Capítulo 10 AGORA VOCE QUER ELA DE VOLTA?

Morte narrando

A noite que passei com Lívia foi simplesmente incrível.

PQP!

Que mulher era aquela?

Eu já conhecia a personalidade forte da garota havia anos. Sabia que ela era atrevida, inteligente, independente e que gostava de fazer as coisas do jeito dela. Mas uma coisa era conhecer a Mandraka que comandava os negócios com mão firme; outra, completamente diferente, era descobrir o quanto aquela mulher conseguia mexer comigo quando baixava a guarda.

O problema veio na manhã seguinte.

Depois de uma noite que eu dificilmente esqueceria, Lívia resolveu me dar um verdadeiro banho de água fria.

Não houve declarações, promessas ou sequer uma conversa que me permitisse entender o que estava passando pela cabeça dela. A garota simplesmente deixou claro que não pretendia transformar o que aconteceu em um relacionamento.

Eu fiquei olhando para ela, tentando compreender como alguém conseguia ser tão intensa em um momento e tão decidida a manter distância no seguinte.

Era impressionante.

E irritante.

Muito irritante!

Passei o resto da semana tentando agir normalmente. Conversava com ela sobre os negócios, acompanhava as reuniões e fazia minhas observações de sempre, mas, por dentro, a situação era outra.

A vontade de puxá-la para perto e beijá-la novamente não me dava trégua.

Bastava Lívia passar por mim com aquele sorriso debochado para que eu precisasse me lembrar de que havia prometido respeitar o espaço dela.

E eu pretendia cumprir minha palavra.

O que não significava que estivesse achando fácil.

Em alguns momentos, cheguei a pensar no que aconteceria se Nando descobrisse que eu e Lívia havíamos passado aquela noite juntos.

Meu filho provavelmente teria um ataque.

E, conhecendo o temperamento dele, eu não estava disposto a transformar uma situação já complicada em uma confusão familiar.

Mas havia outra coisa que me incomodava ainda mais.

Eu estava começando a pensar em Lívia muito além do que deveria.

Aquela mulher tinha entrado na minha cabeça sem pedir licença e, pelo visto, não pretendia sair tão cedo.

Na manhã da nossa volta, encontrei Lívia organizando as últimas coisas no apartamento.

Ela estava concentrada, conferindo o celular e verificando se não havia esquecido nenhum documento importante.

— Vamos? — perguntou, sem tirar os olhos da tela. — Já arrumei minhas coisas. As suas estão prontas?

— Estão. Está tudo no esquema.

Ela assentiu e voltou a conferir a bolsa.

Fiquei observando por alguns segundos antes de decidir que não aguentava mais fingir que nada havia acontecido.

— Lívia.

— Oi?

— Vai continuar agindo como se aquela noite não tivesse significado nada?

Ela parou o que estava fazendo.

Devagar, virou o rosto para mim.

— Eu não disse que não significou nada, Morte.

— Então qual é o problema?

Ela soltou um suspiro e apoiou o celular sobre a mesa.

— O problema é que eu sei como sou. Sei o que vivi, sei o que quero para a minha vida e não estou procurando um relacionamento.

— Eu entendi isso.

— Então por que estamos tendo essa conversa outra vez?

Passei a mão pela barba, tentando encontrar as palavras certas.

— Porque eu gostei de estar com você. Gostei mais do que esperava, para ser sincero.

Lívia permaneceu em silêncio.

Continuei:

— Não estou pedindo que você me prometa nada. Não estou exigindo compromisso. Só quero que saiba que, da minha parte, existe interesse em descobrir se isso pode ser alguma coisa além daquela noite.

Ela me encarou por alguns segundos.

— E se não puder?

— Então eu vou respeitar sua decisão.

A resposta saiu mais firme do que eu esperava.

Lívia desviou os olhos, pegando novamente a bolsa.

— Eu não quero te magoar.

Soltei uma risada curta, sem humor.

— Você acha que consegue decidir isso sozinha? Eu sou adulto, garota. Sei muito bem que existe risco quando a gente se aproxima de alguém.

Ela ficou imóvel por um instante.

Aproximei-me um pouco, mantendo uma distância confortável entre nós.

— Estou disposto a correr esse risco.

Lívia não respondeu.

Apenas me olhou com uma expressão que eu ainda não conseguia decifrar.

Depois, pegou as chaves e caminhou em direção à porta.

— Vamos, coroa. Temos estrada pela frente.

