Capítulo 3
Rhea
Por um instante cristalino, fiquei suspensa entre a terra e o céu, entre a vida e a morte.
Bati no chão e rolei, os reflexos humanos me permitindo encolher o corpo e amortecer parte do impacto, mas não o bastante. A dor explodiu no meu pulso esquerdo quando o osso estalou, uma agonia branca e incandescente que me fez gritar, mesmo enquanto eu me forçava a continuar me mexendo, a rastejar para a frente com a mão boa e os joelhos, porque parar significava ser capturada.
Acima de mim, ouvi os guardas derraparem e pararem na beira do penhasco, discutindo se deviam me seguir.
E então ouvi outra coisa — um som que me fez soluçar de alívio.
Um uivo. Profundo, ressonante e absolutamente furioso.
Alex tinha chegado.
O lobo cinza-prateado que irrompeu da floresta era enorme, facilmente duas vezes o tamanho de um lobo normal, com uma marca branca em forma de raio na testa que o identificava como realeza de Winterbourne. Ele não diminuiu o ritmo nem avaliou a situação — apenas se lançou sobre o guarda Ironfang mais próximo com um rosnado que sacudiu as árvores, as mandíbulas se fechando na garganta do outro lobo com a finalidade de uma lâmina de carrasco.
O guarda morreu antes mesmo de conseguir ganir, e Alex largou o corpo sem cerimônia, os olhos azuis incendiados de dourado com a fúria de Alfa ao se virar para encarar os caçadores restantes. O recado era claro: Cheguem mais perto e se juntem ao amigo de vocês.
Eles recuaram, choramingando, a confiança de antes evaporando.
Um segundo lobo — menor, mais esguio, de pelo castanho-avermelhado — passou como um raio pelo impasse e veio direto até onde eu estava, encolhida contra as pedras. Caspian mudou para a forma humana e imediatamente tirou a jaqueta, envolvendo meu corpo, que mal estava coberto pelos restos do vestido dela.
Está tudo bem, ele disse pelo vínculo mental. A gente te pegou. Você está segura agora.
Alex voltou à forma humana e, quando olhou para mim, seus olhos azuis ainda estavam contornados de dourado, o lobo perto demais da superfície para recuar por completo. Ele estava sem camisa, o físico musculoso irradiando uma violência mal contida, e, quando seu olhar percorreu meus ferimentos — a marca de mordida no meu pescoço, meu pulso quebrado, as marcas de garras no meu ombro — vi a expressão dele mudar de preocupação para horror e então para uma fúria tão profunda que fazia o ar crepitar.
— Quem fez isso? — A voz dele saiu pouco acima de um sussurro, mas o comando de Alfa por trás das palavras fez até Caspian se encolher. — Rhea. Quem. Fez. Isso.
Eu não consegui falar. Em vez disso, ergui a mão boa e apontei de volta para Ironfang, para o palácio que tinha se tornado minha prisão, para o príncipe que usara uma máscara encantadora enquanto planejava minha destruição.
O olhar de Alex seguiu meu gesto e pousou no meu pescoço, na mordida de marcação incompleta. A compreensão amanheceu nos olhos dele, seguida imediatamente por uma raiva tão absoluta que os ossos do corpo começaram a estalar e a se rearranjar, o lobo tentando forçar a volta para fora.
— Alex, NÃO! — Caspian agarrou o braço dele. — Você volta para lá agora e começa uma guerra! A gente tem que tirar a Rhea daqui primeiro!
— Eu vou matar ele — Alex rosnou, a voz distorcendo enquanto os caninos se alongavam. — Vou arrancar a garganta dele e fazer ele engolir enquanto ainda estiver vivo—
— Irmão. — A palavra saiu quase num sussurro, mas cortou a raiva dele como uma lâmina. Ergui a mão boa e segurei seu pulso. — Por favor. Não volte. Me tira daqui. Eu preciso... eu preciso ficar mais forte.
Ele olhou para mim, e eu vi o exato momento em que a fúria assassina dele colidiu com o instinto de me proteger. Os olhos se aclararam um pouco, o dourado recuando para um azul puro, e ele cobriu minha mão com a dele, o toque gentil apesar da violência ainda irradiando de cada linha do corpo.
— Qualquer coisa — ele disse, rouco. — Eu te dou qualquer coisa, Rhea. Só me diz do que você precisa.
