Capítulo Quatro

Quanto mais Laura avançava, mais escura a floresta ficava. As fronteiras da Alcateia Lua Prateada se apagaram atrás dela, deixando-a completamente sozinha. A cada passo, ela se afastava mais de tudo o que havia conhecido, de tudo o que um dia tinha sido. A ausência do vínculo de companheiros pulsava como uma ferida aberta em seu peito, uma dor que ameaçava devorá-la por dentro.

As árvores se erguiam sobre ela, como se estivessem proferindo sua sentença. Galhos retorcidos se estendiam como dedos ossudos, enroscando-se no vestido rasgado, como se a própria floresta tentasse segurá-la. Gravetos estalavam sob seus passos trêmulos, mas, apesar de tudo, ela seguiu em frente, na base da teimosia.

— Só... continua... andando — ela arfou; cada palavra era uma batalha contra a dor que sentia.

O frio da noite se infiltrou em seus ossos, lançando um gelo entorpecente que se espalhou por todos os membros. Seus pés descalços estavam cortados e sangrando, deixando pegadas vermelhas pela trilha da floresta. O cansaço começava a dominá-la enquanto o corpo tremia com o esforço de cada passo. Mas ela não podia parar, porque, se parasse, sabia que nunca mais conseguiria se levantar. Nunca.

Continue andando, Laura!

Laura tropeçou numa raiz exposta, mal conseguindo se apoiar no tronco de uma árvore. A visão embaçou, e ela ficou tonta, tão tonta que quase vomitou. Até onde ainda conseguiria ir antes de o corpo simplesmente desistir?

Enquanto esses pensamentos atravessavam sua mente, foi então que ela ouviu.

Um rosnado baixo que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo.

Laura enrijeceu, cada músculo se contraindo apesar da fraqueza. Aquele som não era o aviso amistoso de um membro da alcateia, nem a marcação de território de um alfa por perto. Não. Aquilo era algo mais selvagem, mais brutal.

Ela semicerrrou os olhos na escuridão, e a visão aguçada de sua loba atravessou as sombras com facilidade. Algo se movia entre as árvores — e não era uma única forma, mas várias, escorregando pela noite com graça silenciosa.

Cinco pares de olhos vermelhos e brilhantes emergiram da penumbra, cercando-a em um semicírculo frouxo. Renegados. Lobos sem alcateia, enlouquecidos pela solidão ou expulsos por crimes terríveis demais para serem perdoados. Nos olhos deles ardia uma fome que fez um arrepio descer pela espinha de Laura.

— Não — Laura sussurrou, recuando até as costas baterem na árvore atrás dela. Não havia para onde correr.

O maior deles deu um passo à frente: um macho enorme, de pelagem cinza-suja e cicatrizes cruzando o focinho. De repente, ele se transformou diante dela, ossos estalando e se remodelando até que um homem ficou no lugar onde estivera o lobo, nu, exceto pela sujeira e pelo sangue seco que cobriam sua pele. Seus olhos vermelhos continuavam os mesmos, brilhando com maldade em seu rosto humano.

Ele inspirou fundo, as narinas se abrindo. “Uma loba solitária?”, disse, a voz áspera por ter ficado tempo demais na forma de lobo. Um sorriso cruel rasgou seu rosto. “E ainda por cima bonita. Parece que a Deusa finalmente nos deu um presente.”

Os outros também se mexeram, formando um círculo de homens de olhar faminto e selvagem, cuja forma humana parecia mais uma máscara mal ajustada do que sua verdadeira natureza.

“Eu sinto cheiro de fraqueza nela”, disse um renegado magricela, com uma orelha faltando. “Foi expulsa. Rejeitada.”

“Melhor ainda, perfeito até”, respondeu o líder, dando um passo mais perto. “Nenhuma matilha vai vir atrás dela.”

O coração de Laura martelava contra as costelas. Ela já tinha ouvido histórias do que acontecia com fêmeas solitárias capturadas por renegados. A morte seria uma misericórdia perto do que eles tinham em mente.

“Fiquem para trás”, ela avisou, com a voz mais firme do que se sentia. Endireitou-se o máximo que o corpo dolorido permitia, tentando mostrar uma força que já não tinha.

O líder caiu na gargalhada ao encará-la. “Ah, ela tem fibra! Gosto disso.” Ele farejou o ar de novo. “Você já foi uma Luna, não foi? Eu sinto o restinho de poder em você.” Os olhos dele se estreitaram, brilhando de alegria cruel. “O que você fez para o seu Alfa te jogar fora, Lunazinha?”

“Eu deixei ele”, Laura cuspiu, a raiva incendiando a dor. “Eu rejeitei aquele desgraçado.”

Sussurros chocados se espalharam pelo grupo.

“Impossível”, sibilou um renegado com o rosto coberto de cicatrizes horríveis. “Nenhuma Luna rejeita o próprio Alfa. A dor mataria.”

“E, no entanto, aqui está ela”, disse o líder, com o espanto se misturando à fome no olhar. Ele se aproximou em círculos, como um lobo avaliando uma presa ferida. “Por pouco. Você está morrendo de qualquer jeito, não está? Dá pra ver nos seus olhos.”

Laura não respondeu. O que ela poderia dizer? Ele estava certo. O vínculo rompido a estava matando aos poucos.

“Talvez a gente devesse só esperar”, sugeriu um renegado de cabelo preto desgrenhado. “Deixar ela cair sozinha.”

“E qual é a graça disso?”, rosnou o líder, sem tirar os olhos de Laura enquanto a rodeava. “Além do mais, talvez ainda tenha um pouco de luta aí dentro. Não tem, Lunazinha?”

Os dedos de Laura tatearam freneticamente a casca da árvore, procurando qualquer coisa que pudesse usar como arma. A mão se fechou em torno de um galho quebrado — pouco, mas melhor do que nada.

“Meu nome”, ela disse entre os dentes, “é Laura Ravenwood. E eu não sou a sua presa, seu merda.”

O líder jogou a cabeça para trás e riu, um som logo ecoado pelos seguidores. “Laura Ravenwood”, repetiu, em tom de deboche. “Pois bem, Laura, eu sou Vex. Estes são meus irmãos. E você, meu amor, é muito, mas muito a nossa presa.”

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