Capítulo 2 O PREÇO DAS ESCOLHAS
Nando narrando
Existem erros que a gente comete achando que vai conseguir consertar depois. O problema é que nem sempre a vida oferece uma segunda oportunidade.
E, se tem uma coisa que aprendi nos últimos anos, é que perder uma mulher como Lívia pode ser muito mais fácil do que tentar reconquistá-la.
Eu estava no escritório quando ela apareceu, carregando duas malas e aquela expressão de quem tinha acabado de resolver um problema que ninguém mais conseguiria solucionar.
Mandraka era assim. Chegava, fazia o que precisava ser feito e desaparecia antes que alguém tivesse tempo de fazer muitas perguntas.
— Como foi lá? Tudo tranquilo? Você se machucou? — perguntei, levantando da cadeira.
Ela colocou as malas sobre a mesa e me lançou um olhar indiferente.
— Estou inteira, Nando. Aqui está o seu dinheiro.
Olhei para as malas e depois para ela.
— Quanto rendeu?
— Um milhão e meio de dólares.
Arregalei os olhos.
— Tudo isso? Caramba, você trabalhou bem demais!
Lívia cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.
— Eu sei fazer o meu trabalho. Não precisa ficar tão surpreso.
— Não estou surpreso com a sua capacidade, Mandraka. Só não esperava um resultado tão alto.
— Pois agora já sabe.
Ela ajeitou a bolsa no ombro e caminhou em direção à porta.
— Era só isso. Estou indo.
— Ei, Lívia...
Ela parou, mas não se virou completamente.
— O que foi?
Por alguns segundos, procurei uma desculpa para prolongar aquela conversa. Queria perguntar como tinham sido aquelas duas semanas, se havia sentido minha falta ou se ainda existia alguma possibilidade de conversarmos sobre o passado.
Mas bastou encontrar seus olhos para perceber que não seria uma boa ideia.
— Nada. Só queria dizer que fez um excelente trabalho.
— Eu sei, Nando.
E saiu.
Simples assim.
Fiquei olhando para a porta fechada, sentindo aquela mistura de irritação e admiração que só aquela mulher conseguia despertar em mim.
Lívia tinha um talento impressionante para entrar e sair de situações complicadas sem chamar atenção. Era inteligente, observadora e sabia manter a calma quando qualquer outra pessoa já teria perdido o controle.
Não era à toa que todos a respeitavam.
O problema era que, quando se tratava de nós dois, ela parecia ter construído uma muralha impossível de atravessar.
E a culpa era minha.
Fui um verdadeiro idiota no passado.
Passei dois anos ao lado dela, vivendo uma relação que, para mim, parecia suficiente. Não tínhamos cobranças, compromissos assumidos ou grandes promessas. Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo.
Só que, enquanto eu aproveitava aquela liberdade, não percebia o quanto Lívia estava se tornando importante.
Ela era jovem quando começamos a nos aproximar. Nosso relacionamento amoroso começou quando ela já havia completado dezoito anos, mas nossa amizade vinha de muito antes.
Crescemos praticamente juntos.
Naquela época, eu ainda trabalhava sob as ordens do meu pai, aprendendo a lidar com as responsabilidades que um dia seriam minhas.
Meu velho sempre teve um carinho enorme por Lívia.
Na verdade, às vezes acho que gostava mais dela do que de mim.
Ele enxergou o potencial daquela garota antes de qualquer outra pessoa. Incentivou seus estudos, ensinou a importância de observar antes de agir e fez questão de prepará-la para enfrentar as dificuldades daquele ambiente.
O resultado estava diante dos meus olhos.
Enquanto muita gente dependia de gritos para ser respeitada, Mandraka conseguia impor sua presença com poucas palavras.
Ela não precisava provar nada a ninguém.
E isso me deixava ainda mais arrependido.
Troquei uma mulher que esteve ao meu lado durante anos por uma aventura que não durou três meses.
Na época, achei que estava fazendo uma escolha sem grandes consequências.
Hoje, sei que perdi muito mais do que um relacionamento.
Perdi a confiança dela.
— Aposto que estava pensando em mim!
A voz do meu pai me arrancou dos pensamentos.
Virei a cabeça e encontrei o velho parado na porta, com aquele sorriso debochado de sempre.
— Sai dessa, coroa!
— Coroa é o seu avô, moleque! Me respeita, que ainda tenho disposição para te dar uma surra!
