Capítulo 4 Seu amigo está chegando?

Ponto de vista da Aria

— Eu… — A palavra ficou presa na minha garganta, e senti o calor subir pelo meu pescoço de novo.

O que eu devia dizer? Que sim, alguma parte inexplicável de mim queria que ele ficasse?

Os lábios de Lorenzo se curvaram num sorriso suave. — Não fica nervosa com isso. Eu entendo. — Ele se ajeitou com cuidado na cadeira, fazendo uma careta quando o movimento repuxou seus ferimentos. — Logo, logo eu saio do seu caminho. Eu realmente não tenho como agradecer o suficiente por você ter me acolhido. Sério, eu te devo muito.

Minha loba interior choramingou com aquelas palavras, um som de aflição que eu mesma não consegui entender direito.

Observei enquanto ele agarrava a borda da mesa, os nós dos dedos brancos de esforço para se manter ereto, e senti aquele puxão estranho no peito outra vez.

A parte racional do meu cérebro sabia que eu deveria ficar aliviada por ele estar indo embora. Mas o friozinho no estômago quando ele olhava para mim, o jeito como a presença dele parecia preencher todos os espaços vazios do meu apartamentinho… nada disso era racional.

Consegui dizer, com a voz mais firme do que eu me sentia: — Qualquer pessoa teria feito o mesmo.

— Não — Lorenzo disse baixinho, os olhos presos aos meus. — Nem todo mundo arriscaria a própria segurança por um estranho sangrando. Você tem um bom coração, Aria.

Antes que eu pudesse responder ao calor na voz dele, ele já estava se forçando a ficar de pé, indo até as tigelas vazias com uma determinação teimosa.

— Deixa eu pelo menos limpar — ele disse, estendendo a mão para pegar a louça. — É o mínimo que eu posso fazer.

— Não! — Eu me levantei tão rápido que minha cadeira arranhou o chão. — Você mal consegue ficar em pé. Não devia ficar andando por aí.

— Eu estou bem — ele insistiu, embora o tremor nas mãos dele dissesse outra coisa.

Eu me coloquei para bloquear o caminho até a pia, as mãos pairando indecisas perto dos braços dele. — Lorenzo, por favor. Só senta.

Lorenzo começou: — Eu posso…

— Você mal consegue se manter de pé! — retruquei, minha frustração crescendo.

Ficamos ali por um momento, presos num impasse teimoso no espaço estreito entre a mesa e a bancada. O maxilar dele estava travado de determinação, mas eu via o cansaço marcando suas feições, o jeito como ele precisava se concentrar só para manter a respiração estável.

— Pelo menos deixa eu ajudar — eu disse, estendendo a mão para uma das tigelas.

Foi quando aconteceu. No aperto da minha cozinha minúscula, nossos movimentos se chocaram. Lorenzo deu um passo à frente no mesmo instante em que eu me movi para pegar a tigela das mãos dele.

Meu pé enroscou no dele, e nós dois perdemos o equilíbrio, tropeçando para trás em direção à sala.

O tempo pareceu desacelerar enquanto caíamos, os braços de Lorenzo se fechando instintivamente ao meu redor para amortecer minha queda.

Despencamos no sofá com um baque abafado, Lorenzo levando a pior do impacto ao cair de costas, comigo estatelada por cima dele.

Por um batimento, nenhum de nós se mexeu. Eu estava dolorosamente consciente de cada ponto em que nossos corpos se tocavam — minhas mãos apoiadas no peito dele, os braços dele ainda envolvendo minha cintura, o jeito como nossas pernas tinham se embolado.

O cheiro dele me envolveu como um cobertor quente, mais forte agora com a proximidade, e eu sentia a subida e descida rápida da respiração dele sob as minhas palmas.

Meus olhos se arregalaram enquanto eu encarava o rosto dele, provavelmente com a cara queimando de vergonha. Tão perto assim, eu conseguia ver cada detalhe — a linha marcada do maxilar, os cílios escuros emoldurando aqueles olhos absurdamente azuis, a pequena cicatriz perto da têmpora que eu não tinha notado antes.

A garganta de Lorenzo se moveu quando ele engoliu em seco, o olhar oscilando entre meus olhos e meus lábios. O ar entre nós parecia carregado, elétrico, como o instante antes de um raio cair.

Então o rosto dele se contorceu de dor, e um suspiro agudo escapou dos lábios quando o corpo ficou rígido sob o meu.

— Ai, Deus da Lua! — Eu me atrapalhei para sair de cima dele imediatamente, o coração disparando por motivos completamente diferentes agora. — Me desculpa! Eu te machuquei? Você está bem?

A mão de Lorenzo pressionou o lado do corpo, onde ficava o maior ferimento, a respiração curta e trabalhosa. Quando olhei mais de perto, vi sangue fresco atravessando o tecido da camisa.

— As ataduras devem ter saído do lugar — eu disse, minhas mãos já se estendendo na direção dele antes que eu me contivesse. — Posso…?

Ele assentiu, o rosto pálido, e eu o ajudei com cuidado a se sentar. Meus dedos tremeram um pouco quando ergui a barra da camisa dele, revelando as bandagens por baixo.

De fato, o enfaixamento cuidadoso tinha afrouxado, e a ferida tinha se aberto de novo.

— Isso é tudo culpa minha — sussurrei, a culpa me inundando enquanto eu examinava o estrago. — Eu devia ter sido mais cuidadosa. Você precisa de bandagens limpas.

— Não está tão ruim — Lorenzo tentou dizer, mas a voz saiu tensa.