Fiquei parado por alguns segundos, acompanhando-a com os olhos.

Era inacreditável.

Aquela mulher conseguia acabar com minha paciência sem sequer levantar a voz.

Balancei a cabeça e peguei minha bolsa.

— Desgraça de mulher... — murmurei, seguindo-a.

E o pior era que eu estava sorrindo.

A viagem de volta foi tranquila.

Lívia dirigia enquanto eu observava a paisagem pela janela, tentando organizar meus pensamentos. Em alguns momentos, conversávamos sobre os negócios em São Paulo; em outros, ficávamos em silêncio, cada um perdido nas próprias preocupações.

Eu não pretendia insistir na conversa que tivemos antes de sair.

Já havia dito o que precisava dizer.

Agora, cabia a mim respeitar o tempo dela e descobrir se conseguiria lidar com os sentimentos que estavam surgindo.

Antes de voltarmos ao morro, porém, fizemos uma parada na casa de Sonja.

Eu queria ver Júlia.

Desde que descobri que era avô daquela menina, tinha me tornado completamente encantado por ela. Ainda estava aprendendo a encontrar meu lugar naquela história, mas cada oportunidade de estar perto da pequena parecia compensar um pouco o tempo que havia perdido.

Assim que entramos, ouvi uma vozinha animada vindo do corredor.

— Vovó!

Logo depois, Júlia apareceu correndo.

Quando me viu, abriu um sorriso enorme e veio diretamente na minha direção.

— Vovô!

Abaixei-me para recebê-la no colo.

— Olha quem está aqui! Minha princesa!

Ela me abraçou pelo pescoço e distribuiu beijinhos no meu rosto.

Eu ri, apertando-a com carinho.

— Assim você vai deixar o vovô todo babado!

Júlia soltou uma gargalhada e segurou meu rosto com as mãozinhas.

Então, de repente, falou uma palavra que me fez esquecer completamente o que estava acontecendo ao redor.

— Papai!

Fiquei imóvel.

Por um segundo, achei que tivesse ouvido errado.

Olhei para a menina, que continuava sorrindo, e depois ergui os olhos na direção de Lívia.

Ela também estava surpresa.

Sonja, que acompanhava a cena da porta, levou a mão à boca, tentando disfarçar a emoção.

Meu coração deu um salto.

Eu sabia que Júlia era pequena, que estava aprendendo a organizar as palavras e que poderia simplesmente ter confundido os nomes. Crianças daquela idade às vezes misturam as coisas, principalmente quando estão animadas.

Ainda assim, ouvir aquela palavra saindo de sua boca mexeu comigo de uma maneira que eu não esperava.

— O que você disse, meu amor? — perguntei baixinho.

Ela encostou a cabeça no meu ombro e repetiu:

— Papai.

Senti um nó na garganta.

Olhei novamente para Lívia.

Ela continuava parada, com uma expressão difícil de descrever. Havia surpresa em seus olhos, mas também uma preocupação que tentei não interpretar além do necessário.

Eu não queria transformar aquele momento em uma situação desconfortável.

Por isso, apenas sorri para a pequena e beijei sua testa.

— O vovô está aqui, minha princesa.

Júlia voltou a brincar com meu rosto, aparentemente satisfeita, e eu decidi aproveitar aquele instante sem fazer perguntas.

Mas minha cabeça já estava trabalhando.

A palavra dela tinha despertado uma mistura de sentimentos que eu ainda não sabia explicar.

Talvez fosse apenas uma confusão infantil.

Talvez ela tivesse ouvido alguém usar aquela palavra e resolvido repeti-la.

Ou talvez estivesse tentando expressar algum carinho que ainda não sabia colocar em palavras.

Não importava.

Naquele momento, eu só queria estar com ela.

Sentei-me no sofá, mantendo Júlia no colo, enquanto ela me mostrava um brinquedo novo e contava uma história sobre a escola. Eu fazia perguntas, ria das respostas e tentava acompanhar seu raciocínio, que mudava de assunto a cada poucos segundos.

Lívia acabou se juntando a nós.

Por algum tempo, ficamos os três conversando, enquanto Sonja preparava alguma coisa na cozinha.

Foi um daqueles momentos simples que acabam ficando guardados na memória.

Eu não sabia o que o futuro reservava, mas tinha certeza de que queria continuar fazendo parte da vida daquela menina.

Quando chegou a hora de irmos embora, dei mais um abraço em Júlia e prometi que voltaria para vê-la.

— Não demora, vovô! — ela pediu.

