Capítulo 1 Ajude-me!

Ponto de vista de Aria

Chegue em casa.

Só chegue em casa em segurança.

Apressei o passo pelo beco, agarrada à minha maleta médica, os olhos se movendo nervosamente de um lado para o outro enquanto um alerta primitivo se acendia dentro de mim, avisando que algo estava errado.

O ar estava denso de hostilidade e com o cheiro metálico de sangue, fazendo minha loba interior se remexer inquieta dentro de mim.

Como uma Ômega, eu sempre fui mais sensível ao perigo do que a maioria dos lobos. Era uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo — útil para evitar problemas, mas exaustivo quando cada sombra parecia esconder uma ameaça.

Esta noite parecia drasticamente diferente. O próprio ar parecia pulsar com violência iminente, carregado de uma tensão crua, elétrica.

Nem mesmo o peso familiar da minha adaga de prata, guardada dentro da bolsa, oferecia muito consolo diante da ameaça que se aproximava.

Também é um risco para mim — se eu não tomar cuidado, um único movimento errado pode fazer o fio da lâmina queimar minha própria pele.

Mas, num mundo como este, é a única coisa que equilibra um pouco as chances contra Alfas muito mais fortes do que eu.

Às vezes, você precisa de algo capaz de deter os realmente desesperados.

Meus pensamentos voltaram à infância, aos dias antes de a alcateia Morgan ter caído em ruína.

Naquela época, as noites nunca pareciam solitárias; eu nunca andava sozinha no escuro.

Meu pai estava sempre ao meu lado, sua presença era uma fortaleza inabalável, oferecendo uma sensação infinita de segurança.

Ainda consigo me lembrar com nitidez de uma noite gelada de inverno, o luar se derramando sobre a neve como geada, enquanto eu me encolhia dentro do casaco pesado dele, tremendo.

Ele olhou para mim, a voz grave e calorosa. “Ei, pequena, está com frio? Não se preocupe, estou bem aqui. Não importa o que aconteça, não vou deixar ninguém machucar você.”

Ergui os olhos para os dele, resolutos, e dei uma risadinha, minha voz leve e despreocupada. “Eu não estou com medo! Com você aqui, até o lobo mau grandão pensaria duas vezes antes de chegar perto! Podemos enxotá-lo juntos?”

Um leve sorriso surgiu no canto de sua boca enquanto ele afagava minha cabeça com gentileza.

Naqueles dias, eu realmente acreditava que, enquanto ele estivesse comigo, nenhuma escuridão no mundo seria capaz de me tocar.

Mas aqueles dias se apagaram como o luar ao amanhecer, perdidos para sempre. Não consegui evitar que a emoção me apertasse a garganta, tomada pela tristeza, mas me forcei a segurar as lágrimas, porque agora não era hora para luto.

Agora, aprendi a confiar na minha inteligência e nos meus instintos para sobreviver neste mundo brutal. Aqui, uma Ômega sozinha é vista como presa fácil, pronta para ser dilacerada a qualquer momento.

Segurança se tornou um sonho inalcançável, e tudo o que posso fazer é apertar com força minha adaga de prata, observando cada sombra com cautela.

O som distante de rosnados e estrondos me fez congelar no meio do passo. Vozes furiosas ecoaram pelas paredes de pedra. “Droga, esta é a noite em que você morre!”

Meu coração martelou contra as costelas enquanto, por instinto, recolhi para dentro de mim meu aroma de luar e jasmim, tentando me tornar invisível.

Era uma habilidade que eu tinha aprendido cedo — como suprimir meus feromônios naturais para evitar atenção indesejada. Minha mão deslizou para dentro da bolsa, os dedos se fechando em torno do familiar cabo envolto em couro.

A adaga de prata pareceu gelada através da empunhadura protetora enquanto eu avaliava minhas opções.

Aquele beco era a única rota rápida até meu pequeno apartamento, mas dar a volta significava caminhar por mais uma hora através de um território ainda mais perigoso.

‘Deus da Lua, me ajude’, pensei, me preparando para seguir em frente.

Assim que cheguei à parte mais profunda do beco, passos rápidos e uivos baixos explodiram do outro lado da esquina.

De repente, uma figura alta surgiu cambaleando no meu campo de visão, e fui atingida por uma onda de feromônios de Alfa tão intensa que quase me jogou de joelhos — um cheiro de abeto gelado e couro, agora contaminado pelo odor acobreado de sangue fresco.

O homem era magnífico e aterrorizante ao mesmo tempo. Alto e esguio, com cabelos castanho-escuros desgrenhados, ele tinha a camisa em farrapos, revelando um peito musculoso e braços marcados por profundos ferimentos de garras.

O sangue pingava de forma constante sobre as pedras do calçamento, escuro e ameaçador sob a pálida luz prateada.

O terror inundou meu corpo enquanto meus instintos de Ômega se encolhiam sob a presença esmagadora do Alfa. Mas, quando o homem misterioso fixou os olhos em mim, seu olhar não trazia malícia, apenas desespero bruto e um lampejo de incredulidade.