— Não mente pra mim. — Eu já estava indo até meus suprimentos médicos. — Só fica parado.

Trabalhei rápido e com eficiência, limpando o sangue e refazendo o curativo com mãos firmes, apesar da culpa revolvendo no meu estômago.

Lorenzo me observou em silêncio, a respiração dele se regularizando aos poucos, enquanto meus feromônios de cura respondiam inconscientemente ao sofrimento dele.

— Pronto — eu disse baixo quando terminei, prendendo a última das ataduras. — Assim deve segurar melhor.

— Obrigado — ele murmurou, e havia algo na voz dele que me fez erguer os olhos. A expressão era indecifrável, mas intensa de um jeito que acelerou meu pulso.

De repente constrangida, dei um passo para trás e comecei a arrumar os materiais médicos. — Eu devia... Vou só lavar essa louça e te dar um espaço pra descansar.

Fugi para a cozinha, com as mãos trêmulas enquanto esfregava as tigelas com mais força do que precisava. A culpa estava me corroendo — não só por ter reaberto o ferimento dele, mas pela forma como meu corpo tinha reagido ao ficar colado ao dele, pela parte de mim que tinha querido continuar nos braços dele mesmo quando eu sabia que precisava me afastar.

Quando enfim voltei para a sala, Lorenzo estava recostado no sofá, os olhos fechados, mas a respiração sugeria que ele não estava de fato dormindo. Vi ele lançar um olhar para o lugar na mesa onde meu celular estava.

— Tentando ligar pro seu amigo de novo? — perguntei em voz baixa, pegando o aparelho e entregando a ele.

Ele abriu os olhos e assentiu, sentando com movimentos cuidadosos. Dessa vez, quando discou, eu ouvi uma voz atender do outro lado.

— Nathan? Graças a Deus. — O corpo inteiro de Lorenzo pareceu ceder de alívio. — Preciso que você venha me buscar. É, eu tô bem, mas preciso de carona. — Houve uma pausa enquanto ele ouvia. — Vou te mandar o endereço. Em quanto tempo você consegue chegar aqui?

Outra pausa, e então a expressão de Lorenzo ficou mais séria. Os olhos dele passaram por mim rapidamente. — Eu explico depois. Só chega aqui o mais rápido que der.

Ele encerrou a ligação e imediatamente começou a digitar uma mensagem.

— Seu amigo tá vindo? — perguntei, tentando ignorar a sensação oca que crescia no meu peito.

— Tá. — Lorenzo enviou a mensagem e deixou meu celular de lado. — O Nathan chega em uns vinte minutos. Logo eu saio do seu caminho, e você pode voltar pra sua vida normal.

— Certo — eu disse, forçando um sorriso. — Isso... isso é bom. Você vai ficar mais confortável com a sua própria alcateia.

Quando bateram à porta vinte minutos depois, meu estômago despencou, apesar de eu saber que isso ia acontecer.

— Deve ser o Nathan — Lorenzo disse, se mexendo para ficar de pé.

Abri a porta e encontrei uma figura alta e imponente ocupando todo o batente.

Nathan era... marcante. A pele dele tinha um bronzeado quente, de sol.

Olhos castanho-escuros me avaliaram com inteligência rápida antes de suavizarem numa expressão que quase chegava a ser um sorriso.

Os ombros eram largos e, apesar da força evidente no porte, havia algo gentil no jeito como ele se movimentava.

— Você deve ser a Aria — ele disse. — Eu sou o Nathan Brooks. — Ele estendeu a mão e, quando apertei, o aperto dele foi firme, mas respeitoso. — Não tenho como te agradecer o suficiente por cuidar desse idiota.

— Ei — Lorenzo protestou, fraco, atrás de mim, embora houvesse carinho na voz.

O olhar de Nathan passou por mim para avaliar o estado de Lorenzo, e eu vi a expressão dele se fechar de preocupação. — Você tá com uma cara horrível, cara.

— Tô me sentindo pior do que pareço — Lorenzo admitiu, aceitando o braço que Nathan ofereceu para apoiá-lo.

Quando se preparavam para ir embora, Lorenzo se virou para mim uma última vez. — Antes de eu ir... posso pegar seu número? Quero te retribuir por isso de algum jeito. Se você precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, eu quero que você possa me ligar.

Hesitei por um momento. — Como eu te passo?

Lorenzo olhou para Nathan, que tirou o celular do bolso. Então Lorenzo voltou a olhar para mim. — Vou salvar no celular do meu amigo por enquanto. Quando eu recuperar o meu, eu te ligo. — Digitei meu número com cuidado, criando um novo contato antes de devolver o aparelho a ele.

— Pronto — ele disse, a voz baixa enquanto olhava para a tela. — Obrigado. Vou falar com você pra te retribuir direito.

— Se cuida, Aria.

E então eles se foram, Nathan sustentando o peso de Lorenzo enquanto desciam a escada estreita. Fiquei parada na porta até ouvir o som de um motor ligando e indo embora.

O silêncio que veio depois pareceu ensurdecedor.

Fechei a porta e me encostei nela, meu apartamento de repente parecendo enorme e vazio, apesar de ter exatamente o mesmo tamanho que tinha naquela manhã.

Por razões que eu não sabia explicar, senti vontade de chorar.

O sofá ainda guardava a marca do corpo de Lorenzo, e o cheiro dele permanecia fraco no ar — aquela mistura quente de cedro com algo que era unicamente dele, que fazia minha loba ganir baixinho lá no fundo da minha mente.

Mas o vazio no meu peito sugeria que nada estava exatamente como deveria estar.

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