Capítulo 5 5. Minha irmã, futura Alfa

Esperança

O sol se põe, projetando sombras longas sobre o campo de treinamento quando eu entro na arena. O cheiro da minha casa de infância suaviza as pontas afiadas dos meus nervos em frangalhos.

Quando chegamos em Rocha Azul, a primeira coisa que eu fiz foi procurar pela Tessa.

Minhas botas rangem sobre a brita enquanto sigo para os campos de treino.

Um lampejo de vermelho chama minha atenção. A silhueta esguia da Tessa está lá — no ringue central — braços nus se movendo enquanto ela derruba um macho bem conhecido.

Ben.

Ele bate no chão com um grunhido, e ela nem olha para baixo ao se virar, farejando o ar.

“Hope?” A voz dela estala como um chicote. Ela se endireita, os olhos — de um azul vibrante de céu, iguais aos das nossas mães — se estreitando com as palavras. “Você voltou?”

Eu acelero o passo, praticamente correndo para abraçá‑la. Me jogo nela, apertando forte, pensando em todos os anos em que ficamos sem nos ver.

Os braços dela me prendem ali. “Ei… ei”, ela segura meus ombros, me afastando um pouco com cuidado para olhar meu rosto, a preocupação marcada em cada traço. “Você tá bem?”

Merda.

Eu quase esqueci. Para ela, só se passou um dia e meio desde a última vez que nos vimos.

Eu balanço a cabeça, sorrindo para aliviar a preocupação dela. “Tô. Tá tudo ótimo.”

Um gemido soa atrás de mim quando o Ben levanta o corpanzil do chão.

“Da próxima vez avisa antes de tentar enfiar meu corpo pelo piso”, ele diz para a Tessa.

Ele se ergue bem acima dela, o que não é difícil sendo um cara de quase dois metros.

Ben é um dos nossos guerreiros, um gama de cabo a rabo.

Ela abre um sorriso para ele. “Cadê a graça disso? Além do mais, se você tivesse prestando atenção, tinha me visto chegando.”

Ben olha para ela como se ela fosse responsável por o sol nascer e, para ele, ela era mesmo.

“Oi, Benny”, eu digo.

“Oi, Hope. O que te trouxe de volta tão cedo? Achei que você ia ficar com seu pai até a ascensão.”

Eu dou de ombros. “Os planos mudaram. E eu queria estar em casa com vocês.”

Tessa me lança um olhar de para de falar merda. “Cadê a Leah? E o Tyler?”

“Lá na Alcateia Lótus. Você sabe que a Leah não vai perder a chance de ser o centro das atenções.”

Minha loba rosna, amarga. Ela entende por que a gente precisa fazer essa escolha, mas decidir deixar nosso mate não torna fazer isso mais fácil. A gente sempre vai desejá‑lo num nível instintivo, mesmo sabendo, logicamente, que precisa seguir por outro caminho.

Tessa se aproxima, o corpo tenso enquanto me estuda. “O que aconteceu?”

Eu sei que ela quer dizer o que aconteceu com a Leah e o Tyler, mas por que parece que ela consegue enxergar através de mim?

“A mesma merda de sempre. Eu já tava vindo pra casa e a Leah teve um dos ataques de fúria dela”, eu digo. “Mas eu resolvi.”

Tessa estreita os olhos. “Você resolveu?”

“Eu falei pra Leah parar de ser uma vaca e depois meti o pé no Tyler por causa dela”, eu admito, tentando passar rápido pelos detalhes mais irritantes.

Se a Tessa descobrir que a Leah tentou tirar o colar da nossa mãe de mim, isso só vai arrumar problema quando eles voltarem.

Os olhos dela se arregalam. “Você fez o quê?”

Eu entendo o choque dela. Enquanto minha irmã sempre foi tão explosiva quanto o cabelo ruivo, eu sempre tentei apaziguar tudo com conversa.

“Eu chutei ele. Chute limpo. Sem sangue, sem roxo, só deixei o idiota morrendo de vergonha.”