Era um olhar que não ameaçava, mas implorava. Contra toda lógica, senti o peso sufocante sobre minha alma se aliviar, e minha ansiedade e meu medo, de algum modo, diminuíram.

Ao mesmo tempo, meu fôlego travou na garganta.

O tempo desacelerou enquanto ele cambaleava na minha direção, a mão estendida para agarrar meu braço. No instante em que nossa pele se tocou, um choque elétrico percorreu meu corpo inteiro.

Minha loba interior não se encolheu de medo — ao contrário, ela cantou com uma emoção que eu nunca tinha sentido antes. Uma ressonância tão profunda e primal que me sacudiu até o âmago.

— Me ajuda — a voz dele saiu áspera, enfraquecida pela perda de sangue, mas carregando aquela autoridade inconfundível de um Alfa que não admitia discussão. — Eu não vou te machucar, eu juro.

Tentei desesperadamente me soltar, e minha voz saiu num gaguejo apavorado:

— Por favor, eu não vi nada! Só me deixa ir!

Mas ele não me soltou. O sangue continuava pingando de seus ferimentos enquanto ele me prendia com aqueles olhos azuis firmes, a voz ficando mais fraca e, ainda assim, de algum jeito mais irresistível.

— Confia em mim... ou nenhum de nós vai sobreviver à noite.

Foi então que percebi o quão graves eram seus ferimentos de verdade. Mesmo com a cura acelerada de um Alfa, ele sangraria até a morte sem atendimento imediato.

A presença poderosa dele já começava a se apagar à medida que o choque se instalava.

— Por favor... — A voz desceu até virar quase um sussurro, mas o olhar não vacilou. — Meu lobo está me dizendo... que dá pra confiar em você.

Quando meus dedos roçaram a testa febril dele, meus feromônios naturais de cura começaram a fluir, e eu vi o rosto dele relaxar um pouco conforme a dor cedia.

O que você está fazendo, Aria? minha voz interior gritou. Salvar ou correr? Se você não ajudar, talvez não sobreviva também. Mas por que minha loba está me empurrando para salvá-lo? O que é essa ressonância estranha que eu nunca senti antes?

Por fim, tomei minha decisão, embora parecesse loucura.

— Deus da Lua, me perdoe... eu devo estar ficando doida.

Ajudei-o a se pôr de pé com cuidado, atenta aos ferimentos.

— Minha casa não é longe daqui. Eu posso cuidar das suas feridas. Mas se você tentar me machucar...

A voz dele estava fraca, mas solene quando respondeu:

— Eu nunca machucaria você. Eu juro.

Mas antes que conseguíssemos dar mais do que alguns passos, o som de passos se aproximando fez um arrepio de puro pavor descer pela minha coluna.

— Por aqui! — sussurrei com urgência, avistando uma pilha de caixas de papelão atrás de um prédio de apartamentos próximo.

Guiei-o depressa para dentro do abrigo improvisado, nós dois agachados bem baixo. Alcancei minha bolsa médica e puxei um saquinho de ervas de cheiro forte que eu sempre carregava — feitas para neutralizar odores intensos durante procedimentos.

Esmaguei-as entre os dedos, espalhando rapidamente a pasta pungente nas pedras úmidas do calçamento ao nosso redor e passando um pouco nas bordas da camisa rasgada dele.

O aroma medicinal, forte e quase cáustico, se misturou ao cheiro metálico do sangue, criando uma combinação confusa que dificultaria para qualquer um identificar exatamente o que estava rastreando.

Passos pesados ficaram mais próximos, acompanhados de um resmungo ríspido:

— Ele não tava bem ferrado? Pra onde diabos ele foi? — A voz era áspera, carregada de frustração.

Um suor frio brotou na minha testa quando me apertei mais contra o homem ferido, tentando fazer com que nós dois parecêssemos o menor possível.

Agora ele se apoiava com força no meu ombro, e eu sentia cada respiração curta no meu pescoço — quente, fazendo cócegas, provocando arrepios estranhos na minha espinha que não tinham nada a ver com medo.

Foco, Aria. Foco.

Mas era impossível ignorar a forma como o corpo dele se encaixava no meu, sólido e quente apesar dos ferimentos. Cada expiração contra minha pele me deixava tonta, e minha loba se agitava com emoções que eu não sabia nomear.

— Droga! — a voz furiosa rugiu bem do lado de fora do nosso esconderijo. — Você tá morto, ouviu? Morto!

Prendi a respiração, sem ousar me mexer, mesmo quando a respiração dele ficou mais pesada contra o meu ombro.

Minutos se esticaram como horas, até que, enfim, os passos se afastaram e as maldições raivosas se perderam na distância. Só quando o silêncio se prolongou, absoluto e inquebrável, eu finalmente ousei me mover.

— Eles foram embora — sussurrei, a voz tremendo. Com cuidado, ajudei-o a sair de trás das caixas, minhas pernas tremendo quando nós dois nos levantamos. — Vamos... vamos pra minha casa agora.

Ele assentiu, fraco, a força claramente se apagando.

Eu disse, urgente:

— Não dorme!

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