Capítulo 4 4. Loba feminina misteriosa

Keith

Caminho pelo corredor estéril da ala de cura, minhas botas ecoando no piso de linóleo enquanto sigo em direção ao quarto da filha do Alpha da alcateia Rocha Azul, Hope.

Eu já tinha conversado com Oliver; o jovem guerreiro se empolgou demais durante o treino. Ele estava devidamente arrependido e se preparando para as tarefas extras de limpeza por causa da falta de autocontrole.

O golpe não foi fatal, ainda assim, eu queria conferir pessoalmente como a fêmea estava.

O cheiro de antisséptico entra pelas minhas narinas, mas tem outra coisa misturada a ele. Algo forte, doce, inebriante — como jasmim numa brisa, com um toque de pinho.

Esse cheiro... eu conheço.

Meu lobo se agita, vindo para a superfície da minha pele com uma excitação frenética.

É a segunda vez que ele reage assim em questão de minutos.

É inebriante, assombroso na forma como escapa.

E está bem atrás dessa porta.

Eu paro diante do quarto, meus dedos roçando na maçaneta de metal frio, e deixo a sensação estranha de pressentimento se acomodar no meu peito.

Tem algo diferente hoje, como se o mundo estivesse prestes a mudar.

Não consigo me livrar dessa impressão, como o ronco distante do trovão antes da chuva ou o silêncio antes de uma batalha.

Nunca deixei o medo me parar, nunca deixei suas garras afundarem fundo o bastante pra afetar minhas escolhas e não seria agora que isso ia acontecer.

Com um fôlego firme, giro a maçaneta e entro.

Eu esperava ver o Alpha Clinton ou, no mínimo, um dos guerreiros que acompanharam o Alpha da Rocha Azul. O que eu não esperava ver era um quarto vazio.

Meu lobo rosna com uma frustração que eu não consigo entender direito.

Está impecável, a cama arrumada com perfeição, os lençóis intocados. Eu franzo a testa, o coração acelerando enquanto aspiro o ar e puxo o rastro do cheiro adocicado misturado ao cheiro do Alpha e de mais alguns.

Eu me aproximo da cama, percebendo como o aroma fica mais forte onde o corpo dela teria descansado.

O impulso estranho de enfiar o rosto nos lençóis e me sufocar nos traços restantes do cheiro dela faz meus membros tremerem.

Que porra está acontecendo comigo?

Eu afasto aquela reação esquisita e volto a focar no presente.

Tinham me dito que ela ainda estaria aqui. Um lampejo de inquietação atravessa meu peito.

Por que ela iria embora?

Quanto mais eu fico dentro do quarto, mais claro o cheiro fica. É como se ele se empurrasse para frente dos outros, estendendo a mão até mim. Dominando.

Me lembrando da sua importância.

A conexão me atinge com certeza absoluta.

A mistura de jasmim e pinho que eu tinha sentido antes, quando um carro passou por mim lá fora. Era isso. O aroma tinha ficado no ar como se o motorista tivesse esperado só por mim.

A fêmea da alcateia Rocha Azul é rapidamente esquecida quando um puxão vem de algum lugar bem fundo dentro de mim.

Posso encontrá-la depois. Ela provavelmente está com o pai, de qualquer jeito.

Eu puxo uma respiração longa, querendo me sustentar com a fragrância doce enchendo meus pulmões, e imediatamente faço o elo mental com os guardas nos portões.

Descubram quem acabou de sair dos limites do território.

Normalmente, só pares destinados teriam acesso à mente um do outro, mas meu sangue Lycan me permitia criar um laço profundo com a minha alcateia. Um laço que nos tornava tão formidáveis quanto os rumores diziam.

Não éramos apenas ligados pelo elo de alcateia como as outras alcateias, eu também conseguia sentir as emoções deles e falar com eles.

A voz de Jace, meu chefe dos guerreiros, atravessa minha mente.

A fêmea da Rocha Azul, Hope. Ela está sendo escoltada de volta pro território dela por ordem do pai.

Engulo em seco. Então é ela. Uma mistura de apreensão e uma borda de raiva perturbam minha calma habitual.

Ela se machucou mais do que eu pensei?

Ela parecia estar ferida? pergunto a Jace.

Não que eu tenha percebido, Alpha. Quer que eu mande alguém trazê-la de volta?

Não é necessário.

Eu saio rápido da ala de cura e sigo em direção à cabana privada que eu reservei para o Alpha da Rocha Azul e a parceira dele.

Eu preciso de respostas, e é ele quem vai me dar.

Enquanto caminho pela trilha, meu beta e melhor amigo, Jace, surge ao meu lado, acompanhando meu ritmo.

“O que houve?” ele pergunta sem rodeios.

“Nada.”

“Ah, então vamos começar o dia com mentiras.”

Solto um resmungo. “Nada que ameace a vida”, corrijo.

Embora, se for o que eu estou pensando, isso vai mudar algumas vidas, principalmente a minha.

“E a gente tá correndo pros aposentos do Alpha da Rocha Azul por quê?”, ele insiste, sem a menor intenção de largar o assunto.

Eu paro onde estou. Eu não escondo segredos do Jace.

Estar em desacordo com o seu ritmo é a maneira mais rápida de destruir uma alcateia.

