Capítulo 6 6. Memórias dolorosas
Esperança
Acordo arfando, a sensação de queda se enrola na minha pele como uma pele antiga. A tensão no peito arranha por dentro e se enrola nos meus pulmões.
Não. Não. Não.
Minha loba ganhe e chora, angustiada pelo pesadelo que cavalgou a nossa consciência até as horas de vigília.
Levo a mão à base da garganta e olho em volta, para o meu quarto de infância. Os livros empilhados na minha mesa de cabeceira. O carpete macio, rosa-claro, aos pés da cama. Minha coleção de flores preservadas ao longo das prateleiras.
Sem magia, sem sussurros, sem cegueira.
Só eu e a preocupação dando nós por dentro.
Esfrego as têmporas, tentando juntar os cacos do sonho de ontem à noite — ou era uma memória?
Me levanto da cama às pressas e corro atrás das minhas roupas. Enfio as pernas em uma calça preta e calço as botas. Depois prendo rápido o meu cabelo preto comprido em um rabo de cavalo.
Dou uma olhada rápida no espelho e decido que está bom o suficiente.
Preciso ver a Emma, a curandeira da nossa alcateia e mãe do Ben, hoje. Se alguém puder me dar uma pista do que está acontecendo, é ela.
A Emma não é uma curandeira comum; ela vem de uma linhagem mágica de metamorfos. O acesso que ela tem à magia não só ajuda a curar ferimentos mortais, como também a identificar interferências mágicas dentro de um corpo.
Passo na ponta dos pés pela porta da Tessa. Mesmo fechada, eu sei que ela está acordada, e eu não preciso das perguntas dela agora.
Eu preciso de respostas antes de decidir o que fazer com os meus segredos e com o meu novo futuro.
A enfermaria fica em um chalé de dois andares. O andar de cima é usado como quartos de recuperação, enquanto as salas de exame e de operação ficam no primeiro.
Desço pelo corredor de pedra gelado, iluminado por tochas trêmulas. Ainda é cedo. A Emma provavelmente vai estar na botica dela, preparando elixires de cura. Cada passo ecoa, cada eco martela nos meus ouvidos. Não me escapa que a Emma pode ter respostas que eu não quero ouvir.
Respiro fundo diante da porta, me fortalecendo, e entro. A porta range nas dobradiças atrás de mim.
— Hope — diz Emma, doce. — Não estava te esperando.
Ela ergue o rosto do pilão em que estava mexendo, os olhos cor de avelã se arregalam só um pouco, a preocupação e a curiosidade dançando ali enquanto ela me observa.
— Voltei mais cedo.
— Entendo. Senta aqui — ela ordena, batendo com a mão na cadeira ao lado da dela.
O cabelo grisalho, mesclado de prata, está preso com cuidado; as mãos, cobertas de pó de ervas secas. Ao lado dela, ataduras limpas e frascos de tinturas forram as paredes.
Sento na beirada da cadeira, sem saber bem como começar a conversa.
Eu simplesmente falo que voltei no tempo ou seja lá o que for?
Minha loba resfolega.
Ela afasta uma mecha solta do meu cabelo e a prende atrás da minha orelha, capturando minha atenção. — Você está pálida — comenta.
— Eu estou me sentindo assim — sussurro. — Eu… aconteceu alguma coisa.
O instinto materno da Emma se acende. — Na Alcateia Lotus? Alguém te machucou? Eu juro pela deusa que eu vou…
— Não. Não é isso. É… eu não devia estar aqui.
Ela franze a testa. — Do que você está falando? — Ela levanta a minha mão, encosta as pontas dos dedos no meu pulso, checando os batimentos. — Você está falando bobagem.
Eu faço uma careta. — Ontem à noite… eu sonhei… não, eu lembrei do meu futuro. — O vinco na sobrancelha dela se aprofunda. — Merda. Eu tô estragando tudo.
De repente o cômodo parece quente demais, o ar apertado demais ao redor dos meus pulmões.
— Shhh — ela murmura, virando minha palma para cima. Segura minha mão entre as duas mãos dela. Sinto o calor se infiltrando. — Respira.
Fecho os olhos. — Eu vivi, Emma. Os próximos três anos da minha vida. E agora eu estou aqui de novo.
Minha voz treme, mas o calor da magia dela me mantém com os pés no chão.
— Me conta tudo — ela diz, calma.
E eu conto.
Cada detalhe lindo, distorcido, doloroso. Não deixo nada de fora, e termino bem no momento em que acordei hoje de manhã.
Ela inclina a cabeça, me estudando, vulnerável. — Posso te examinar?
Faço força para manter a voz firme. — Pode.
Emma paira a palma da mão a alguns centímetros de mim, movendo o braço ao longo do contorno do meu corpo. Eu sinto o calor da magia dela subindo pelo meu braço, atravessando meu ombro, descendo pelo peito, pela barriga, pelas pernas, antes de voltar para o meu braço esquerdo.
— Hum… Isso é surpreendente, mas… nem tanto — ela diz, pensativa, antes de se levantar e se virar para uma estante de livros atrás dela.
— O que você acha que é? — eu disparo.
— Não posso dizer com certeza agora, mas os ancestrais da Alcateia Pedra Azul tinham sangue de bruxa — ela diz suavemente. — Algumas famílias… dotadas tanto nas artes da cura quanto na magia. — Ela puxa um livro de capa de couro e se senta de novo, folheando as páginas. — Teve uma em especial. A que trouxe a magia para a Alcateia Pedra Azul, Elena Knight. — Ela para e vira o livro na minha direção.
