Capítulo 2 O que há de errado comigo?
Ponto de vista de Aria
O homem estranho lutava para manter os olhos abertos, olhando para mim enquanto assentia.
A subida pela escada estreita até o meu apartamento pareceu interminável.
As luzes do teto, piscando, projetavam sombras dançantes no papel de parede descascado, e o cheiro de mofo do prédio velho se misturava de um jeito desagradável ao odor metálico de sangue que pingava dos ferimentos dele.
— Só aguenta firme — sussurrei, olhando nervosa por cima do ombro em direção à entrada do prédio. — Estamos quase lá.
A respiração dele era quente junto ao meu ouvido quando respondeu:
— Estou tentando não ser um peso morto.
O estranho era que o cheiro dele tinha mudado desde que saímos do beco. O abeto frio e o couro ainda estavam ali, mas de algum jeito tinham ficado... mais quentes. Menos intimidadores.
— Você é mais forte do que parece — ele murmurou, e eu ouvi o esforço na voz. — Obrigado por isso.
Tateei as chaves na porta do apartamento, com as mãos tremendo um pouco.
— Não me agradeça ainda. Vamos te colocar lá dentro antes que—
O som de uma porta de carro batendo na rua, lá embaixo, fez nós dois congelarmos.
O aperto da mão dele no meu ombro se intensificou, e os feromônios dele dispararam em alerta apesar do estado debilitado.
— Rápido — ele soprou.
Por fim, a fechadura clicou e abriu. Empurrei a porta escancarada e o ajudei a cambalear para dentro da minha sala pequena, fechando depressa e passando o ferrolho atrás de nós.
Ele afundou no meu sofá surrado com um grunhido de dor, e eu me encolhi ao ver uma mancha escura começar a se espalhar pelo tecido desbotado.
— Eu substituo — ele disse, percebendo minha expressão.
Lancei um olhar para ele.
— Agora você mal consegue ficar sentado direito. Deixa que eu me preocupo com os móveis.
Minha bolsa médica tinha servido bem para primeiros socorros básicos, mas aqueles não eram ferimentos de uma simples briga de rua — eram ferimentos de lobisomem, fundos e irregulares. Para isso, um kit comum era inútil. Disparei para o quarto e puxei debaixo da cama o estojo de ferramentas especializadas — um lembrete amargo de lições aprendidas nas minhas antigas enrascadas com famílias poderosas.
Quando voltei à sala, o Alfa ferido examinava meu espaço pequeno, reparando nos poucos móveis, na pilha de revistas de psicologia sobre a mesinha de centro.
— Você mora sozinha — ele observou.
— Isso é um problema? — ajoelhei ao lado do sofá, abrindo o estojo e tirando antisséptico e gaze feitos especificamente para lesões de lobisomem.
— Não, é só que... — ele parou quando comecei a limpar o sangue ao redor dos ferimentos. — Você podia ter ido embora. A maioria teria.
Concentrei-me em remover com cuidado o sangue seco, tentando não pensar no quanto aquilo parecia íntimo. A pele dele era quente sob o meu toque, e eu sentia os músculos se contraírem quando eu tocava num ponto mais sensível.
— A maioria não é Ômega — eu disse por fim. — A gente é diferente por natureza.
— Nem todas as Ômegas ajudariam um Alfa desconhecido.
Parei de limpar por um instante, encontrando o olhar dele.
— Você não é um Alfa qualquer, é?
Os olhos dele tremularam com alguma coisa — surpresa? Cautela?
— O que te faz dizer isso?
— Seu cheiro, pra começar. Não é como o de outros Alfas que eu já encontrei. — Voltei a limpar os ferimentos, observando quando o antisséptico o fez sibilar baixinho. — E o jeito como você se porta, mesmo ferido. Você está acostumado a mandar.
Ele ficou em silêncio por um longo momento, e eu senti o debate interno dele nas mudanças sutis dos feromônios.
Olhei para ele e perguntei:
— Qual é o seu nome?
— Lorenzo Sterling — ele disse, hesitando por alguns segundos, com a voz carregando um peso de significado.