Engoli em seco, sentindo o gosto de sangue, e forcei as palavras a passar pela minha garganta machucada. — Leve-me para a Universidade Zenith. Quero ser forte o bastante para que ninguém nunca mais consiga me ferir. Forte o bastante para eu nunca mais ser vítima de ninguém. Forte o bastante para provar que mulheres também podem ser guerreiras.
Alex ficou em silêncio por um longo momento, o olhar indo do meu rosto à direção de Ironfang, claramente pesando opções e consequências. Por fim, ele assentiu uma vez, firme e decidido.
— Tudo bem. Vamos fazer isso. Mas primeiro precisamos te dar atendimento médico antes que essa marca te mate, e precisamos sair daqui antes que os guardas do Tyrant criem coragem e venham atrás da gente de novo.
Ele passou um braço por baixo dos meus joelhos e o outro por trás dos meus ombros, erguendo-me com todo o cuidado, como se eu fosse feita de vidro fiado. Reprimi um gemido quando o movimento sacudiu meus ferimentos, e ele ajustou a pegada na mesma hora, com uma expressão atormentada.
— Eu te peguei — murmurou, e começou a andar na direção de onde tinham deixado o veículo. — Eu prometo, Rhea. Ninguém nunca mais vai te machucar assim. Não enquanto eu estiver vivo para impedir.
Caspian acompanhou nosso passo ao lado, com uma mão repousando no kit médico preso ao cinto. — Precisamos tratar essa marca primeiro. Se não for selada ou removida direito dentro de quarenta e oito horas, a corrupção mágica pode se espalhar pelo sistema dela inteiro.
— Eu sei — disse Alex, sombrio. — Vamos usar meu sangue. A mesma linhagem deve neutralizar a reivindicação do Tyrant.
— Vai funcionar? — perguntei, com a voz pequena.
— Tem que funcionar — respondeu Alex, com uma certeza absoluta. — Porque a alternativa é você ficar ligada àquele monstro para sempre, e eu reduziria Ironfang a cinzas antes de deixar isso acontecer.
Saímos da floresta e chegamos a uma estrada de terra, onde um veículo preto e elegante esperava, com o motor ainda ligado. Caspian abriu a porta de trás, e Alex me acomodou com cuidado nos bancos de couro, alcançando imediatamente os suprimentos médicos.
— Isso vai doer — alertou Caspian, ajoelhando-se ao lado da porta aberta, enquanto desenrolava a bandagem improvisada ao redor do meu pescoço. — A marca está tentando se completar. Forçá-la a abortar no meio do processo é... desagradável.
— Só faça — rosnei entre os dentes. — Eu sobrevivi a coisa pior hoje à noite.
Alex mordeu o próprio pulso sem cerimônia, as presas perfurando pele e veia com eficiência treinada, e pressionou a ferida sangrando diretamente contra a marca incompleta do Tyrant. Eu gritei — não consegui evitar — quando duas linhagens diferentes de Alfa colidiram na minha carne, lutando pela dominância, queimando como ácido e gelo ao mesmo tempo.
— Segurem ela — ordenou Caspian, e a mão livre de Alex prendeu meus ombros ao banco enquanto eu me debatia e soluçava, com cada terminação nervosa em chamas, à medida que a corrupção mágica era expurgada à força do meu corpo.
Pareceu horas, mas provavelmente foram só minutos, até que a queimação enfim começou a ceder, substituída por um cansaço profundo, que chegava aos ossos. Alex afastou o pulso e eu vi que a marca no meu pescoço tinha parado de supurar, as bordas já começando a se fechar com a cura acelerada de lobisomem.
— Acabou — disse Caspian em voz baixa, enfaixando a área com eficiência profissional. — A marca está selada. Agora ela não vai se completar, e a reivindicação do Tyrant foi quebrada.
Fechei os olhos, um alívio tão intenso me invadindo que comecei a tremer de novo. — Obrigada. Aos dois.
— Não — interrompeu Alex, a voz áspera. — Não pense no que poderia ter acontecido. Você está aqui. Você está viva. E eu juro pela própria Deusa da Lua, Rhea, que vou garantir que você tenha tudo o que precisar para se tornar a guerreira que quer ser.
O ronco do motor e o calor do corpo de Alex encostado no meu me puxaram em direção à inconsciência, mas a voz dele atravessou a névoa uma última vez.
— Durma agora, irmãzinha — murmurou, depositando um beijo no alto da minha cabeça. — Quando você acordar, a gente começa a construir a mentira que vai te libertar.
Eu ficaria mais forte. Na Universidade Zenith.
