Capítulo 3 O SEGREDO DA MINHA PRINCESA

Lívia narrando

O confronto terminou como eu esperava: com a situação controlada e todo mundo de volta aos seus postos. A adrenalina ainda corria pelas minhas veias, fazendo meu coração bater acelerado, enquanto minha mente começava a desacelerar depois de toda aquela tensão.

Eu gostava daquela sensação de ter conseguido superar mais um desafio, mas sabia que não podia me deixar levar pela empolgação. Na minha posição, qualquer descuido poderia custar caro.

Depois de conferir se tudo estava organizado e garantir que os moradores estavam seguros, finalmente consegui respirar com um pouco mais de tranquilidade.

Precisava de um banho, roupas confortáveis e, acima de tudo, de um lugar onde ninguém me chamasse de Mandraka a cada cinco minutos.

Naquela tarde, eu queria ser apenas Lívia.

Peguei minha moto, coloquei o capacete e deixei o morro para trás. O vento batendo contra meu corpo ajudava a aliviar a tensão acumulada durante o dia. Enquanto ganhava a estrada, meus pensamentos já estavam longe dali.

Estava com saudade das minhas meninas.

Sim, meninas. Porque, embora eu não fosse a pessoa mais carinhosa do mundo quando estava trabalhando, existiam duas pessoas capazes de transformar completamente o meu humor: minha avó e minha pequena Júlia.

Minha avó era meu porto seguro. Foi ela quem me acolheu nos momentos difíceis, quem me ensinou que a vida nem sempre seria justa e quem, mesmo sem concordar com todas as minhas escolhas, nunca deixou de me oferecer amor.

Júlia, por sua vez, era a minha razão para continuar seguindo em frente.

Minha filha.

Minha princesa.

Meu maior segredo.

Quando cheguei à casa da minha avó, o cheirinho de bolo recém-assado já me recebeu antes mesmo de eu tocar a campainha. Sorri automaticamente. Aquela mulher tinha o dom de transformar qualquer casa em um lar, e eu poderia reconhecer o cheiro das suas receitas de olhos fechados.

Bati à porta e esperei alguns segundos.

— Minha querida!

Minha avó apareceu com um sorriso enorme e me abraçou apertado.

— Vovó! Que saudade!

— Como você está, minha menina? Está tudo bem? Você sumiu por duas semanas!

— Estou bem, sim. Só estava resolvendo algumas coisas.

Ela se afastou um pouquinho para me observar.

— Está se alimentando direito? Dormindo? Ou continua querendo resolver o mundo inteiro sozinha?

Soltei uma risada.

— A senhora não muda nunca, né?

— E você continua respondendo às perguntas com outras perguntas.

Dei um beijo em sua testa e olhei ao redor.

— Cadê a minha princesa?

Como se tivesse entendido que estávamos falando dela, uma vozinha doce surgiu do corredor.

— Mamãe!

Meu coração se derreteu na mesma hora.

Júlia veio correndo em minha direção, com os bracinhos abertos e um sorriso que iluminava a casa inteira. Abaixei-me depressa e a recebi no colo, enchendo seu rostinho de beijinhos.

— Minha bonequinha! Como você está linda!

Ela segurou meu rosto com as mãozinhas e me examinou com a maior seriedade do mundo.

— Você demorou, mamãe.

Aquelas três palavras foram suficientes para apertar meu coração.

— Eu sei, meu amor. A mamãe precisou trabalhar, mas agora está aqui.

— Eu senti saudade!

— E eu senti muito mais!

Apertei minha filha contra o peito e fechei os olhos por um instante, aproveitando aquele abraço que fazia qualquer problema parecer menor.

Júlia era pequena, mas já tinha uma personalidade encantadora. Era curiosa, esperta e gostava de saber o motivo de tudo. Quando não conseguia uma resposta, fazia aquela carinha emburrada que herdara de alguém.

Preferia não pensar muito sobre isso.

— A vovó me arrumou porque você ia vir ver a gente! — ela contou, orgulhosa, mostrando o vestidinho que estava usando.

