Capítulo 1

Rhea

Três dias.

Era quanto tempo me restava antes que o Príncipe Herdeiro Tyrant, de Ironfang, cravasse os dentes no meu pescoço e me reivindicasse como sua companheira para a vida toda.

A ideia deveria ter me enchido de alegria. Em vez disso, um pavor gelado se acumulava no meu estômago enquanto eu me sentava no lugar de honra no Grande Salão de Ironfang, cercada por nobres de cinco reinos que não paravam de me lançar olhares invejosos, como se eu tivesse ganhado algum grande prêmio.

O cheiro dele está errado hoje à noite, rosnou minha loba. Forte demais. Possessivo demais.

Mandei ela calar a boca e me concentrei em manter um sorriso agradável quando a mão de Tyrant pousou na minha cintura, os dedos apertando só um pouco demais.

— Você está radiante esta noite, minha querida — murmurou junto ao meu ouvido. — Como se a própria Deusa da Lua tivesse descido para agraciar nós, mortais.

O elogio foi impecavelmente dito. Os nobres suspiraram, apreciativos. Mas o cheiro de Tyrant tinha mudado — o cedro e o couro aos quais eu já tinha me acostumado agora vinham atravessados por algo mais cortante. Algo que fazia minha loba rosnar: Alfa em caçada.

— Obrigada — consegui dizer. — Você é gentil demais.

O sorriso dele se alargou e, por um instante, seus olhos âmbar faiscaram frios. Então desapareceu, substituído por uma afeição calorosa.

Mentiros, rosnou minha loba. Predador.

— À união de nossas casas! — A voz do Grão-Duque cortou o salão enquanto erguia a taça. — Representa não apenas um casamento, mas o alvorecer de uma nova era!

Aplausos explodiram. Tyrant se levantou, me puxando junto, o aperto na minha mão suave, mas absolutamente inflexível.

— Convidados ilustres — começou ele, com a voz se projetando com facilidade. — Permitam-me apresentar a mulher que capturou não apenas o meu coração, mas a minha própria alma.

Meu estômago despencou. Isso não fazia parte do cronograma. Tyrant deveria fazer um brinde breve, nada mais. Mas agora ele se virava para mim, os olhos começando a brilhar, e o cheiro que vinha dele se intensificou — fumaça de cedro, densa e enjoativa.

— Lady Rhea não é apenas bela, embora seus olhos violetas pudessem fazer poetas chorarem. — Ele ergueu nossas mãos unidas bem alto, me exibindo como um troféu de caça. — Ela é tudo o que a Deusa da Lua concebeu como o complemento perfeito para a força de um Alfa.

Mais aplausos. Eu sentia centenas de olhos sobre nós, mas a inquietação da minha loba tinha virado um alarme genuíno.

Quando nos sentamos, a mão de Tyrant se apertou na minha cintura. Tentei me afastar um pouco. Os dedos dele cravaram na minha carne de imediato, encontrando pontos de pressão que me fizeram arfar.

Ele se inclinou, os lábios roçando meu ouvido.

— Não se afaste de mim de novo — soprou. — Não aqui. Nunca.

Afastou-se, depositou um beijo na minha têmpora que arrancou suspiros dos nobres que observavam. Mas o cheiro dele tinha mudado outra vez — madeira queimada agora, acre e agressiva.

Ele está encenando, percebi. Cada toque, cada palavra — é tudo um espetáculo.

O jantar continuou em um borrão. A mão de Tyrant permaneceu no meu ombro, o polegar acariciando em círculos ritmados que deixavam meus músculos tensos. O cheiro dele seguia mudando — cedro para fumaça, para algo mais escuro que cheirava a posse e violência mal contida.

No sétimo prato, minha loba se atirava contra o meu crânio, desesperada para se transformar, para lutar.

Então o Duque Shadowpeak se levantou, claramente bêbado.

— Um brinde ao casal feliz! Mas antes — um beijo! Vamos ver o amor que vai unir nossos reinos!

Não.

O coro se espalhou imediatamente. Punhos bateram nas mesas, pés pisotearam, criando um tamborilar que fez o palácio tremer.

— Beija! Beija! Beija!

Tyrant se virou para mim, os olhos brilhando, o sorriso predatório.

— Vamos dar a eles o que querem, meu amor? — A mão dele envolveu meu maxilar, inclinando meu rosto para cima, e o cheiro dele desabou sobre mim — cru, agressivo, meu.

Se você deixar ele te beijar aqui, você nunca vai escapar, explodiu minha loba. Ele vai te possuir. Corpo e alma.

Eu me puxei para trás, a mão no peito dele.

— Tyrant, eu prefiro guardar nosso primeiro beijo para a própria cerimônia. Sob o testemunho direto da Deusa da Lua, como manda a tradição.

O salão caiu em silêncio.

O rosto de Tyrant ficou vazio. Os olhos dele se inflaram de uma fúria assassina. A mão apertou meu maxilar, as garras picando minha pele — quatro pontos agudos de dor. O cheiro dele explodiu em fúria ardente.

Então a expressão dele se aplainou em calor. Ele soltou meu maxilar, pegou minha mão e beijou meus nós dos dedos.

— Minha amada Rhea me lembra por que a Deusa a escolheu como minha companheira. Sua devoção à tradição, seu respeito pela cerimônia sagrada — são essas as qualidades que farão dela uma rainha digna de lenda.

