

Sorrio de canto, sabendo que acertei em cheio.

— Você acha que eu não sei do que se trata hoje? — falo, mais afiada agora. — Você e todas as outras fêmeas desesperadas se emperequetaram todas pra ele, rezando pra ele notar que vocês existem. Patético.

Leah avança com um pequeno rosnado, dedos esticados, mas eu me desvencilho, recuando e girando pra manter distância entre a gente.

As unhas dela só arranham o ar.

Tyler se endireita.

Eu fico de olho nele, sem saber se ele vai escolher ajudar ela ou a mim.

— Você não merece isso — sibila Leah.

— E você não tem o direito de tirar. — Meus dedos apertam o pingente com força. — Não se trata de merecer. É sobre a minha mãe.

Leah rosna de frustração e então lança um olhar para Tyler. — Faz alguma coisa.

Ele revira os olhos, mas se aproxima com toda a falsa preguiça de quem está prestes a ficar bem desagradável.

— Tenho uma notícia pra você. Ela tá morta — ele diz, vindo na minha direção. — Mas você ainda tá viva. Então, eu faria o que a Leah tá mandando. Depois de você me humilhar na frente do Clinton, você tá por um fio.

— Isso foi culpa sua — rebato. — Se não quer levar um choque de realidade, não faz merda.

Ele torce a boca num sorriso de desprezo. — Vamos ver se você é tão durona sem o seu precioso título.

O braço do Tyler dispara como um chicote.

Eu não hesito.

Me abaixo e desfero um chute. Meu pé acerta com força o estômago dele. Ele solta um grunhido surpreso e cambaleia pra trás, trombando na Leah. Ela grita quando os dois se chocam contra a parede, liberando a passagem até a porta.

Planto os pés no chão. Meu pulso martela, mas mantenho o rosto neutro. Esperando.

— Sua vadia — rosnou Tyler, se levantando às pressas.

— Dá graças a Deus que eu não fui no seu rosto.

Leah puxa o ar de forma trêmula e então rosna para Tyler. — Inútil.

— Eu? — ladra Tyler. — Você que—

Uma batida seca corta a tensão. A porta range ao se abrir, e um homem alto, de ombros largos, entra.

Tino.

Graças à Deusa.

O guerreiro que o Clinton prometeu.

Os olhos sérios, cor de chocolate, varrem o quarto — Tyler esfregando o lado do corpo, Leah corada e furiosa, e eu ainda firme, de pé diante deles.

O olhar dele se fixa em mim. — Hope, o Alfa Clinton me mandou escoltar você pra casa.

Leah dá um passo à frente, a voz melosa de falsidade. — Ela já tava de saída.

Ele nem olha pra ela.

— Tô indo. — Passo pela Leah. Pelo Tyler. Nenhum dos dois me impede.

Mas, quando chego ao batente, eu me viro.

— Até a hora que vocês chegarem em casa.

Leah solta um resmungo debochado.

Tyler resmunga algo baixo, reconhecendo nas minhas palavras a ameaça que elas eram. Eu não me importo.

Entro no corredor ao lado do Tino.

— Parecia bem aconchegante — ele disse.

— Igual manhã de Natal — respondi.

Tino deu uma risada baixa. — Não esperaria nada diferente deles. Me corrige se eu tiver errado, mas a camisa do Tyler parecia meio amassada na altura do peito.

Claro que o Tino reparou nisso. Foi ele que me treinou em combate.

— Talvez eu tenha ajudado ele a aprender uma lição sobre espaço pessoal.

Os olhos azuis dele brilharam de orgulho. — Essa é a minha menina.

Caramba, como eu senti falta do Tino.

Quando se tratava da Leah e do Tyler, ele sempre ficava do meu lado e do lado da minha irmã. Tino amava a minha mãe, então não engolia bem nenhuma atitude da Karen que fosse feita pra fazer minha irmã e eu nos sentirmos como se não pertencêssemos ali. As ações dos filhos dela eram uma extensão disso.

Ele não diz mais nada enquanto a gente caminha, e eu agradeço por isso.

As emoções que sobem no meu peito vêm do nada. A percepção do que eu tenho de novo e do que estou abrindo mão.

Do desconhecido que me espera.

Eu preciso segurar isso.

Tino sempre enxergou demais. Não ia me ajudar em nada ele começar a perguntar o que estava errado. E, se perguntasse, eu não sabia se ia ter coragem de mentir pra ele.

A gente chega na escada, e eu paro, só por um segundo.

Minha loba anda de um lado pro outro na minha mente, agitada, ferida, desmoronando sob o peso de deixar nosso par.

Dói. Mas ficar aqui ia me destruir.

— Pronta? — Tino pergunta, com uma sobrancelha erguida.

Eu balanço a cabeça, afirmando.

Não olho pra trás.

O carro desce a estrada da montanha, liso e silencioso, nada além das árvores passando em borrões e o som dos pneus triturando a brita.

Meus pensamentos são a única coisa que compete com o barulho.

Encosto a testa no vidro, ignorando a necessidade crescente de voltar.

Mas então — algo muda.

Meu corpo se tensa. Meus pulmões travam no meio da respiração. Os pelos dos meus braços se arrepiam.

Eu sinto o cheiro dele.

Keith.

Eu me viro no banco, os olhos vasculhando as árvores que passam rápido.

Impossível.

Mas eu conheço o cheiro dele — cedro escuro, lenha queimada, um toque de chuva. Viro a cabeça de volta e olho pra frente.

Vou ter que me treinar pra não pensar nele.

Pra não sentir mais nada.

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