Olho para o livro e o ar prende na minha garganta.
— Ela foi nossa ancestral. — Engulo em seco, voltando a encarar os olhos de Elena. — Eu me lembro da minha mãe me contando histórias. Ela fechou o abismo entre curandeira e bruxa. Trouxe esses poderes para a linhagem de um Alfa. Foi por isso que a minha mãe tinha visões.
Visões sobre as quais eu menti para o meu pai, dizendo que também tinha, só para poder voltar pra casa.
Pensamentos giravam na minha cabeça, martelando como chuva pesada e barulhenta. E se eu realmente tivesse dons?
O canto dos lábios de Emma se contrai, como se ela pudesse ouvir meus pensamentos.
— Se você possuir o poder de Elena… então o que você viu, o que você sentiu como se tivesse vivido, pode ter sido uma visão.
— Mas como? Eu estava lá todos os dias. Eu senti e vi tudo. Como aquilo poderia ter sido uma visão?
— Você já ouviu falar de memórias despertas?
— Não.
— É um dom raro e poderoso. Um no qual Elena era especialista. Ele permite que quem o possui não seja limitado pelo tempo. Dá pra viver e experimentar um dos caminhos que a própria vida, ou a vida de seus protegidos, pode seguir. — Ela coloca a mão no meu ombro e aperta de leve. — Embora seja um poder imenso, também pode ser perigoso. Se você não aprender a usar, pode acabar se prendendo dentro de uma memória desperta. Pelo que parece, você ficou naquela por um bom tempo.
Eu encaro as páginas — caligrafia antiga e esboços desbotados de ervas entrelaçadas com símbolos mágicos.
— Quando eu acordei, senti um chamado. Como se algo dentro de mim… tivesse mudado. Me fez enxergar coisas que eu não tinha visto da primeira vez.
Emma fica em silêncio por um instante, pensando.
— Como eu disse, não posso afirmar nada agora. Vamos ter que aprender mais, ver se conseguimos acessar esse poder, se ele estiver aí. Mas também existe outra possibilidade. Elena… ela pode ter trazido você de volta. — Ela deixa o pensamento morrer no ar. — Renascimento não é algo inaudito.
Meu fôlego falha.
— Por que ela faria isso?
— Eu não tenho essa resposta. Talvez como um aviso, ou talvez como um ato de misericórdia. Pode ser por vários motivos — ela diz. — Mas disso eu tenho certeza: vou fazer de tudo pra te ajudar. Temos que ser cuidadosas. Talvez a gente não saiba o motivo, mas sabemos que algo nefasto estava à sua espera. Foi por isso que você ficou cega. — Ela aponta para uma fileira de frascos de vidro. — Esse unguento, de manhã. Esse incenso, antes de dormir. Vai te ajudar a se firmar e começar a trazer à tona qualquer habilidade que você possa ter. Vamos nos encontrar três vezes por semana.
Aperto o unguento e o incenso contra o peito.
— Eu tô com medo, Em.
Os traços de Emma se suavizam.
— Eu sei. Mas você tá aqui agora. E eu não vou deixar nada acontecer com você.
Eu faço que sim, as lágrimas ameaçando cair. Emma pega um pano e enrola a parafernália nele. Certo. É melhor esconder se quisermos manter segredo.
— Vamos começar devagar. Nada de magia pesada até termos certeza. Se o sangue de bruxa estiver despertando, eu vou rastrear… isolar. Aí nós vamos guiar. Nada de prova de fogo.
Engulo em seco.
— Mas e se for tudo verdade? E se eu viver essa vida de novo… e não conseguir salvar a Tessa? E se eu não conseguir me salvar?
O olhar de Emma se endurece.
— Você é filha de Rose Brown. Você não é indefesa, então não deixe ninguém fazer você acreditar no contrário.
Uma batida na porta interrompe a resposta que eu ia dar.
— Entre — Emma diz, me dando um instante para eu me recompor.
Ben entra. Ele olha de mim para Emma.
— Hope.
— Ben — eu sussurro.
— Bom, isso me poupou uma viagem.
— Ah, é? A Tessa tá me procurando?
— Não. O Alfa Clinton voltou e me mandaram vir te buscar — ele diz, com a voz estranha.
— O que foi? — pergunto, me levantando.
— Seu pai não voltou sozinho. O Alfa Keith… voltou com ele.
Meu coração dispara. Arrisco um olhar para Emma, cujo rosto é uma máscara impossível de decifrar.
— E o que o Alfa Keith estaria fazendo aqui tão pouco tempo depois da ascensão dele? — Emma pergunta ao filho.
Ben franze a testa por uma fração de segundo, antes que o autocontrole suavize seus traços.
— Não tenho certeza. Mas não consigo imaginar que haja muitos motivos pra ele viajar pra cá.
As palavras que ele não falou ficaram claras. Alfas só viajam para outras matilhas por alguns motivos: celebrações, alianças, guerra ou uniões de pares.
Meu pulso dispara.
Ben lança um olhar para a mãe e lhe dá um sorriso tenso, depois encontra meus olhos.
— Eles estão na clareira. É melhor a gente ir.
— Tá. — Antes que eu saia, Emma segura minha mão e sussurra: — Pense, Hope. Você tá aqui pra enxergar o que não viu antes. Não tome nenhuma decisão precipitada.
Eu ergo o queixo e dou um meio sorriso antes de seguir Ben para fora da cabana de cura.
Minha loba percorre inquieta sob a minha pele.
Parece que fugir não vai funcionar.
É hora de encarar o meu par.