Olhei para minha avó, que sorria ao nosso lado.

— Foi mesmo? Então quer dizer que temos uma princesa toda produzida esperando pela mamãe?

Júlia assentiu rapidamente.

— Eu escolhi o vestido!

— Escolheu muito bem, meu amor.

Beijei sua bochecha e voltei a abraçá-la.

Era por momentos como aquele que eu suportava tantas coisas.

Porque existia uma parte da minha vida que ninguém conhecia de verdade. Uma parte que eu protegia com todas as minhas forças, não por vergonha, mas porque havia aprendido que nem todo mundo precisava ter acesso àquilo que era mais precioso para mim.

Júlia era minha filha, e isso bastava.

O que quase ninguém sabia era que o pai dela era Nando.

Sim, o mesmo Nando que comandava o morro, o homem com quem vivi um relacionamento durante dois anos e que, até hoje, não fazia ideia de que tinha uma filha.

E não, ele não descobriria isso tão cedo.

Talvez algumas pessoas me julgassem por essa decisão. Talvez dissessem que ele tinha o direito de saber. Eu mesma já havia pensado nisso inúmeras vezes, principalmente durante as noites em que ficava longe da minha menina por causa do trabalho.

Mas a história entre nós dois era muito mais complicada do que parecia.

Lembro perfeitamente de uma conversa que tivemos quando ainda estávamos juntos. Nando havia deixado claro que não queria ter filhos. Disse que, se um dia mudasse de ideia, seria quando estivesse pronto para construir uma família com a mulher que assumisse como sua fiel.

Naquela época, nós continuávamos vivendo nosso romance sem compromisso oficial. Eu gostava dele, mas sabia que não podia exigir algo que ele nunca havia prometido.

Então descobri que estava grávida.

No começo, fiquei assustada. Eu era muito magra, e minha barriga demorou a ficar evidente. Durante algum tempo, consegui manter a gestação discreta, enquanto tentava organizar minha vida e entender como seria o futuro com uma criança dependendo de mim.

Quando finalmente decidi que precisava contar a Nando, descobri que ele estava se envolvendo com outra mulher.

Foi como se o chão desaparecesse debaixo dos meus pés.

Eu já tinha minhas dúvidas sobre o lugar que ocupava na vida dele, mas aquela situação deixou tudo ainda mais claro. Não queria implorar atenção, disputar espaço ou colocar minha gravidez no meio de uma relação que já estava desmoronando.

Continuei seguindo em frente.

Minha pequena nasceu durante a madrugada, em um dia de baile. Foi uma noite difícil, cheia de medo e incertezas. Precisei reunir forças e encontrar uma maneira de chegar ao hospital, porque, naquele momento, não podia contar com ninguém da forma que precisava.

Em determinado instante, tentei ligar para Nando.

Mas quem atendeu foi a mulher com quem ele estava se envolvendo, e ouvi o suficiente para entender que aquela ligação não terminaria como eu esperava.

Desliguei sem dizer nada.

Naquela madrugada, enquanto esperava minha filha nascer, fiz uma promessa a mim mesma: nunca mais colocaria minha felicidade e a segurança da minha criança nas mãos de um homem que não havia escolhido caminhar ao meu lado.

Não foi uma decisão tomada por vingança. Pelo menos, não era assim que eu enxergava.

Eu só precisava proteger minha filha e construir uma vida em que ela nunca se sentisse desamparada.

Minha avó me ajudou em tudo. Com ela, Júlia tinha segurança, carinho e uma rotina tranquila. E, mesmo com minha vida complicada, nunca deixei faltar nada às duas.

Minha princesa tinha roupas bonitas, brinquedos, uma alimentação adequada e tudo o que precisava para crescer feliz. Eu trabalhava para que ela tivesse oportunidades que eu mesma não tive quando era criança.

Não podia estar presente em todos os momentos, mas fazia questão de compensar minha ausência com amor e cuidado.

E minha avó nunca me deixou esquecer que dinheiro algum substituía um abraço.

