Capítulo 5 Capítulo 5
—Noiva?
A palavra parecia uma pedra na minha boca. Fiquei ali, tremendo dentro do vestido de seda que agora parecia um sudário. —Do que você está falando?
Damon nem piscou. A expressão dele continuou sendo uma máscara de granito congelado. —Você é a escolhida. —Ele girou sobre os calcanhares, a capa escura ondulando atrás dele. —Venha comigo.
A caminhada até o carro foi um borrão. O ar frio da noite beliscava minha pele, mas não era nada comparado ao gelo que emanava do homem ao meu lado.
—Seus pais não explicaram isso para você?
—Não. —Minha voz saiu num sussurro trêmulo.
—Eles venderam você para mim. —Ele disse, sem emoção, como se estivesse descrevendo o tempo. —É tudo o que você precisa saber.
Uma dor aguda se torceu no meu peito, mas eu não chorei. Meus canais lacrimais tinham secado anos atrás, naquele buraco embaixo da escada. Procurei no perfil dele um lampejo de culpa ou ao menos um indício de crueldade. Não havia nada. Só um vazio. Para ele, eu era uma transação. Um item acrescentado a um inventário.
A mansão era ainda mais intimidadora do que o salão do conselho. Ele me conduziu a uma suíte enorme, iluminada por lustres de cristal cintilantes. Lençóis de seda, macios como uma nuvem, estavam estendidos sobre uma cama king size.
—As regras são simples. —Ele parou junto à janela, em silhueta contra a luz da lua. —Você é minha noiva. Você vai ficar nesta ala. Você não vai se aproximar de mim a menos que eu a chame. Você não vai interferir em assuntos da alcateia. Faça o que quiser — desde que não fique no meu caminho.
Esperei a pegadinha. Uma ameaça. Uma exigência. Mas ele apenas ficou ali, o olhar deslizando até a minha mão. Antes que eu conseguisse escondê-la, ele avançou, os dedos se fechando no meu pulso como uma algema.
—O que aconteceu aqui?
—Foi só um corte —murmurei, tentando puxar o braço de volta.
Ele ignorou minha resistência, examinando o talho irregular na minha palma, do vidro quebrado de mais cedo. A testa dele se vincou. —Você é humana.
Soou como uma acusação.
Engoli em seco, o coração martelando contra as costelas. —Isso é um problema?
Ele não respondeu de imediato. Soltou meu braço e recuou para as sombras. —Isso complica as coisas.
—Complica o quê?
Ele não explicou. A máscara voltou, mais lisa e mais fria do que antes. —Estranho...
Ele se virou para ir embora, a presença dele se afastando como uma maré que recua.
—E se eu estiver com fome? —gritei para as costas dele.
Ele parou na porta, embora não tenha olhado para trás. —Você não vai estar.
Eu o vi ir, me perguntando se o coração dele era feito da mesma obsidiana que o trono. O quarto pareceu cavernoso quando ele se foi. Silencioso demais. Até as paredes pareciam prender a respiração, respondendo apenas a ele.
Uma batida suave me sobressaltou. Uma jovem entrou, fazendo uma reverência profunda.
—O Alfa me designou para você. Eu sou a Ava. Sua criada pessoal.
—Eu não preciso de uma criada.
“Não foi um pedido, Luna Amanda.” Ela ofereceu um sorriso educado, ensaiado. “O Alfa disse que você vai acompanhá-lo para um passeio esta noite. Antes disso, vamos fazer compras. Escolha o que quiser. Mas primeiro... você precisa comer. Siga-me.”
Ela me levou até uma sala de jantar que parecia um banquete real. Bandejas de prata transbordavam de iguarias que eu só tinha sentido o cheiro de longe. Carnes assadas, frutas exóticas e sobremesas polvilhadas com ouro.
Ava me observava, os olhos acompanhando cada movimento meu como se eu fosse uma experiência científica. Eu não me importava. A fome era uma fera urrando nas minhas entranhas, mais alta do que qualquer resto de orgulho que ainda me sobrava. Não esperei que puxassem uma cadeira para mim. Caí matando.
Provei de tudo — especiarias que ardiam, doces que derretiam na boca e molhos encorpados que eu não saberia nomear. Comi até os pratos ficarem pela metade vazios e meu estômago finalmente parar de doer.
“Acho que você precisa se acalmar, Luna”, Ava sussurrou, os olhos arregalados de choque.
Ignorei-a, limpando a boca com um guardanapo de seda. Eu era uma cadela faminta que finalmente tinha encontrado um osso.
Depois de um banho com cheiro de óleos caros, escolhi um vestido do guarda-roupa. Era de um azul profundo, como meia-noite, e se agarrava às minhas curvas. Encarei a garota no espelho. Ela parecia controlada. Poderosa.
Passei o dedo pelo contorno suave da tatuagem na minha pele. Sob a luz suave do banheiro, ela parecia mais escura. Estava quente — quase pulsando, como um segundo batimento cardíaco sob a minha carne. É só minha imaginação, eu disse a mim mesma.
Uma sombra caiu sobre a entrada. Damon estava ali, me observando. Ava sumiu no mesmo instante, nos deixando em um silêncio pesado.
“Imagino que ela tenha explicado a programação.” Ele estendeu um cartão preto elegante. “Use isto. Fique apresentável.”
Peguei o cartão, meus dedos roçando nos dele. Uma faísca de calor subiu pelo meu braço. “Você não precisava ter trazido isso pessoalmente.”
Ele não respondeu. Seus olhos estavam fixos na minha mão. Minha respiração falhou.
A tatuagem estava brilhando. Uma luz dourada tênue e etérea pulsava sob a minha pele. Damon agarrou meu pulso de novo, o aperto firme. Ele virou minha mão.
O corte tinha sumido.
Sem cicatriz. Sem casquinha. Nem sequer uma linha tênue mostrando onde o vidro tinha me cortado uma hora atrás.
A respiração de Damon ficou irregular. Seus olhos escureceram até ficarem quase completamente negros.
“Você não se cura.” Sua voz saiu em um rosnado baixo e perigoso. “Você se regenerou. O que é você?”
Minha boca ficou seca. Olhei para a palma da minha mão, minha mente girando. Eu não tinha uma resposta.
Antes que ele pudesse exigir uma, a porta se escancarou. Um guarda entrou às pressas, o rosto pálido e coberto de suor.
“Alfa...” ele arquejou.
Damon não tirou os olhos de mim. “O quê?”
“O conselho... todos os Alfas e anciãos das alcateias vizinhas estão aqui.” O guarda engoliu em seco, a voz trêmula. “E estão exigindo a garota com a marca.”
