Capítulo Três
Laura cambaleava pela floresta, a mão pressionada contra a casca áspera de uma árvore enquanto avançava. A outra mão agarrava o peito, onde o vínculo de companheiro rompido deixara um buraco em brasa. Cada respiração doía como facas fincadas nos pulmões. As pernas quase cediam a cada passo, mas, ainda assim, ela continuava.
A dor era pior do que qualquer coisa que ela já tivesse sentido. Ela aguentava cortes e feridas sem problema — já tinha sido uma guerreira. Mas aquilo? Aquilo parecia que estavam rasgando a alma dela em pedaços.
— Continue andando — disse a si mesma, com a voz áspera. — Só... continue andando.
A loba chorava dentro da sua mente, um som triste e doloroso que sacudia o corpo inteiro. Era o uivo de um animal que havia perdido a outra metade, que não conseguia entender por que aquilo tinha acontecido. A loba queria desistir, deixar a dor tomar conta das duas.
Mas Laura disse não.
Uma onda forte de dor a atingiu, derrubando-a de joelhos. Ela tentou vomitar, mas o estômago estava vazio. Um suor frio encharcou seu vestido, o lindo traje que ela usara para o encontro, agora rasgado e sujo.
— Por quê? — ela arquejou, cravando os dedos na terra úmida. — Por que eu fui confiar nele?
Memórias invadiram sua mente sem que ela quisesse. O sorriso de Kieran quando se conheceram. O calor da mão dele durante a dança de acasalamento. O jeito suave com que ele prometera: “Eu nunca vou deixar nada te machucar”.
Agora, aquelas lembranças pareciam veneno.
— Mentiroso — Laura sibilou entre os dentes cerrados. — Era tudo mentira.
Ela odiava ter deixado que ele mandasse nela, ter se entregado a ele para, no fim, ser descartada quando ele achou que ela não servia para mais nada.
Ela se obrigou a ficar de pé, as pernas tremendo violentamente. A lua estava alta, inundando a mata com uma luz que parecia zombar dela. Quantas noites ela ficara ao lado de Kieran durante os ritos lunares? Fazendo o papel de Luna perfeita?
Vozes vieram por entre as árvores, e Laura congelou. Membros da alcateia. Ela se apertou contra um grande carvalho, prendendo a respiração apesar da dor no corpo.
— Ela foi por aqui — disse uma voz masculina. Laura a conhecia: Thorne, um dos homens leais a Kieran.
— Por que a gente ainda está aqui fora? — perguntou outra voz. — Kieran disse para deixar ela ir.
— Só conferindo — respondeu Thorne. — Ele quer ter certeza de que ela está mesmo saindo das terras da alcateia.
O coração de Laura bateu mais forte, fazendo suas mãos tremerem.
— Você acha que ela vai sobreviver? — perguntou uma terceira voz, mais baixa que as outras.
Thorne riu, um riso frio e cruel.
— Ninguém sobrevive a um vínculo de companheiro rompido. Não alguém tão fraca quanto ela. Ela nunca serviu para ser Luna.
—Kieran fez bem em substituí-la —concordou a segunda voz. —A alcateia precisa de filhotes. De que serve uma Luna que não consegue ter crias?
—A Elise já tem o Kieran enrolado no dedo —disse Thorne, rindo. —Você viu como a Laura caiu no chão? Foi patético.
As vozes foram ficando distantes enquanto se afastavam, mas as palavras ficaram, cortando fundo.
Por um instante, Laura pensou em chamar por eles. Eram os lobos com quem tinha vivido por anos. A alcateia à qual ela servira tão bem.
Nenhum de vocês vai me ajudar?
Mas ela sabia a resposta. Para eles, ela já estava morta.
Laura se afastou da árvore, forçando as pernas trêmulas a levá-la mais para dentro da floresta. Para longe das terras de Silver Moon. Para longe do único lar que conhecera por anos.
—Eles acham que eu sou fraca —sussurrou Laura, mal alto o bastante para os próprios ouvidos. —Sempre acharam que eu era fraca.
Uma nova fisgada de dor atravessou seu peito, fazendo-a morder o lábio até sentir gosto de sangue, tudo para não gritar. A dor do vínculo rompido estava piorando, não melhorando. Ela simplesmente cairia ali no mato, sozinha, e acabaria?
—Não —ela rosnou, e a força na própria voz a surpreendeu. Aquilo a lembrou de quem ela era antes —antes de se tornar a Luna de Kieran, antes de aprender a aparar as arestas e calar a própria força.
O vento frio atravessou seu vestido fino, mas ela mal sentiu. Seu corpo ardia de febre, e o suor grudava o cabelo no rosto apesar do ar gelado. Ela sabia o que estava acontecendo. O vínculo quebrado estava matando-a, exatamente como Kieran dissera que mataria.
—Você nunca vai viver sem mim.
As palavras dele ecoaram na mente de Laura.
Ela caiu de novo, dessa vez se chocando com força contra o chão da floresta. O solo pareceu se mover sob ela, as árvores rodopiando. Sua visão se embaralhou.
Ela se virou de barriga para cima, encarando as estrelas através das copas. Pareciam tão distantes, frias e indiferentes à dor dela.
—Eu já fui uma guerreira —lembrou a si mesma, num sussurro na quietude da mata. —Antes dele. Antes de tudo isso.
Ela tinha perdido aquela mulher, perdido a força, o fogo, a vontade de manter a cabeça erguida. Kieran queria uma Luna submissa, e ela se transformara, escondendo seu verdadeiro eu tão fundo que quase o perdera de vez.
—Eu posso ser ela de novo —sussurrou Laura. —Eu tenho que ser.
Ela rolou de lado e então se ergueu, apoiada nas mãos e nos joelhos. Cada movimento trazia novas ondas de dor pelo corpo. Seus braços tremiam muito, quase cedendo.
Com esse pensamento firme, ela seguiu adiante, rumo ao desconhecido.
