Capítulo 4 Ela ainda vai me enlouquecer
Nando narrando
Lívia era uma verdadeira mestre em me dar uma resposta atravessada e sair andando como se nada tivesse acontecido.
Aquela mulher tinha um talento impressionante para me tirar do sério. Bastava abrir a boca para eu sentir vontade de discutir, e o pior era que, na maioria das vezes, ela conseguia me deixar sem argumentos.
Eu conhecia Mandraka havia anos. Sabia quando estava irritada, quando estava escondendo alguma coisa e até quando fingia não se importar com determinada situação.
O problema era que, ultimamente, eu já não conseguia decifrá-la tão facilmente.
Ela vivia ocupada, desaparecia por horas e, quando voltava, agia como se não devesse satisfação a ninguém. Eu sabia que tinha suas responsabilidades, mas não conseguia deixar de pensar que talvez existisse outra pessoa naquela história.
Vai saber.
Talvez estivesse de caso com alguém.
Só de imaginar outro homem recebendo os sorrisos que um dia foram meus, sentia um incômodo que não tinha o menor direito de sentir.
Afinal, quem havia escolhido seguir outro caminho fui eu.
Durante nosso relacionamento, eu queria curtir a vida sem cobranças. Gostava da liberdade, da ausência de compromissos e da sensação de que poderia fazer o que quisesse sem precisar dar explicações.
Lívia nunca foi de implorar por atenção. Quando percebeu que eu não pretendia assumir uma relação com ela, continuou vivendo a própria vida.
Na época, achei que aquilo significava que estávamos de acordo.
Hoje, percebo que talvez eu tenha confundido a independência dela com indiferença.
Lívia era a mulher certa que apareceu na hora errada.
Ou talvez eu simplesmente não fosse o homem certo quando tive a oportunidade.
Mas não adiantava ficar remoendo o passado. Ela já havia deixado claro que não pretendia voltar atrás, e eu precisava aprender a conviver com isso.
Pelo menos era o que dizia a mim mesmo.
Naquela manhã, meu pai havia saído para resolver algumas questões relacionadas às boates que tínhamos na pista. Com ele fora, fiquei responsável por cuidar de parte dos negócios, conferir documentos e assinar as liberações das cargas.
Uma rotina que exigia atenção e paciência.
Eu estava concentrado nos papéis quando ouvi passos se aproximando da sala.
Não precisei levantar a cabeça para saber quem era.
Lívia tinha uma maneira própria de caminhar, sempre segura, como se soubesse exatamente para onde estava indo e não pretendesse pedir licença a ninguém.
Mesmo assim, quando ela passou pela porta usando um shortinho e uma blusa curta, acabei desviando os olhos dos documentos.
E fiquei olhando.
A garota parecia fazer questão de testar os limites da minha paciência. Não bastava aparecer na minha frente; precisava fazer isso com aquela expressão de quem sabia perfeitamente o efeito que causava.
Ela percebeu meu olhar e parou perto da mesa.
— Está me olhando com essa cara de quem chupou limão por quê?
Soltei o ar pelo nariz.
— Você se faz de sonsa, né, garota?
Lívia inclinou a cabeça, fingindo não entender.
— Eu? Imagina! Sou uma pessoa muito tranquila.
Quase ri.
Quase.
— Já falei que não quero você andando pela boca com essas roupas.
Ela olhou para si mesma e depois voltou a me encarar.
— E eu já falei que você pode falar o que quiser. Eu obedecer são duas coisas completamente diferentes.
— Lívia...
— Mandraka, por favor. Vamos manter o profissionalismo.
A audácia daquela mulher era inacreditável.
Passei a mão pelo rosto, tentando encontrar a paciência que ela parecia fazer questão de levar embora toda vez que aparecia.
— Você faz isso de propósito.
— Faço o quê?
— Fica me provocando.
Ela abriu um sorriso inocente demais para ser verdadeiro.
