Capítulo 2 Capítulo 2
Uma batida seca e ritmada ecoou pela casa. A porta se abriu para dentro, e Logan entrou na cozinha. Meu coração deu um salto. Meu companheiro. O futuro Beta da nossa alcateia. A única pessoa capaz de me arrancar desse pesadelo — e a peça principal do meu plano secreto para fugir hoje.
Logan entrou em silêncio, com uma expressão ilegível — talvez até de nojo. Meus dedos tremeram quando estendi a mão na direção dele, desesperada para que me puxasse e me abraçasse.
Logan encarou minha mão estendida como se estivesse coberta de peste. Não se mexeu.
— Junte-se a nós no café da manhã — cantou Rebecca, com a voz pingando de falsa gentileza.
Logan se sentou à mesa, o maxilar tão travado que eu conseguia ver os músculos pulsando. Ele não tocou na comida. Eu o observei, uma faísca minúscula de esperança tremulando no meu peito. Talvez ele tivesse trazido um presente? Talvez hoje, no meu décimo nono aniversário, ele finalmente fosse me marcar e me levar embora. Eu o amava tanto que, mesmo que todo mundo me odiasse, ele era o único diferente; ele me via sem defeitos e me amava do jeito que eu era. Eu mal podia esperar para dar a ele a minha virgindade e passar o resto da vida ao lado dele. Eu tinha gastado cada centavo que possuía para comprar o tênis que ele queria de aniversário. Eu faria qualquer coisa por ele.
— Está tudo pronto? — sussurrei por fim, incapaz de suportar o silêncio.
A testa de Logan se franziu. — Pronto o quê?
— Para eu me mudar para a sua casa. — Um sorrisinho esperançoso tocou meus lábios enquanto eu tentava esfregar as manchas de sangue do meu vestido.
Logan soltou um suspiro pesado e irregular. — É exatamente por isso que eu estou aqui, Amanda. Você não vai se mudar comigo.
O mundo pareceu inclinar. Minha cabeça latejou. Uma pegadinha. Tinha que ser uma piada cruel de aniversário. — Como assim?
Miracle soltou uma gargalhada, batendo o garfo na mesa. — Dá pra calar a boca e deixar ele comer?
— Não, Logan, você não pode dizer isso. — A confusão rodopiava na minha cabeça. Eu tinha passado meses sonhando com essa saída. — Por favor. Se o problema sou eu, eu posso mudar. Eu faço qualquer coisa. Só me diga o que há de errado.
Miracle pegou a tigela e virou a massa fria, cheia de molho, direto sobre a minha cabeça. O molho vermelho e grosso escorreu para dentro dos meus olhos e grudou no meu cabelo. A sala explodiu em gargalhadas. Logan não entrou na risada, mas levou a mão à boca, escondendo um sorriso de canto.
Eu limpei o molho dos olhos e encarei Logan. — Você vai ficar aí sentado?
Logan finalmente encontrou meu olhar, com os olhos frios como pedra. — O que você quer que eu faça, Amanda? Você devia ter ficado de boca fechada. Está passando vergonha.
— Eu sou sua companheira! Você devia me proteger!
— Cala a boca! — A voz de Logan trovejou, fazendo os pratos na mesa tremerem. — Eu não sou seu pai. Não posso ficar resolvendo seus probleminhas patéticos. Você se agarra em mim como uma sombra toda vez que as coisas ficam difíceis. Eu cansei de carregar a sua fraqueza.
Miracle se recostou na cadeira, com um sorriso cruel. — Você ouviu ele, perdedora.
Eu me agarrei às pernas dele, a voz se partindo num soluço. — Você não pode fazer isso. Não depois de tudo.
Logan se levantou, olhando para mim com puro desprezo. — Não existe “nós”, Amanda. Eu sou o futuro Beta da Alcateia Crestwood. Você acha que eu iria arruinar a minha reputação por uma aberração sem lobo como você?
—Logan, por favor...
—Eu, Logan — beta da Matilha Crestwood — rejeito você, Amanda, como minha companheira.
Um peso físico se chocou contra o meu peito, rasgando a minha alma. O vínculo se rompeu como uma corda puída, deixando um frio, um vazio oco onde antes estava o meu coração.
—Tudo bem — consegui dizer, engasgando, com as palavras tendo gosto de veneno. — Eu aceito sua rejeição.
O calor tinha sumido. A minha fuga tinha sumido. Me pus de pé às pressas e corri para o meu quartinho, desabando no colchonete. Deixei as lágrimas caírem até não sobrar nada. Eu não podia ficar ali. Eu precisava ir embora.
Horas depois, quando a casa ficou silenciosa e a família saiu para assuntos da matilha, fui até o quintal dos fundos para começar minhas tarefas. Virei a esquina e parei, paralisada.
Miracle estava lá. Estava envolvida nos braços de Logan, os lábios dos dois grudados de um jeito que ele nunca sequer encostou em mim.
—Logan?
Eles se separaram num sobressalto. Miracle deu um sorrisinho, alisando o cabelo, enquanto o rosto de Logan virava uma máscara de gelo.
—Então era por isso? — sussurrei. — Você nem conseguiu esperar até sair da entrada?
Logan deu um passo na minha direção, a voz baixa e cruel.
—Se enxerga. Eu nunca planejei me casar com você. Eu estava te usando pra chegar mais perto da sua irmã. Ela é bonita, ela tem uma loba... tudo o que você não tem. Você nunca se perguntou por que eu nunca toquei em você, Amanda?
Ele me olhou de cima a baixo com total nojo.
—Você não é atraente. Nenhum homem escolheria você.
Meu rosto se contraiu. Vai se foder, Logan. A última coisa que você vai me ver fazer é chorar por homem. Do jeito que você quer, então — mas não volte depois implorando.
Eu me virei e disparei de volta para dentro de casa antes que eles me vissem quebrar outra vez. Passei a tarde em transe, esfregando o chão e lavando louça até minhas mãos ficarem em carne viva.
“Não esquece de alimentar os gatos”, a voz de Rebecca ecoou na minha cabeça, lembrança de mais cedo.
O sol já se apagava num céu roxo, da cor de um hematoma, quando percebi que tinha adormecido encostada na parede da cozinha. O pânico subiu. Eles iam chegar a qualquer minuto. Corri para fora para achar o gato.
—Bubu! Vem aqui!
O gato me ignorou, disparando em direção à estrada principal, onde os carros passavam borrados de velocidade.
—Não! Volta! — eu me atirei, agarrando o gato bem quando ele chegou ao asfalto. Apertei o bichinho contra o peito, coçando atrás das orelhas. — Pelo menos você não acha que eu não valho nada — murmurei.
Um clarão branco ofuscante atingiu meus olhos.
Pneus guincharam — um som longo, agonizante, de borracha queimando. Me joguei para trás quando um carro preto, elegante, derrapou violentamente, passando a centímetros de mim e se arrebentando contra um muro de concreto com um estalo de ossos esmagando.
Fumaça sibilou do capô amassado. Soltei o gato e corri para o lado do motorista.
Lá dentro, caído sobre o airbag murcho, havia um homem. Jovem, musculoso e assustadoramente bonito, mesmo com o sangue escorrendo de um corte na testa.
Ele estava inconsciente, mas o poder que emanava dele fazia minha pele formigar. Quem era ele? E por que a minha loba — aquela que todo mundo dizia que não existia — de repente começou a uivar?