Soltei uma risada.
— Está bom, pai. O que o senhor quer?
Ele entrou no escritório, olhando ao redor.
— Cadê a Lívia? Soube que ela já voltou. Conseguiu resolver o serviço?
Apontei para as malas sobre a mesa.
— Está tudo aí.
Meu pai se aproximou, abriu uma delas e ficou alguns segundos observando o conteúdo.
— Rapaz... Essa menina é impressionante!
— Nem começa.
— Não começa o quê? Estou falando alguma mentira?
Balancei a cabeça.
— O senhor não perde uma oportunidade de elogiar a Mandraka.
— E tenho motivo! Onde você encontraria outra pessoa capaz de assumir uma responsabilidade dessas e voltar com um resultado tão bom?
— Eu também sei trabalhar, pai.
— Sabe. Só não sabe escolher mulher.
Fechei os olhos por um instante.
Lá vinha ele.
— Vamos mudar de assunto?
— Não, senhor. Você tinha uma mulher inteligente, bonita, leal e que conhecia esse lugar como a palma da mão. Os dois poderiam ter construído muita coisa juntos.
— Pai...
— Mas resolveu jogar tudo fora por uma aventura. Agora fica aí, olhando para a porta toda vez que ela vai embora.
— Já passou, coroa.
Ele soltou uma gargalhada.
— Passou para ela, meu filho. Para você, pelo visto, ainda não.
Não respondi.
O pior era saber que ele tinha razão.
— Lívia não é mulher de ficar esperando alguém decidir se quer ou não ficar com ela — continuou. — E você deveria ter aprendido isso antes.
— Eu sei.
Meu pai me observou por alguns segundos, percebendo que aquela conversa já tinha me atingido o suficiente.
— Então pare de reclamar e aprenda com os próprios erros.
Ele fechou a mala e deu dois tapinhas no meu ombro.
— Vou dar uma volta. E trate de cuidar direito das coisas.
— Pode deixar, velho.
— Olha o respeito!
Ri enquanto ele saía.
Depois de conferir o dinheiro e guardá-lo no cofre, resolvi fazer uma ronda pelo morro.
Precisava espairecer.
O dia estava quente, e o movimento nas ruas seguia como de costume. Algumas pessoas conversavam nas portas de casa, comerciantes atendiam seus clientes e crianças aproveitavam a tarde para brincar.
Foi quando avistei Lívia na quadra.
A mulher que, poucas horas antes, havia aparecido no meu escritório com uma fortuna nas mãos agora estava correndo atrás de uma bola, cercada por um grupo de crianças.
Parei por alguns segundos, observando a cena.
Ela ria de alguma coisa que um menino tinha dito e, logo depois, fingiu estar indignada quando uma garotinha conseguiu tomar a bola dos seus pés.
— Assim não vale, pequena! Você está roubando no jogo! — reclamou, levando a mão à cintura.
A menina caiu na gargalhada.
— Você que é ruim, Mandraka!
— Ruim? Eu? Repete isso para você ver!
As crianças começaram a rir ainda mais.
Balancei a cabeça, sorrindo sem perceber.
Era impressionante como Lívia conseguia ser duas pessoas completamente diferentes.
Nos negócios, era fria, calculista e dificilmente demonstrava qualquer emoção.
Com as crianças, parecia esquecer por alguns instantes o peso das responsabilidades.
A molecada adorava aquela mulher.
E ela adorava aquelas crianças, embora tentasse disfarçar.
Caminhei até o barzinho próximo à quadra e pedi uma água gelada.
— E aí, Nando? Tudo tranquilo? — perguntou o proprietário.
— Tudo na paz. Como está o movimento?
— Graças a Deus, está bom. A Mandraka chegou e já foi brincar com a criançada. Nem parece que passou duas semanas fora.
Olhei novamente para a quadra.
— Ela gosta daqui.
— E o pessoal gosta dela. Essa menina tem um coração maior do que deixa transparecer.
Concordei em silêncio.
Conhecia aquele lado de Lívia melhor do que muita gente.
Talvez fosse justamente por isso que doesse tanto perceber que eu já não fazia parte dele.
Continuei observando a partida até notar uma mudança repentina em seu comportamento.
Lívia parou de correr.
A bola passou ao lado dela, mas nem tentou alcançá-la.
Seu sorriso desapareceu.
Ela ergueu o rosto, olhando na direção de uma das entradas do morro.