— Eu senti alguma coisa. Uma fêmea. — Os olhos cor de avelã do Jace refletiram a confusão dele, então continuei: — Isso desencadeou alguma coisa em mim.

— O vínculo? — Jace falou, incrédulo.

— Não tenho certeza, mas o meu lobo não deixa isso passar.

— O que a filha do Alfa Clin... — ele quase disse o nome completo — ...a filha dele — concluiu Jace, juntando as peças.

Eu faço que sim com a cabeça, confirmando.

A mão grande dele bate no meu ombro, um sorriso largo no rosto.

— Então, o que estamos esperando? Vamos buscar a sua fêmea.

— Nunca imaginei você do tipo romântico — provoquei, tentando esconder o que ele chamou de esperança, que a minha fêmea tinha despertado dentro de mim.

— Romântico, não — ele dá de ombros, um ombro arredondado subindo. — Mas eu sei muito bem o quanto você queria evitar a enxurrada de fêmeas se preparando pra se jogar em cima de você no banquete. Tem jeito melhor de fazer isso do que começar sua ascensão irritando a sua parceira?

— Não vamos nos precipitar. É só... uma peculiaridade, só isso.

Memórias do pesadelo da noite passada, de acordar suado e arfando enquanto eu corria até ela, o coração disparado no peito... A fêmea que eu já vi cair de um penhasco, aquela atrás de quem eu já saltei — de novo e de novo, todas as vezes — não importa as consequências, enchem a minha mente.

Ela era — é — minha. Eu sei disso.

Aquela sensação se enrolando no meu peito cresce. Como uma corda apertando meu coração e me puxando para o oeste, na direção das alcateias de Black Rock.

Será?

Hope.

O nome reverbera na minha mente.

Eu não consegui olhar direito pra ela quando chegou, um erro que eu preciso corrigir.

Meu lobo rosna e se debate, me empurrando para agir.

Ele quer persegui-la.

— Keith? — Jace pergunta, preocupado.

Merda. Eu devo ter viajado de novo.

— Tô bem. Vamos — digo, caminhando apressado em direção aos aposentos do Alfa Clinton.

Jace me segue em silêncio, embora eu saiba que ele tem perguntas.

Quando a gente chega, a doce parceira do Alfa Clinton, Karen, abre a porta com um sorriso no rosto. Eu sei que é pra ser acolhedor, mas alguma coisa naquela fêmea desagrada o meu lobo.

— Alfa Keith. Que prazer — ela diz, amigável.

— Não quero incomodar — falo, decidindo que a educação é o melhor caminho. — Queria saber se o Clinton está disponível para conversar.

Ela faz um gesto com a mão, como se afastasse a minha preocupação.

— Não é incômodo nenhum. Ele está bem aqui — diz, me conduzindo até a sala de estar.

Jace vem atrás, dando um aceno curto para a fêmea mais velha.

Ainda não entendo o que o Clinton está fazendo com ela, a voz dele projeta na minha cabeça.

Nem eu. Ouvi dizer que a Luna era adorada. Não sei como ele acabou com a Karen.

Eu não tinha um problema com a Karen, mas dava pra ver o quanto ela desejava status. O fato de o Clinton não perceber isso sempre me pareceu estranho.

Dizem por aí que ela enfeitiçou ele.

Eu segurei a risada que subia pela minha garganta.

O Alfa Clinton se levantou quando a gente entrou na sala.

— Keith, o que o traz aqui? Imagino que tenha muito o que fazer antes da sua ascensão.

— Eu estava indo para o prédio de cura para ver como sua filha estava, mas parece que ela já foi embora. Está tudo bem?

O alfa mais velho assentiu.

— Hope está bem. Obrigado por se preocupar com ela. É a minha outra filha, Tessa, que estava precisando da irmã, então ela foi mais cedo ficar com ela. Hope manda lembranças por não poder ficar para a cerimônia.

Meus instintos se eriçam. Duvido que eu esteja recebendo a história completa, mas não sinto má intenção vindo do Clinton, então deixo passar.

— Claro. Ela tem que estar com a irmã se a irmã precisa dela.

— Ela é uma boa garota — disse Clinton, com carinho.

Eu faço um gesto com a cabeça.

— Espero ver você e a Karen hoje à noite.

Antes de sair, o mesmo cheiro de jasmim e pinho invade minhas narinas.

Procuro a origem, notando um suéter dobrado nas costas de uma cadeira.

Preciso cerrar o punho para não pegá-lo. Para não apertá-lo contra o peito e inspirar o cheiro dela.

Meus olhos se arregalam quando eu noto uma foto acima.

Na lareira, há uma foto de família do Clinton com as filhas.

E bem no centro está ela.

A mulher com quem tenho sonhado há meses. A mulher que assombra meus pesadelos e me mantém acordado à noite.

Eu balanço a cabeça, tentando clarear a mente enquanto saio, com o Jace logo atrás de mim.

Eu sempre ignorei isso, atribuí à coincidência. Mas o cheiro... o jeito que isso se agarrou a mim, isso não é coincidência.

Nem o rosto me encarando de volta.

Encontre-a, meu lobo rosnou.

Não havia nada que eu quisesse mais. Mas eu tinha um dever a cumprir.

Depois da minha ascensão, eu prometi.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo