Capítulo 3 Capítulo 3

Ponto de vista de Damon

Um gemido gutural rasgou a minha garganta quando a pele das minhas costas começou a chiar. Não era fogo, mas parecia que chumbo derretido estava sendo despejado diretamente na minha coluna. Agarrei a borda da minha escrivaninha de mogno, os nós dos dedos ficando brancos, até a madeira gemer sob a minha força.

Toda matilha que eu procurei. Toda donzela que eu examinei. Nada além de decepção.

Tirei a camisa, pegando meu reflexo no espelho do chão ao teto. As tatuagens de serpente já não eram mera tinta; pulsavam com uma luz doentia e rítmica. Elas haviam surgido na noite em que completei dezoito anos — uma sentença de morte escrita em linhas negras. Nenhum Alfa da minha linhagem jamais viveu além dos vinte e oito. A maldição era uma fera faminta e, naquele exato momento, estava me devorando vivo.

Eu tinha visto meu pai definhar, seu corpo poderoso virando cinza, osso e pele. Agora, o mesmo relógio ticava sobre a minha cabeça.

As pesadas portas de carvalho rangeram ao se abrir. Collins entrou, a cabeça tão baixa que o queixo quase tocava o peito.

— Alfa. Os preparativos estão completos. As donzelas foram reunidas no Grande Salão, e os anciãos do conselho estão exigindo uma audiência.

— Quantas vezes eu preciso avisar? — não me virei. Minha voz era um ronco baixo e perigoso que fez os decantadores de vidro sobre a mesa lateral tremerem. — Eu não quero falar com aqueles abutres. Eu só quero a cura.

Collins não vacilou, embora o cheiro dele se carregasse de nervosismo.

— Eles estão pressionando por um posicionamento sobre o futuro da matilha, senhor. Serviram ao seu pai por décadas. Um momento do seu tempo pode comprar o silêncio deles.

— Certo. — Peguei uma camisa de seda nova, o tecido parecendo lixa contra a minha pele inflamada. — Só desta vez. Diga que esperem. Eu já vou.

Minutos depois, entrei a passos largos na câmara do conselho. O ar estava denso com o cheiro de poeira antiga e tradição estagnada. Tomei meu lugar no trono de obsidiana, encarando a fileira de homens de cabelos grisalhos.

O ancião mais velho se levantou, as mãos tremendo enquanto se apoiava na bengala.

— Alfa Damon, nós só desejamos evitar a tragédia que se abateu sobre seu pai. A guerra que você começou ainda lança sombra sobre nossas fronteiras. Você completa vinte e oito em seis meses. Precisa gerar um herdeiro antes que a maldição o leve.

— Ele tem razão — acrescentou outro, os olhos desviando para minhas costas cobertas. — O destino não é uma sugestão, Alfa.

A lembrança da última noite do meu pai passou como um relâmpago diante de mim. Os médicos da matilha pareciam crianças assustadas. Meu pai estendeu a mão, o aperto surpreendentemente forte para um homem moribundo.

“Não cometa o meu erro, Damon”, ele chiou. “Amor é um luxo que não podemos nos permitir. O destino é uma jaula.”

Eu o enterrei ao amanhecer e jurei que nunca deixaria uma emoção me conduzir a um túmulo.

Levantei-me, minha presença preenchendo a sala até os anciãos recuarem para seus assentos.

— Meu pai escolheu uma mulher sem a marca porque seguiu o coração. Morreu em agonia. Eu não vou repetir esse fracasso. Eu não vou aceitar uma companheira a menos que ela carregue a serpente. Esta linhagem maldita termina comigo, ou é quebrada. Vocês se importam com o trono; eu me importo com a sobrevivência.

— Mas, Alfa—

— A decisão é final! — eu rugi. O som ecoou nas paredes de pedra como um golpe físico. — Tragam as noivas!

Os portões gigantes de ferro rangeram ao se abrir. Dezenas de mulheres entraram em fila, as cabeças baixas. Aquela era a quinta matilha que eu ocupava na minha busca. Algumas garotas mexiam no cabelo, desesperadas para chamar a atenção do “Alfa Diabo”. Outras usavam vestidos tão finos que estavam praticamente nuas, os olhos brilhando com a fome por uma coroa.