— Nando, querido, você precisa parar de achar que o mundo gira ao seu redor.
— Você não ajuda!
— Não é minha obrigação ajudar.
Pegou uma caneta que estava sobre a mesa, girou o objeto entre os dedos e observou os documentos espalhados diante de mim.
— Já terminou de assinar tudo?
Olhei para ela, desconfiado.
— Por quê?
— Porque tenho mais trabalho para você.
Antes que eu pudesse responder, ela deu meia-volta e saiu da sala.
Fiquei olhando para a porta por alguns segundos.
— Essa garota ainda vai me enlouquecer!
Ninguém respondeu, o que foi ótimo. Eu não estava com disposição para ouvir piadas sobre a situação.
Voltei aos documentos, tentando me concentrar, mas minha cabeça insistia em acompanhar os passos de Lívia pelo corredor.
Era ridículo.
Eu tinha responsabilidades suficientes para ocupar meus pensamentos, mas bastava aquela mulher aparecer para que todo o resto perdesse importância.
E o pior era que ela parecia estar cada vez mais bonita.
Ou talvez eu estivesse apenas começando a enxergar coisas que sempre estiveram diante dos meus olhos.
Quase meia hora depois, a porta se abriu novamente.
Lívia entrou carregando uma pasta e algumas folhas organizadas.
— Aqui estão os relatórios e a contabilidade das bocas.
Estendeu os documentos na minha direção.
— Os números gerais melhoraram. Os lucros estão subindo, e isso deve agradar ao meu querido sogr... — Ela interrompeu a própria frase, abriu um sorriso debochado e corrigiu: — Ao seu querido pai.
Estreitei os olhos.
— Você ia falar o quê?
— Nada, Nando. Deve ser o cansaço.
— Sei.
Ela colocou a pasta sobre a mesa e apontou para a primeira página.
— Confira os números com atenção. Organizei tudo para facilitar.
Comecei a analisar os relatórios.
Os resultados eram bons. Algumas áreas apresentavam crescimento significativo, e a movimentação financeira estava dentro do esperado. Meu pai ficaria satisfeito ao perceber que os negócios estavam caminhando na direção certa.
Virei mais algumas páginas, até encontrar uma unidade cujos valores estavam abaixo do habitual.
Franzi a testa.
Aquela boca costumava apresentar resultados melhores. A diferença não era suficiente para chamar a atenção de alguém que olhasse apenas o total geral, mas, comparando os números dos últimos meses, alguma coisa parecia errada.
Foi então que percebi a anotação feita em vermelho na margem da folha.
A letra era de Lívia.
Está tendo desfalque. Estão roubando você. Abra o olho, burro.
Fiquei encarando a mensagem.
Depois, levantei lentamente a cabeça.
— Mandraka!
Ela já estava perto da porta e olhou por cima do ombro.
— Oi, bunda!
Abri a boca, indignado.
— Bunda?
Ela apontou para mim com a caneta.
— Você me chamou de garota, sonsa e sabe-se lá mais o quê. Achei justo retribuir o carinho.
— Você não tem jeito!
— Tenho, sim. Só não gosto de usar com você.
Balancei a cabeça, tentando não rir.
— Vem cá. Que história é essa de desfalque?
O sorriso dela diminuiu, dando lugar à expressão séria que eu conhecia tão bem.
— Os números daquela boca não batem com a movimentação que deveria existir. Venho observando isso há algum tempo.
Endireitei a postura.
— E por que não me falou antes?
— Porque eu precisava ter certeza de que não era apenas um erro nos registros.
— E agora tem certeza?
— Tenho motivos suficientes para desconfiar. Certeza absoluta, ainda não.
Gostei daquela resposta mais do que gostaria de admitir.
Lívia não estava fazendo acusações sem fundamento. Havia analisado os números, comparado os resultados e identificado uma diferença que poderia passar despercebida por qualquer pessoa que não conhecesse a rotina dos negócios.
