Capítulo 1 Capítulo 1
Ponto de vista da Amanda
A lápide estava fria contra a minha testa, a única coisa que me mantinha ancorada enquanto o meu mundo se embaçava.
— Seis anos, mãe — sussurrei, com as palavras engasgando na garganta. — Seis anos desde que você se foi, e ainda parece que eu estou respirando debaixo d’água. Eu não consigo mais fazer isso sozinha. Estou cansada de ser forte num mundo que só quer me quebrar.
Uma única rosa vermelha escorregou dos meus dedos trêmulos e caiu sobre a terra úmida. Era o meu décimo nono aniversário — um dia que deveria ter sido de comemoração. Em vez disso, era só mais um lembrete de tudo o que eu tinha perdido.
Desde que a tia Rebecca me acolheu, “família” tinha virado uma palavra para dor. Para ela, eu não era uma sobrinha; eu era uma criada, um saco de pancadas, um fantasma assombrando os cantos da casa dela. Enquanto a filha dela, Miracle, passava os dias em salas de aula e vestidos de seda, eu passava os meus esfregando chão com trapos tão finos que mal se aguentavam.
Enxuguei o rosto com o dorso de uma mão marcada de cicatrizes, cerrando a mandíbula. Não hoje, eu disse a mim mesma. Hoje é a última vez que eles me veem chorar. Eu tinha um plano. Eu ia sair dali.
Um solavanco repentino e agudo — como uma faísca de eletricidade — atravessou minha coluna. Minha pele se arrepiou. Tateei o relógio de bolso rachado preso ao meu vestido, e meu coração afundou quando vi a hora.
— Droga — sibilei. Se eu me atrasasse para o jantar, Rebecca não só gritaria; ela daria um jeito de eu ficar uma semana sem comer.
Disparei, com os pulmões ardendo, correndo em direção às fronteiras da alcateia. Eu não podia pagar uma condução, então deixei o desespero alimentar minhas pernas. Quando cheguei à porta dos fundos, eu estava ofegante, com o peito subindo e descendo. Abri a porta devagar, rezando para que as dobradiças não me entregassem. Crrreec.
— Se escondendo de alguém?
A voz foi como água gelada descendo pela minha nuca. A tia Rebecca estava nas sombras do corredor, braços cruzados sobre o peito. Ela deu um passo à frente, os olhos se estreitando enquanto avaliava meu cabelo desgrenhado e as marcas no meu rosto.
— Você foi ao túmulo, não foi? Pirralha desobediente. — Ela se inclinou mais perto, as narinas dilatando. A expressão dela mudou da raiva para a confusão. — Espera… por que você está com um cheiro diferente? E os seus olhos…
— Deixa a garota em paz — trovejou uma voz grave.
O tio Michael entrou na luz, com Miracle logo atrás, exibindo um sorrisinho convencido. Michael não me defendia por bondade; ele só se metia quando a minha presença atrapalhava a paz dele.
— Ela tem trabalho a fazer — disse Michael, com os olhos duros. — Miracle precisa estar perfeita hoje à noite. Você vai fazer o cabelo dela, a maquiagem e preparar os vestidos. O Alfa Diabo está visitando a alcateia, e minha filha vai ser a que ele vai notar.
Miracle se encolheu, o sorrisinho desaparecendo. — Mas, pai! Todo mundo sabe que o Alfa Diabo é um monstro. Eu não quero que ele me escolha. Mande ela no meu lugar. — Ela apontou um dedo bem feito na minha direção.
Michael soltou uma risada seca, sem humor. — Não seja boba, querida. Eu adoraria jogar essa aí aos lobos, mas ela tem dezenove anos e não tem lobo. O Alfa só convocou garotas sem par e com lobo. Você é a única nesta casa que se encaixa.
Os olhos de Miracle se acenderam com uma compreensão cruel. Ela se virou para mim, a voz pingando veneno. — Ótimo. Já que eu tenho que me arrumar, você pode cuidar da minha lavanderia. E lave bem as minhas calcinhas; eu deixei uma surpresinha de ketchup pra você lá. Não deixe elas com cheiro de porão.