O salão cheirava a perfume barato e a um medo sufocante. Olhei para elas e não vi nada além de recipientes para a ambição. Nenhuma delas conhecia a escuridão que vinha com estar ao meu lado.

— Tirem suas roupas — ordenei, com a voz como gelo se partindo.

Os sorrisos desapareceram. O ambiente esfriou. Uma por uma, elas foram examinadas pelas matriarcas da alcateia. Uma por uma, foram dispensadas. Nenhuma marca. Nenhuma esperança.

Quando a última garota saiu correndo, uma fúria cega explodiu no meu peito. Girei nos calcanhares e golpeei o trono. A pedra pesada rachou e deslizou pelo estrado, batendo contra a parede.

Collins deu um passo à frente com cautela.

— Está tudo bem, senhor?

— Parece que está tudo bem? — rebati, com os olhos brilhando em um vermelho feroz. — Saia. Agora.

— O Alfa desta alcateia pediu uma reunião para discutir um tratado...

— Diga a ele que não estou interessado! — interrompi, agarrando as chaves do carro. — Não tenho tempo para política quando estou morrendo. Vou sair para espairecer.

— Senhor, deixe-me organizar os guardas...

Nem olhei para trás ao bater a porta. Peguei o primeiro carro no pátio — uma máquina monstruosa de alta potência — e disparei portão afora. Dirigi como um homem possuído, com o vento chicoteando pelas janelas, tentando fugir da ardência no meu sangue. A morte estava chegando, e eu a enfrentaria sozinho.

Eu estava perdido na névoa vermelha da dor, com a mente vagando pelos cantos sombrios do meu passado. Não vi a garota até ser tarde demais.

Ela entrou na estrada, um pequeno embrulho de pelos apertado contra o peito. Seus olhos se arregalaram sob os faróis. Virei bruscamente, os pneus gritando enquanto eu perdia o controle. O mundo girou. O metal amassou. O carro se chocou contra um prédio de tijolos, e minha cabeça bateu no volante.

A escuridão me engoliu.

Quando finalmente consegui lutar para voltar à consciência, o cheiro de antisséptico foi a primeira coisa que me atingiu. Abri os olhos e encontrei um quarto estéril. Uma jovem estava sentada numa cadeira perto da cama, torcendo as mãos no colo enquanto me observava.

— Quem é você? — a exigência saiu dos meus lábios antes mesmo que eu estivesse totalmente desperto.

Antes que ela pudesse responder, as tatuagens nas minhas costas arderam com uma violência que eu nunca tinha sentido antes. Soltei um arquejo, me dobrando ao meio, com os joelhos batendo no chão enquanto a agonia rasgava meu sistema nervoso.

Então, eu vi.

Ela havia se mexido na cadeira, e a camisa subira um pouco. Ali, logo acima da cintura, havia um brilho tênue e luminoso. A marca da serpente.

No instante em que meus olhos se fixaram nela, a dor nas minhas costas desapareceu. Ela não apenas diminuiu — morreu na mesma hora, substituída por uma vibração fria e calmante.

Meu lobo, em silêncio havia semanas, soltou um uivo estrondoso de reconhecimento.

Impossível.

Avancei num salto, agarrando os pulsos dela com um aperto de ferro. O ar entre nós ficou elétrico, pesado com o cheiro de chuva e lírios selvagens.

— Quem é você? — exigi de novo.

Ela não falou. Seu fôlego falhou, e ela me encarou com olhos arregalados e apavorados. Tentou se soltar, mas meu lobo estava arranhando minha mente. Encontre-a. Mantenha-a. Reivindique-a.

Inclinei-me para a frente e inspirei profundamente. O cheiro era familiar. Era um fantasma de um pesadelo que eu tinha tentado esquecer.

O nome me atingiu como uma lâmina cravada direto no coração. Janet Hope. A mulher que eu havia executado anos atrás pela mais alta forma de traição.

Olhei para a garota — sua filha. A filha da minha maior inimiga carregava a única marca capaz de salvar a minha vida. O karma tinha um senso de humor perverso.

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