Alguma coisa tinha chamado sua atenção.
Não ouvi nada diferente.
Também não vi qualquer movimentação que justificasse aquela reação.
Mesmo assim, conhecia Lívia o suficiente para saber que ela não mudava de expressão sem motivo.
Ela chamou as crianças imediatamente.
— Pessoal, acabou a brincadeira! Todo mundo para casa, agora!
Um dos meninos reclamou:
— Ah, Mandraka! Só mais um gol!
— Hoje não, campeão. Quero todo mundo em casa, combinado?
A firmeza em sua voz fez as crianças perceberem que não era uma brincadeira.
Elas começaram a sair da quadra.
Lívia acompanhou o grupo com os olhos, certificando-se de que ninguém ficaria para trás.
Larguei a garrafa sobre o balcão e fui até ela.
— O que aconteceu?
Ela retirou o rádio da cintura.
— Atenção, pessoal. Temos uma situação de risco. Avisem os moradores e mantenham as crianças longe das ruas.
Franzi a testa.
— Que situação, Lívia?
Ela me encarou.
— Vão tentar entrar no morro.
Olhei ao redor, desconfiado.
— Como você sabe? Ninguém avisou nada.
— Nando, não temos tempo para discutir.
— Mas os fogueteiros nem deram sinal de...
Não consegui terminar a frase.
O primeiro estampido de fogos ecoou pelo céu.
Logo depois, outros vieram em sequência.
Meu corpo inteiro ficou em alerta.
Virei o rosto na direção do barulho e, quando olhei novamente para Lívia, encontrei aquele sorriso debochado que eu conhecia tão bem.
— Está vendo? — perguntou ela.
Passei a mão pelo rosto.
— Como você conseguiu perceber antes de todo mundo?
Ela deu de ombros.
— Meu instinto está cada dia mais apurado.
— Você é impossível, sabia?
— Sei. Agora coloca sua máscara e toma cuidado, porque, se acabar preso, não conte comigo para fazer visita na cadeia.
Olhei para ela, incrédulo.
— Você consegue fazer piada até numa hora dessas?
— Alguém precisa manter a calma, não é?
— Abusada.
— E você continua falando demais.
Ela se afastou, voltando sua atenção para os moradores que ainda estavam na rua.
Observei enquanto orientava uma senhora a entrar em casa e pedia a um rapaz que ajudasse a fechar o portão da quadra.
Naquele instante, percebi uma coisa que talvez devesse ter entendido muito antes.
Lívia não era respeitada apenas por sua coragem ou pela fama que carregava.
Era respeitada porque, mesmo cercada por perigos, não esquecia das pessoas que dependiam dela.
Enquanto eu ainda tentava compreender o que estava acontecendo, ela já havia pensado nas crianças, nos comerciantes e nas famílias que precisavam se proteger.
O rádio voltou a chamar.
A situação parecia estar ficando mais séria.
Olhei para o alto, onde a fumaça dos fogos começava a se espalhar, e senti um aperto no peito.
Eu conhecia aquele lugar desde criança. Sabia que, quando o perigo se aproximava, qualquer decisão precipitada poderia trazer consequências terríveis.
E não queria que ninguém se machucasse.
Muito menos ela.
— Lívia! — chamei.
Mandraka parou alguns passos adiante e olhou por cima do ombro.
— O que foi agora, Nando?
Hesitei.
Queria dizer que tomasse cuidado.
Queria pedir que não se arriscasse desnecessariamente.
Queria, por um segundo, voltar ao tempo em que podia abraçá-la sem precisar encontrar uma desculpa.
Mas não disse nada disso.
— Fica esperta.
Ela sustentou meu olhar por alguns segundos.
— Sempre fico.
Então virou as costas e continuou andando.
Fiquei observando até perdê-la de vista entre as pessoas que corriam para suas casas.
Meu pai tinha razão.
Eu havia sido um idiota.
E, naquele momento, enquanto o morro inteiro entrava em alerta, percebi que existia uma coisa que o dinheiro, o poder e o orgulho jamais conseguiriam me devolver facilmente.
A confiança de Lívia.
O que eu ainda não sabia era que aquela tarde seria apenas o começo de uma sequência de acontecimentos capazes de colocar à prova tudo o que pensávamos conhecer sobre aquele lugar.
Inclusive os segredos que algumas pessoas haviam passado anos tentando esconder.