— E a fazenda — acrescentou Rebecca, com os lábios se curvando num sorriso venenoso. — O mato está tomando conta. Você vai capinar o campo depois de esfregar cada azulejo desta casa. Considere isso seu presente de aniversário.
Michael deu um passo na minha direção, o olhar demorando no meu rosto.
— Falando em aniversários... o que é que há de errado com os seus olhos, garota?
Eu recuei, o coração martelando contra as costelas.
— Eu... eu não sei do que o senhor está falando.
— Ela está escondendo alguma coisa — Rebecca sibilou. — Ela não tem lobo, é impossível ela mudar, a menos que...
— Chega, Rebecca — Michael cortou, ríspido, interrompendo-a. — Nós lidamos com isso anos atrás. Não é nada. — Ele me lançou um sorriso de gelar o sangue. — Feliz aniversário. Vá buscar a comida.
Corri para a cozinha, com as mãos tremendo. O cheiro de macarrão bem temperado enchia o ar — comida que eu sabia que não provaria, a menos que sobrassem restos nos pratos deles. Equilibrei a panela pesada e a levei até a mesa, com os olhos de Rebecca me seguindo a cada movimento, como um gavião à espera de o coelho tropeçar.
Voltei para pegar as taças e os copos, empilhando a bandeja alto demais na pressa de terminar logo. Quando alcancei a mesa, a bandeja inclinou.
Estilhaçou.
Um copo se quebrou no chão, os cacos explodindo pelo azulejo.
— Sua inútil de merda! — Rebecca gritou, saltando da cadeira.
— Limpe isso — ordenou Michael, a voz baixa e perigosa.
Eu estendi a mão para pegar a vassoura, mas Rebecca disparou o braço e cravou a mão no meu ombro, prendendo-me.
— Não. Você não vai pelo caminho fácil. Pegue com as mãos. Cada. Um. Dos. Pedaços.
Eu me ajoelhei, o chão frio mordendo a minha pele. Comecei a recolher o vidro irregular, com a visão embaçando. Uma ponta afiada cortou fundo a palma da minha mão. Eu não gritei, mesmo quando o sangue quente começou a formar uma poça sobre o azulejo branco.
Então, o cheiro me atingiu.
Era denso, escuro e intoxicante — como agulhas de pinheiro e tempestades. Estava perto. Perto demais. Minha cabeça latejou quando a eletricidade de antes voltou, disparando pelas minhas veias.
Splash!
Água gelada encharcou minha cabeça e meus ombros. Levantei o olhar e vi Miracle segurando uma jarra vazia, rindo enquanto a água arruinava o único vestido decente que eu tinha.
— Ops — ela deu uma risadinha. — Você parecia precisar se refrescar.
Alguma coisa dentro de mim se partiu. Anos de silêncio, fome, hematomas — tudo se condensou numa chama branca e incandescente no meu peito. Eu me levantei devagar, a água pingando do meu queixo.
— Eu não tenho outro vestido, Miracle — eu disse, com uma calma assustadora.
— E daí? O que você vai fazer a respeito, órfã?
Eu não pensei. Peguei um copo de suco escuro da mesa e atirei o conteúdo direto no rosto dela.
A sala ficou em silêncio. A boca de Miracle caiu aberta, o líquido roxo manchando a seda cara. Com um grito de fúria, ela ergueu a mão para me estapear.
Eu peguei o pulso dela no meio do movimento. A pele dela pareceu fria contra o calor repentino e antinatural que irradiava das minhas palmas. Pela primeira vez em seis anos, a garota que passou a vida tentando me diminuir olhou para mim — olhou de verdade — e tremeu.
— Encoste em mim de novo — eu sussurrei, minha voz soando mais grave, vibrando com um poder cru que fez os copos na mesa zumbirem — e eu vou te mostrar exatamente como é ser quebrada.