— Você tem alguma ideia de quem está envolvido?
— Tenho algumas suspeitas, mas não vou apontar o dedo sem provas.
Ela cruzou os braços.
— O que posso dizer é que alguém está contando com a sua falta de atenção.
Olhei novamente para o relatório.
Aquela situação me incomodou mais do que eu esperava. Não era apenas pelo dinheiro. Se alguém estava desviando valores, significava que havia uma pessoa dentro dos nossos negócios aproveitando a confiança que recebia para agir pelas nossas costas.
E isso era algo que eu não pretendia tolerar.
— Vou verificar isso pessoalmente.
Lívia assentiu.
— Ótimo. Mas não saia acusando todo mundo. Quem está fazendo isso pode perceber que foi descoberto e tentar esconder os rastros.
Levantei os olhos.
— Você já pensou em tudo, não foi?
— Alguém precisa pensar, né?
— Você gosta de me diminuir.
— Não precisa da minha ajuda para isso, Nando. Você consegue sozinho.
Soltei uma gargalhada, apesar de mim mesmo.
Ela também sorriu, mas logo voltou à expressão habitual.
— Deixei os outros relatórios organizados na pasta. Se encontrar alguma diferença, me avise.
— Pode deixar.
Lívia caminhou até a porta.
Dessa vez, porém, antes que saísse, chamei seu nome.
— Mandraka.
Ela parou.
— O que foi?
Hesitei por um instante.
— Obrigado por ter percebido isso.
O rosto dela mudou discretamente, como se não esperasse ouvir aquelas palavras.
Por alguns segundos, não houve ironia nem provocação.
Apenas um olhar silencioso.
— Não precisa agradecer. Eu fiz o meu trabalho.
E foi embora.
Fiquei sozinho na sala, olhando para os documentos e tentando organizar meus pensamentos.
Aquela mulher tinha acabado de identificar um possível problema nos nossos negócios, entregar os relatórios e ainda encontrar tempo para me provocar por causa da roupa que estava usando.
Era impressionante.
Meu pai sempre dizia que Lívia tinha uma capacidade rara de enxergar o que os outros ignoravam. Eu costumava concordar, mas nunca havia percebido tão claramente o quanto sua atenção aos detalhes poderia fazer diferença.
Peguei o celular e pedi que separassem os registros da unidade mencionada no relatório. Queria entender o que estava acontecendo antes que a situação se tornasse um problema maior.
Depois, recostei-me na cadeira e olhei para a porta por onde ela havia saído.
Eu deveria estar pensando apenas no possível desfalque.
Deveria estar concentrado em descobrir quem estava tentando nos passar para trás.
Mas uma pergunta insistia em voltar à minha cabeça.
Onde Lívia passava tanto tempo quando não estava trabalhando?
Com quem conversava?
Por que parecia tão determinada a manter a vida pessoal longe de mim?
Apertei os lábios, incomodado com meus próprios pensamentos.
Não tinha direito de cobrar respostas. Ela não era mais minha namorada, e eu havia deixado isso muito claro quando escolhi seguir outro caminho.
Ainda assim, era difícil aceitar que eu já não sabia quase nada sobre a mulher que um dia conheci tão bem.
Talvez fosse esse o preço das minhas escolhas.
Eu queria liberdade e consegui.
Só não imaginei que, junto com ela, perderia o direito de saber se Lívia estava feliz, se tinha alguém ao seu lado ou se, em algum momento, ainda pensava em nós dois.
Suspirei e voltei a olhar para os relatórios.
Chega de pensar nela.
Eu tinha um possível desfalque para investigar, negócios para administrar e uma responsabilidade enorme nas mãos.
Quanto a Mandraka...
Bem, aquela mulher continuaria sendo um problema para a minha paz.
E, pelo visto, eu ainda estava longe de encontrar uma solução.