“Deusa.” Ela pisca como se não tivesse certeza de que eu sou real. “Eu não sei o que deu em você, mas eu adorei…”

“Imaginei. Eu só cansei das merdas deles.”

Tessa ri, metade em descrença, metade em orgulho. Ela me puxa para outro abraço, os braços fortes apertando firme. “Eu achei que ia ter que ir caçar os dois por mexerem com você quando eu não tô por perto.”

“Tá tudo sob controle. Cansei de deixar as pessoas me tratarem como saco de pancada.”

Ela me analisa. “O que mudou?”

Tudo. Mas eu não digo isso. Ainda não.

Talvez nunca.

“Só cansei de fingir que tá tudo bem quando não tá. E isso vale pra ignorar a bruxa má e os capangas dela.”

“Bom, eu, pelo menos, acho que isso merece um hambúrguer de comemoração”, o Ben diz, passando um bração em volta de cada uma de nós.

“Ah, com certeza”, Tessa concorda. “Tô morrendo de fome.”

Eu franzo o nariz pros dois e corro um pouco na frente antes de girar no calcanhar e começar a andar de costas. “Talvez um banho antes não faça mal. Vocês dois tão cheirando a lixo tostado de sol.”

“Ei!” Tessa grita, enquanto eu me viro de novo e disparo em direção à casa.

A risada estrondosa do Ben me acompanha a cada passo, e meu coração fica mais leve do que esteve em muito tempo.

Depois do banho deles, a gente se reúne na cozinha da casa da alcateia.

Como a Tessa não serve pra nada na cozinha, eu me ofereço para cozinhar e o Ben vira meu auxiliar de chef.

Enquanto eu tô temperando a carne dos hambúrgueres, um bipe alto corta o ar.

“Merda”, Ben diz, checando o comunicador que todo guerreiro carrega. “O Zan tá precisando de mim no prédio da segurança. Vocês duas ficam bem sem mim?”

Tessa revira os olhos. “Tenho certeza que a gente vai sobreviver dez minutos sem você.”

Ben sorri com malícia.

— Não sente muita saudade de mim enquanto eu estiver fora.

Ela joga um pedaço de alface nele, mas dá pra ver o sorriso querendo escapar.

É bom ver ela assim, tão despreocupada.

Quando Ben volta, o jantar já está pronto e a gente passa o resto da noite rindo e brincando. Fica tarde, Ben se levanta, se desculpa e vai sair em patrulha, e eu pego o olhar demorado que ele lança pra Tessa antes de ir embora.

Assim que a porta se fecha e eu tenho certeza de que o Ben está longe o bastante pra não ouvir, eu digo:

— Então... telhado?

Tessa balança a cabeça, os cachos vermelhos e selvagens quicando com o movimento.

— Telhado.

A gente se acomoda no telhado azul já gasto. É o nosso lugar. Desde que éramos crianças. Nada além das estrelas acima da gente e um canto tranquilo pra desabafar uma com a outra sem julgamento.

O vento bagunça meu cabelo, e eu prendo as mechas de volta, pensando por onde começar.

— Eu costumava achar que a Karen deixava o papai feliz — eu digo.

Tessa me olha de lado, cautelosa.

— E agora?

— Agora eu sei que ela é veneno.

— Ela sempre foi veneno. Você só não queria enxergar.

Tessa se reclina, apoiando o peso nas mãos.

— Você tá certa. Acho que eu só tinha esperança de que, mesmo sendo horrível com a gente, ela ajudasse ele. Papai ficou tão sozinho quando a mamãe morreu. Levou tantos anos pra ele voltar a ser ele mesmo e tudo que eu queria era ver ele feliz. Isso me cegou, mas agora eu enxergo. A gente nunca teve chance de virar uma família de novo. Não quando tudo o que ela queria era o título de Luna e status pros filhos dela.

— Eles vêm tentando empurrar a gente pra fora da nossa própria alcateia faz anos. Talvez não fisicamente, mas emocionalmente. Ela quer que a gente acredite que não tem lugar aqui.

