Capítulo 4 Capítulo 4

O que acabou de acontecer?

Meu coração martelava contra as costelas enquanto eu corria. Aqueles olhos — perigosos, gelados e autoritários — me assombravam. Eu não sabia o nome dele, mas o poder que emanava dele naquele quarto de hospital não se parecia com nada que eu já tivesse sentido. Ele não tinha levantado a voz. Nem sequer tinha se mexido. O ar simplesmente se curvou a ele.

Ser julgada por um homem assim era mais assustador do que qualquer golpe que o tio Michael pudesse me dar.

Oito horas. A constatação transformou meu sangue em gelo. A punição estava me esperando.

Uma gargalhada explodiu na sala de jantar quando eu escorreguei para dentro. O cheiro de carne assada me atingiu como um golpe físico, fazendo meu estômago se contrair de fome. O prato de Miracle estava cheio até a borda. A taça de vinho da tia Rebecca pegou a luz, cintilando numa zombaria. A risada morreu no instante em que me viram.

— Você terminou a fazenda? — a voz do tio Michael era plana, os olhos presos ao prato.

Fiquei em silêncio.

O punho dele bateu na mesa, fazendo os talheres tremerem. — Sim ou não?

Eu não encontrava minha voz. Eu mal conseguia respirar.

— Miracle — ele resmungou, o tom ficando frio como uma cova. — Tranque ela no quarto.

— Por favor — eu engasguei, finalmente encontrando uma faísca de desespero. — Eu posso terminar amanhã—

Eles viraram o rosto como se eu fosse um fantasma. O tio Michael voltou para o bife. Miracle se levantou com um sorriso de canto triunfante.

Meu “quarto” era um buraco debaixo da escada. Era tão pequeno que meus pés batiam na parede se eu me esticasse. Na maioria das noites, eu dormia no piso de cerâmica da cozinha só para sentir que não estava num caixão.

— Fala com meu pai por mim — eu sussurrei quando ela me empurrou para dentro.

Miracle se apoiou no batente, o sorriso se abrindo mais. — Por quê? Eu faria isso por quê? Você nem limpou meu quarto direito.

— Espera — estendi a mão, segurando a borda da porta. — Por favor. Só um pedaço de pão. Eu sei que vou ficar presa aqui por dias.

A única resposta foi o clique pesado da fechadura.

No primeiro dia, contei cada rachadura na madeira. No segundo, a fome era uma coisa viva, torcendo minhas entranhas até eu me sentir oca e pesada ao mesmo tempo. Meus lábios racharam. Meus pensamentos se embaralharam em delírios febris. Achei que ouvi a voz da minha mãe — macia e gentil, me chamando de volta ao tempo antes das cicatrizes.

Abri os olhos para a escuridão e para o cheiro de poeira. A fome faz o passado parecer real e o presente parecer um pesadelo.

De repente, o ferrolho deslizou. Miracle estava ali, segurando uma bandeja com uma expressão entediada.

— Eu tinha esquecido que você estava aqui — ela mentiu, largando o prato.

Arroz podre. O cheiro me atingiu na mesma hora — azedo e agressivo.

— Cheira igualzinho a você.

Ela bateu a porta com força e trancou de novo.

Fiquei encarando aquela sujeira no chão por um bom tempo. Orgulho é um luxo para quem não está morrendo de fome. Comi cada grão, engoli tudo com um copo de água morna e caí de volta num sono escuro.

Horas — ou talvez dias — depois, a fechadura girou outra vez. Tio Michael estava ali. Não trazia no rosto a raiva de sempre. Ele parecia... nervoso.

— Levanta — ordenou. — Vem comigo.

Saí cambaleando, piscando contra a luz.

— Miracle, pega pra ela o seu melhor vestido — Michael rosnou. — Agora!

Minha boca ficou aberta. Ele nunca tinha falado daquele jeito com a preciosa Miracle. Um medo gelado começou a se instalar no meu peito. Ser invisível era seguro. Ser valiosa era aterrorizante.

Enfiaram um vestido de seda pela minha cabeça — macio, caro, cheirando a rosas. Tia Rebecca penteou meu cabelo, com um cuidado surpreendente, enquanto passava maquiagem no meu rosto. Quando me vi no espelho, uma estranha me encarava de volta.

— Não me faça passar vergonha — avisou Michael, apertando mais meu braço enquanto me conduzia até o carro.

A viagem foi um silêncio pesado, sufocante.

— O conselho mandou te chamar — ele resmungou por fim, olhando pela janela.

Paramos diante de um prédio enorme de pedra, guardado por soldados de preto. Aquilo não era uma reunião da matilha. Era outra coisa.

— Boa sorte, morta-viva — sibilou Rebecca quando eu desci. — Vou sentir falta de ter um saco de pancadas.

Eles foram embora antes que eu sequer conseguisse me virar. As portas gigantes de ferro rangeram ao se abrir, e os guardas fizeram um gesto para eu entrar.

O salão era imenso. Gelado. O silêncio parecia pesado, como um pulmão cheio de água. Cada guarda estava parado como uma estátua, os olhos fixos à frente. Meus dedos se fecharam em punhos ao lado do corpo. Eu me recusei a deixar que me vissem tremer.

No centro do salão havia um homem de costas para mim. Ombros largos. Uma presença escura, sufocante. Então eu vi a tinta — as tatuagens de serpente aparecendo acima da gola.

O homem do hospital.

Ele se virou devagar. A expressão era uma máscara de gelo — controlada e absolutamente fria. Todos os olhos no recinto se voltaram para mim, e o peso daqueles olhares me pregou ao chão.

Um sorriso sombrio puxou o canto da boca dele.

— Bom dia... noiva.

Meu sangue gelou. O olhar dele não trazia desejo. Não trazia bondade. Trazia a certeza absoluta de um predador que, enfim, tinha capturado a sua presa.

Eu não tinha sido convocada para um julgamento. Eu tinha sido reivindicada.

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