— Está pensando em quê, minha menina? — ela perguntou, trazendo-me de volta ao presente.

Olhei para Júlia, que agora tentava me convencer a brincar com uma boneca.

— Em como vocês são importantes para mim.

Minha avó acariciou meu rosto.

— Então nunca se esqueça de cuidar de você também.

Sorri, embora soubesse que ela estava preocupada.

— Eu estou bem, vovó.

— Você sempre diz isso.

— Porque é verdade.

Ela não insistiu. Conhecia meu jeito e sabia que, quando eu não queria conversar sobre determinado assunto, dificilmente alguém conseguiria me fazer mudar de ideia.

Passei a tarde com as duas. Comemos bolo, conversamos, brincamos e ouvi Júlia contar todas as novidades da escola, inclusive uma história enorme sobre uma coleguinha que havia escondido um lápis de cor.

Para minha filha, aquele parecia ser o maior acontecimento do mês.

E eu ouvi cada palavra como se fosse a notícia mais importante do mundo.

Mais tarde, precisei acompanhá-la até a escola para uma reunião. Fui recebida pela professora, que falou sobre seu desenvolvimento, sua curiosidade e a facilidade que tinha para aprender coisas novas.

Saí de lá com o coração cheio de orgulho.

Júlia estava crescendo, e eu queria participar de cada etapa da vida dela.

Era estranho pensar que, no morro, as pessoas me conheciam como uma mulher difícil, alguém que raramente demonstrava fragilidade. Fora dali, porém, eu podia caminhar tranquilamente, conversar com outras mães e me preocupar com tarefas tão comuns quanto comprar material escolar.

Eu gostava daquela vida dupla.

Não porque desejasse esconder quem eu era, mas porque precisava preservar um espaço onde pudesse existir sem carregar o peso de todas as minhas responsabilidades.

Quando o fim da tarde chegou, abracei minha filha demoradamente.

— A mamãe precisa ir, meu amor.

Ela fez um biquinho.

— Você volta amanhã?

Meu coração apertou.

— Vou tentar, princesa. E vou ligar para você antes de dormir, combinado?

— Combinado!

Ela me deu um beijo e correu para mostrar à avó um desenho que havia feito.

Fiquei observando as duas por alguns segundos antes de sair.

Minha avó se aproximou e segurou minha mão.

— Tenha cuidado, Lívia.

— Sempre tenho.

— E pense bem nas escolhas que faz. Às vezes, a gente guarda um segredo para proteger alguém, mas precisa ter certeza de que esse segredo não vai acabar machucando quem mais amamos.

Sustentei o olhar dela.

Minha avó não precisava dizer o nome de Nando para que eu entendesse o que estava insinuando.

— Eu sei o que estou fazendo.

Ela suspirou, mas não discutiu.

Despedi-me das duas, coloquei o capacete e subi na moto.

O caminho de volta pareceu mais curto do que na ida. Talvez porque minha cabeça já estivesse voltando para os problemas que me esperavam no morro.

Quando cheguei, encontrei Nando parado na entrada da boca, com os braços cruzados e uma expressão fechada.

Pelo visto, alguém estava incomodado com a minha ausência.

Desci da moto, retirei o capacete e o encarei sem pressa.

— Qual é o problema?

Ele deu alguns passos na minha direção.

— Onde você estava? Sumiu o dia inteiro!

Olhei para ele, esperando que continuasse.

— Aconteceu alguma coisa no morro? — perguntei.

— Não.

— Então não tenho motivo para explicar onde passei o meu dia.

A expressão dele ficou ainda mais fechada.

— Não se cria, Lívia.

Meu sorriso desapareceu.

Dei um passo à frente e sustentei seu olhar.

— Para você, é Mandraka.

O silêncio que veio depois deixou claro que aquela conversa estava longe de terminar.

E, se Nando achava que ainda tinha algum direito de controlar meus passos, estava prestes a descobrir que a mulher que conheceu anos atrás já não existia da mesma maneira.

Eu tinha construído minha própria vida.

E havia um segredo que jamais permitiria que ele colocasse em risco.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo