Capítulo 3 Você quer que eu fique?
Ponto de vista da Aria
Abri os olhos e, por um instante, me senti completamente em paz — até que a memória voltou com força, como uma onda gelada.
O estranho. Lorenzo.
Sentei num salto, com o coração já disparado. No que eu estava pensando ao trazer um desconhecido ferido para dentro de casa?
Mesmo que ele tivesse parecido inofensivo ontem à noite, o comportamento de um Alfa podia ser imprevisível, especialmente quando estavam encurralados ou desesperados.
Eu fiz uma bela cagada!
Calcei minhas pantufas felpudas e fui rápido para a sala, com o pulso martelando na garganta.
Talvez ele tivesse ido embora durante a noite. Talvez eu acordasse e encontrasse o sofá vazio e todo esse encontro bizarro não passasse de um sonho estranho.
A sala realmente estava vazia — nada de Lorenzo largado no meu sofá, nada de ataduras manchadas de sangue espalhadas por aí.
Soltei o ar devagar, os ombros cedendo de alívio. “Isso é bom”, murmurei para mim mesma, passando a mão pelo meu cabelo bagunçado. Mas, enquanto meu olhar se demorava naquele sofá, na ausência de qualquer sinal de que alguém tinha estado ali, algo oco se acomodou no meu peito. “Era exatamente isso que devia ter acontecido.”
Mesmo dizendo aquilo, a sensação de vazio só ficou mais forte. Decepção? Isso era ridículo. Eu mal conhecia o homem, e ele não tinha trazido nada além de perigo para a minha porta. Então por que a sala impecável parecia tão... solitária?
Eu me virei para voltar ao quarto quando um barulho suave veio da cozinha, seguido do que pareceu um grunhido abafado de dor.
Meu coração voltou a acelerar, mas desta vez com outro tipo de preocupação.
— Bom dia.
Girei na direção da porta da cozinha quando Lorenzo apareceu, movendo-se com a cautela deliberada de quem se esforça muito para não demonstrar o quanto tudo dói. Nas mãos, ele segurava uma tigela, os nós dos dedos brancos de tanta força para manter o aperto firme.
Ele tinha trocado as roupas rasgadas e ensanguentadas por uma camiseta preta limpa, mas eu via onde o tecido grudava levemente na pele — sangue fresco atravessando as bandagens por baixo.
O cabelo dele estava úmido, e a palidez no rosto denunciava alguém que tinha ido muito além do próprio limite.
— Deusa da Lua! — engasguei, dando um passo na direção dele. — Você não devia estar de pé! Como você consegue se mexer tão silenciosamente quando está...
— Desculpa por isso. Velhos hábitos. — A boca dele tentou formar algo que talvez fosse um sorriso. Ele ergueu a tigela com esforço visível; o tremor leve nos braços era impossível de esconder. — Fiz café da manhã. Mais ou menos. Como agradecimento por ontem à noite.
O cheiro que vinha da tigela era quente e reconfortante, mas tudo em que eu conseguia prestar atenção era no jeito como ele balançava de leve, tentando se manter firme.
— Lorenzo, você devia estar descansando. E de onde você tirou essas roupas?
— Encontrei no armário do corredor — respondeu, com a voz cuidadosamente controlada, mas tensa. — Espero que você não se importe. Estavam lá, paradas.
— Sem problema. São do meu pai. Mas, surpreendentemente, ficaram bem em você.
— Obrigado. Também achei aveia na sua despensa. — Ele gesticulou para a tigela com movimentos que claramente estavam lhe custando caro. — Pensei que devia fazer bom uso. Seus feromônios de cura... me deram força suficiente para fazer isso, embora eu esteja pagando o preço agora.
Apesar da preocupação, meu estômago roncou com o cheiro. Mas ver ele lutando para continuar em pé me deixava inquieta.
— Você não precisava fazer isso — eu disse, indo rápido para a mesa.
— Precisava, sim. Você salvou a minha vida. O mínimo que eu posso fazer é garantir que você coma alguma coisa.
Sentei na cadeira, observando enquanto Lorenzo se acomodava com um cuidado doloroso, a mandíbula travada contra um desconforto que era claramente intenso. Um brilho fino de suor se formava na testa dele, resultado do esforço de cozinhar e se mover.
— Como você está se sentindo? — perguntei, embora a resposta estivesse estampada no rosto dele.
— Melhor. Muito melhor, graças a você. — A mentira saiu fácil, mas as mãos dele tremeram um pouco enquanto falava. — Seus feromônios de cura são... notáveis. Eu nunca vivi nada parecido.
Um calor subiu pelo meu pescoço com o elogio, mas eu estava preocupada demais para ficar realmente sem graça. — A maioria das Ômegas tem alguma capacidade de cura, mas você claramente ainda está com dor. Você não devia ter se forçado assim.
— Valeu a pena.
O mingau era simples, mas surpreendentemente bom — quente e cremoso, com só um toque de mel. Olhei para cima e encontrei Lorenzo me observando com atenção, como se a minha reação importasse mais do que o conforto físico dele.
— Está bom — admiti. — Você cozinha com frequência?
— Não muito. Mas quando se mora sozinho, a gente aprende a se virar. — Ele recostou na cadeira e, imediatamente, fez uma careta e se endireitou de novo.
—Sobre isso —eu disse, pousando a colher. —Você precisa entrar em contato com alguém? Sua matilha deve estar preocupada.
A expressão de Lorenzo se fechou — de dor ou por causa da pergunta, não deu para saber. — Vou tentar ligar para um amigo mais tarde. Ver se ele consegue vir me buscar.
Peguei meu celular e deslizei por cima da mesa até ele. — Pode usar este, se quiser.
— Obrigado. —Ele pegou o aparelho; o movimento puxou seus ferimentos o bastante para fazê-lo soltar um silvo baixo entre os dentes. — Agradeço por você não insistir em detalhes sobre a noite passada.
— Todo mundo tem seus segredos. —Dei mais uma colherada no mingau e, então, acrescentei num tom mais suave: — E todo mundo merece o direito de guardá-los, pelo menos até estar pronto para contar.
Algo mudou na expressão dele — um lampejo que parecia culpa ou arrependimento.
Comemos em um silêncio confortável por alguns minutos, mas eu me peguei roubando olhares para Lorenzo quando achava que ele não estava vendo.
Havia algo no timbre da voz dele que ressoava fundo nos meus ossos, um zumbido esquecido que a minha própria loba parecia reconhecer. Era enlouquecedor.
— Posso te perguntar uma coisa? —falei por fim.
Lorenzo assentiu, embora eu tenha notado uma leve tensão em seus ombros.
— Tem certeza de que a gente nunca se encontrou antes? Eu sei que parece loucura, mas eu tenho essa sensação... —Balancei a cabeça, frustrada com a minha incapacidade de transformar aquilo em palavras. — Esquece. Você tem razão — provavelmente estou te confundindo com outra pessoa.
Lorenzo disse, em voz baixa: — Se a gente tivesse se encontrado, eu lembraria.
A certeza na voz dele deveria ter me tranquilizado, mas não tranquilizou. Se é que era possível, só tornou aquela estranha sensação de reconhecimento mais forte.
Estendi a mão para o meu copo d’água no mesmo instante em que Lorenzo se mexeu para tirar a tigela vazia. Nossas mãos se chocaram, e os dedos dele roçaram no meu pulso.
A reação foi instantânea e avassaladora. Parecia um raio subindo pelo meu braço, seguido por uma onda de calor que me fez prender a respiração.
O cheiro de Lorenzo se intensificou, me envolvendo como se fosse algo palpável, e por um instante o mundo se estreitou até virar apenas o ponto em que nossa pele se tocava.
Puxei a mão de volta tão rápido que derrubei o copo, e a água se derramou pela mesa em cascata.
— Me desculpa! —Levantei num pulo, com o rosto ardendo de vergonha, e corri para a cozinha. — Vou pegar papel-toalha...
Lorenzo também ficou de pé, movendo-se para ajudar apesar dos ferimentos. — Tá tudo bem, não precisa se preo—
Mas, quando me virei com o papel-toalha, quase trombei com ele. Lorenzo estava ali, perto o bastante para eu ver os pontinhos prateados nos olhos dele; perto o bastante para a presença dele parecer ocupar todo o ar do cômodo. Perto o bastante para eu ver como ele rangia os dentes contra a dor de se mover tão depressa.
Minha loba interior se remexeu, inquieta, respondendo a algo que eu não conseguia nomear. A respiração de Lorenzo se aprofundou, e o olhar dele desceu por um breve momento até meus lábios antes de voltar num estalo para os meus olhos.
— Eu devo limpar isso —sussurrei, mas não me mexi.
— Aria. —O jeito como ele disse meu nome me fez estremecer inteira. — Eu...
O feitiço se quebrou quando me obriguei a dar um passo para trás, colocando a distância necessária entre nós. — Papel-toalha. Isso. A mesa.
Me concentrei em limpar a água derramada, plenamente consciente de Lorenzo me observando com uma intensidade que fez minhas mãos tremerem de leve. Quando ergui o olhar, um músculo repuxou na mandíbula dele — se era por estar lutando uma batalha interna ou pela dor evidente de ficar em pé tempo demais, não deu para saber.
— Desculpa se eu te deixei desconfortável —ele murmurou.
— Não deixou. —As palavras saíram rápido demais. — Quer dizer, foi só um acidente. Essas coisas acontecem.
Lorenzo se sentou de novo devagar, apertando a borda da mesa com tanta força que os nós dos dedos ficaram sem cor. — Talvez eu deva tentar ligar para o meu amigo agora.
— Claro. —Entreguei meu celular a ele, tentando não notar como as mãos dele tremiam um pouco ao pegar. — Mas talvez você devesse descansar um pouco antes. Você claramente ainda está se recuperando.
Enquanto ele discava, não consegui deixar de perceber o jeito como ele se mantinha — controlado, contido, como se estivesse mantendo algo poderoso preso logo abaixo da superfície e, ao mesmo tempo, lutando para não perder a consciência. Quando a ligação caiu na caixa postal, frustração e exaustão passaram pelo rosto dele.
— Sem resposta? —perguntei.
— Vou tentar de novo mais tarde. —Ele pousou o telefone com um cuidado deliberado, e o pequeno movimento claramente lhe custou caro. — De qualquer forma, eu provavelmente devia ir embora logo. Já abusei da sua bondade tempo demais.
Eu disse depressa: — Você não precisa ter pressa. Quer dizer, você mal consegue ficar de pé sem sangrar. Você definitivamente não está pronto para sair.
Os olhos de Lorenzo vasculharam meu rosto, como se procurassem significados escondidos nas minhas palavras. — Você quer que eu fique?