Ele sorriu para mim, perfeito e com um ar genuíno. “Você tem toda a razão, minha querida. Nosso primeiro beijo deve ser testemunhado pela própria Deusa.”

O salão explodiu em aplausos. “Um verdadeiro cavalheiro!”, alguém gritou.

Mas, sob a mesa, a mão do Tirano encontrou minha coxa e apertou — forte o bastante para deixar hematoma, forte o bastante para mandar um recado: Você vai pagar por isso.

Minha loba se calou, esperando, se preparando.

O jantar terminou. O Tirano se inclinou para perto. “Quando isso acabar, você vai me acompanhar até o Jardim da Lua. Precisamos discutir o seu comportamento esta noite.” A mão dele apertou até meus ossos rangerem uns contra os outros. “Você entendeu, Rhea?”

Eu entendi com a clareza de uma presa reconhecendo a intenção assassina de um predador.

“Sim, Tirano.”

“Boa menina.”


O Jardim da Lua era uma armadilha — mármore branco e luar, muralhas altas sem saída. O Tirano me conduziu até o pavilhão central, a pegada dele machucando. No instante em que ficamos a sós, ele me soltou com tanta brusquidão que eu tropecei.

Quando levantei o olhar, o príncipe encantador tinha sumido. No lugar dele havia algo frio e furioso, olhos em brasa, o cheiro agressivo o bastante para fazer minha loba rosnar.

“Você me fez parecer um idiota”, ele disse, a voz baixa e perigosa. “Como se eu nem conseguisse controlar a minha própria companheira.”

“Eu só queria seguir a tradição—”

“Tradição?” Ele riu, amargo. “Você desafiou minha autoridade em público. Você tem sido ousada demais desde o começo — aprendendo combate, discutindo política, dando opiniões. Achou que ia ser algum tipo de parceira em pé de igualdade?”

Ele se aproximou. Eu recuei.

“Todo macho naquele salão estava te encarando hoje à noite. Eu vi como eles olharam para o que é meu.” Ele avançou, agarrou meu pulso e me puxou contra ele. A outra mão se fechou no meu cabelo. “Você pertence a mim. Só eu posso olhar. Só eu posso tocar.”

“Me solta!” Tentei me desvencilhar, mas a força dele era esmagadora.

“Chega de fingir.” A mão dele pegou meu pescoço, os dedos cravando no lugar da marca. “Você acha que esses últimos seis meses foram de verdade? Eu estava te treinando. Te domando.” As presas dele se alongaram. “Eu vou te marcar hoje à noite. Agora. Quando o vínculo estiver completo, a sua loba vai se submeter à minha para sempre.”

O terror me inundou. “Não—”

Ele puxou minha cabeça para o lado, expondo minha garganta. Senti o hálito dele, quente e faminto, senti as presas pressionarem minha pele e, então—

Dor. Uma dor cegante quando os dentes dele romperam a pele.

Eu gritei, lutando, mas ele era mais forte, me imobilizando. Meu vestido rasgou. Mas a marca levava trinta segundos para se completar — eu ainda tinha tempo—

Minha loba explodiu além do meu controle com uma força sem precedentes.

SAI. DE. CIMA. DA. GENTE.

O comando Alfa que me prendia se estilhaçou. Poder inundou meus membros — o meu próprio poder, meu por direito de sangue e fúria.

Eu enfiei o joelho na virilha dele com tudo o que eu tinha.

O grito dele foi lindo. Ele me soltou, se dobrando. Eu não pensei — só me movi. Minhas garras se estenderam e eu as arrastei pelo rosto dele, sentindo a carne se abrir, sentindo o osso. Três sulcos profundos se abriram da têmpora até a mandíbula, sangue jorrando.

“Como você ousa!”, eu rosnei, meio transformada, presas expostas, pura fúria animal.

O Tirano cambaleou para trás, a mão pressionada contra o rosto sangrando, me encarando, em choque. O sangue escorria entre os dedos dele, escuro e brilhando ao luar. “Você... você me atacou?”

O choque se transformou em pura raiva. Os olhos dele arderam ainda mais, o lobo vindo completamente à superfície. “Sua vadia! Você vai se arrepender!”

Eu já estava correndo, com o vestido rasgado se enroscando nas minhas pernas, o ombro sangrando por causa da mordida incompleta. Atrás de mim, o urro do Tirano sacudiu as colunas de mármore — não era mais humano, era pura fúria de lobo.

“GUARDAS!” A voz dele estourou como trovão pelo jardim. “SELEM O PALÁCIO! NINGUÉM SAI!”

Ouvi botas batendo, gritos ecoando nas paredes de pedra. Meu coração martelava enquanto eu disparava por um arco, entrando nos corredores sombrios além.

“ACHEM ELA!” A voz do Tirano veio atrás de mim, crua de raiva e de algo mais sombrio — obsessão. “Quero todos os portões trancados, todas as saídas vigiadas! Ela não sai deste palácio! ESTÃO ME OUVINDO? Ela é MINHA!”

O som de ossos mudando de forma chegou até mim — o estalo úmido de ossos se rearranjando, o rosnado de um lobo duas vezes maior que qualquer Alfa normal. Ele estava se transformando. Ele estava caçando.

“Eu vou te arrastar de volta pela garganta se for preciso, Rhea!” As palavras dele se dissolveram num uivo que gelou meu sangue. “Você não pode fugir de mim! Você NUNCA vai fugir de mim!”

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