Sorri.

— Vou tentar, minha princesa.

Lívia me acompanhou até a porta.

— Obrigada por respeitar o meu tempo — disse baixinho.

Olhei para ela.

— Eu disse que respeitaria.

Ela assentiu, parecendo aliviada.

Não insisti em conversar sobre o que Júlia havia dito. Sabia que aquele assunto poderia mexer com sentimentos delicados, e não queria transformar uma visita feliz em motivo para preocupação.

Despedi-me de Sonja e segui com Lívia de volta ao morro.

Mas a palavra continuou ecoando na minha cabeça durante todo o caminho.

Papai.

Eu precisava parar de pensar demais.

Era só uma palavra.

Uma palavra dita por uma criança de três anos.

Ainda assim, não conseguia esquecer a expressão de Lívia quando a ouviu.

Quando chegamos ao morro, já havia música tocando na praça.

O ambiente estava animado, e algumas pessoas conversavam enquanto outras se preparavam para aproveitar o pagode daquela noite.

Fui para casa, tomei um banho e troquei de roupa. Depois, resolvi passar pela praça para cumprimentar alguns conhecidos.

Não demorou muito para que meus olhos encontrassem Lívia.

Ela acabava de chegar, com aquela postura confiante que fazia qualquer pessoa reconhecer Mandraka antes mesmo de ouvir seu nome.

A garota parecia ter deixado o cansaço da viagem para trás.

Cumprimentou algumas pessoas, trocou palavras com os responsáveis pelos negócios e logo se juntou a um grupo de conhecidos.

Eu estava prestes a me aproximar quando Nando apareceu ao meu lado.

Pelo jeito, o rapaz estava guardando algumas perguntas havia tempo demais.

— Cola aqui, pai. Preciso entender uma coisa.

Olhei para ele.

— O que foi agora?

Ele cruzou os braços e apontou discretamente na direção de Lívia.

— Não entendi essa história de você viajar com ela para São Paulo. O que está acontecendo?

Segurei a vontade de rir.

— E desde quando preciso prestar contas da minha vida para você?

Nando franziu a testa.

— Não é isso, coroa. Só achei estranho.

— O morro de São Paulo também é meu. Eu precisava resolver algumas coisas por lá, e Lívia já estava indo. Aproveitei a viagem. Qual é o problema?

Ele desviou os olhos por um instante.

— Nenhum.

Fiquei observando meu filho.

Conhecia aquele moleque desde que nasceu. Sabia quando estava escondendo alguma coisa e, naquele momento, ele parecia estar lutando contra a própria curiosidade.

— Então por que está me interrogando?

Nando passou a mão pela nuca.

— Não estou interrogando, pai.

— Está, sim. Só falta colocar uma mesa entre nós dois e começar a fazer perguntas em sequência.

Ele soltou uma risada sem graça.

Depois, finalmente perguntou:

— Você sabe se ela ficou com alguém lá?

Olhei para ele, surpreso com a pergunta.

— Por que quer saber disso?

Nando demorou a responder.

Acompanhei seu olhar até Lívia, que conversava com algumas pessoas perto da praça.

Foi então que ele falou, baixinho:

— Porque eu quero ela de volta.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

Olhei para meu filho, depois para Lívia e novamente para ele.

Meu Deus.

Finalmente o rapaz estava começando a admitir o que eu já percebia havia algum tempo.

Mas uma coisa era sentir saudade de uma mulher depois de perdê-la. Outra, muito diferente, era estar preparado para oferecer a ela o relacionamento que nunca teve coragem de assumir.

Apoiei a mão no ombro dele.

— Você quer mesmo a Lívia de volta ou só não suporta a ideia de que ela possa seguir em frente sem você?

Nando abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu imediatamente.

E aquele silêncio me disse muito mais do que qualquer explicação.

Porque, antes de tentar reconquistar Mandraka, meu filho precisava descobrir se estava disposto a mudar.

Lívia não era uma mulher que se contentaria com palavras bonitas ou promessas feitas no calor do ciúme.

Ela já havia aprendido a viver sem ele.

E, pelo que eu conhecia daquela garota, não seria fácil convencê-la a abrir novamente a porta que fechou.

Muito menos se Nando continuasse acreditando que querer alguma coisa era o mesmo que ter direito a ela.

Olhei para meu filho e suspirei.

Aquela história ainda daria muito trabalho.

E eu tinha a impressão de que os maiores conflitos estavam apenas começando.

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