Minhas mãos ficaram imóveis no braço dele. Sterling. Todo mundo conhecia esse nome. A Alcateia Sterling era uma das mais poderosas da região, com interesses comerciais que se estendiam por vários setores. Aquele nome trouxe de volta uma enxurrada de memórias complicadas que eu preferia manter enterradas.
Com a voz trêmula, perguntei:
— Você conhece Marcus Sterling?
Os olhos dele se estreitaram de leve, e eu peguei um lampejo de algo indecifrável atravessando suas feições.
— Por que você está perguntando sobre ele?
O jeito como ele desviou da minha pergunta fez meu coração falhar uma batida. Havia reconhecimento ali, apesar da tentativa dele de esconder.
— Eu não sou próxima dele nem nada — falei depressa, concentrando-me em enfaixar os ferimentos. — Só curiosidade, só isso.
O maxilar dele se retesou e, quando tornou a falar, a voz veio com um amargor cortante.
— A minha família é o motivo de eu estar sangrando no seu sofá. Vamos deixar assim por enquanto.
Assenti, sem insistir. Qualquer ligação que ele tivesse com Marcus — ou a dor que isso causava — não era da minha conta. A minha própria história com aquela família era algo que eu tinha lutado muito para esquecer.
— Por que eles estão atrás de você? — perguntei em vez disso, mudando de assunto. — Por que querem te matar?
O maxilar de Lorenzo se apertou.
— Política de alcateia. O nome Sterling vem com muita bagagem.
— Isso explica por que alguém quer você morto — eu disse, pegando uma faixa embebida em pétalas de lua, um dos curativos especiais de cicatrização que funcionavam particularmente bem em ferimentos de lobisomem. — Mas não muda o fato de que você está machucado.
Ele assentiu, sombrio.
— Quando você está no topo, todo mundo abaixo quer te puxar pra baixo — e não se importa com quem se machuca no processo.
Quando terminei de limpar, apliquei com cuidado as bandagens impregnadas de ervas nos cortes mais profundos. Meus dedos se moviam com a eficiência de quem já tinha prática, embora eu não conseguisse ignorar como a pele dele parecia reagir ao meu toque, nem como a respiração dele foi ficando mais regular à medida que meus feromônios de cura o envolviam.
Depois disso, peguei um pano e comecei a limpar o sofá, tentando tirar as manchas de sangue antes que fixassem. A combinação da perda de sangue com o meu cheiro calmante cobrou seu preço — os olhos de Lorenzo pesaram e, em poucos minutos, ele apagou completamente.
Quando terminei de limpar, agachei ao lado dele, estudando seus traços na luz fraca. Ele era... marcante. Bonito, até, de um jeito perigoso.
Meus olhos demoraram nos cílios longos e depois desceram até os lábios. Fiquei tão absorta olhando que nem percebi o tempo passar — até ele resmungar alguma coisa, quase inaudível, se mexendo um pouco no sofá.
Eu me endireitei num sobressalto, o pulso disparando — não de vergonha, mas de irritação comigo mesma por ter perdido o foco. Quanto tempo eu tinha ficado ali, sentada como uma idiota enfeitiçada pela lua? Era exatamente esse tipo de distração que podia me matar. Recuei depressa e me enfiei no meu quarto, precisando de distância para recuperar o autocontrole e clarear a cabeça.
Minhas costas bateram na porta, e meu próprio pulso era um tambor frenético contra a madeira. Um estranho. Um estranho perigoso. E eu tinha ficado encarando-o como... o quê? Uma idiota enfeitiçada pela lua? A ideia era humilhante, uma traição a cada instinto que tinha me mantido viva até ali. Eu era terapeuta de trauma, pelo Deus da Lua. Eu já tinha visto o que acontecia quando as pessoas baixavam a guarda perto de indivíduos perigosos.
Mas, mesmo enquanto eu tentava racionalizar o meu comportamento, não conseguia afastar a sensação de que Lorenzo Sterling ia mudar tudo.