— Eu só não entendo como o papai não vê isso.

Tessa fica em silêncio por um instante.

— Talvez os sonhos dele sejam parecidos com os seus. Talvez ele queira tanto que a nossa família seja inteira de novo que não esteja pensando com clareza. Não seria a primeira vez que ele se recusa a ver o que tá bem na frente dele.

Ela tá se referindo à briga dos dois e ao motivo de eu ter dito pro meu pai que queria voltar pro nosso território.

Papai e Tessa discutiram sobre a ascensão dela. Ou melhor, sobre a falta dela.

Tessa queria ser Alfa. Ela era forte o bastante pra isso e, como primogênita, tinha todo direito ao cargo, mas o papai não queria deixar isso acontecer.

Ele sabia que a vida de uma Alfa mulher seria cheia de desafios e turbulência.

Mulheres simplesmente não eram consideradas aptas pro papel de Alfa.

— Você sabe que ele acredita em você. Ele só tem medo — eu digo, lembrando da minha outra vida.

A vida em que ela não só abriu mão do sonho, mas também do verdadeiro companheiro dela, o Ben.

Os olhos dela brilham.

— Eu devo me cortar pelas pernas porque ele tá com medo? E eu? E os meus medos? O medo de nunca chegar no meu potencial, de me colocar abaixo de um macho que eu sei que nunca vai ser tão bom quanto eu, isso me tira o sono. Eu deveria ignorar isso e só fazer o que ele quer pra deixar ele feliz?

Na outra vida, ela se casou com um Alfa, obedecendo à vontade do nosso pai. Só depois de já estar com ele é que reconheceu o Ben como seu verdadeiro companheiro, mas já era tarde. O Alfa com quem ela se casou era cruel e abusivo. Ela abriu mão dos próprios sonhos pra dar paz ao nosso pai, e isso custou tudo a ela.

Dessa vez não.

Eu percebo, olhando nos olhos de Tessa, que essa não era só a minha segunda chance.

Eu sustento o olhar dela.

— Não. Você não deveria.

— O quê? — ela pergunta, piscando, confusa.

— Digamos que eu tive uma mudança de perspectiva. Não vai ser fácil. O medo do papai é justificável, mas você é uma Alfa, Tessa. Você nasceu pra isso.

Ela me encara com uma guerra nos olhos, como se quisesse acreditar em mim, mas estivesse com medo de criar esperança.

— Eu quero que você seja a Alfa desta alcateia — eu digo, com convicção.

Ela balança a cabeça.

— O pai não vai permitir.

— Então a gente vai obrigar ele.

— Você tá falando sério? — ela diz, surpresa sem conseguir esconder.

— Seríssima.

Tessa se endireita, os olhos queimando.

— Você ficaria do meu lado? Mesmo que isso signifique enfrentar o conselho? Enfrentar o pai?

— Eu faço o que for preciso.

Ela solta o ar devagar.

— Eles não vão ouvir. Ainda acham que mulher nasceu pra seguir, não pra liderar.

— Então a gente mostra o contrário.

— E como exatamente a gente faz isso?

— Simples. Você prova a sua força. Eu vou provar o seu valor.

— A gente nem vai precisar. Vamos usar as leis deles contra eles e exigir um duelo pelo cargo. Com o Rei e a Rainha supervisionando a luta, não vai ter ninguém que consiga negar o resultado.

Ela ri.

— Você é louca.

— Não. Eu tô pronta. E você também.

Tessa me encara como se estivesse vendo outra pessoa.

— Você mudou.

— Você não faz ideia.

Um segundo de silêncio. Aí ela estica o braço e pega a minha mão.

— Você acha mesmo que eu consigo?

Eu aperto a mão dela.

— Eu já considero você a minha Alfa. Agora vamos fazer eles enxergarem o que eu vejo.

Ela concorda com a cabeça.

— Então vamos fazer eles engasgarem com as próprias regras.

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