Capítulo 5 O SEGREDO DO COROA

Coroa narrando

Eu tinha saído para resolver uns assuntos na pista, daqueles que não podiam ficar para depois. Minha intenção era colocar tudo em ordem e voltar para o morro antes que a noite avançasse demais.

Só não esperava encontrar Sonja pelo caminho.

A avó de Lívia estava saindo de uma loja quando a vi. Até aí, nada de extraordinário. Eu conhecia aquela mulher havia anos e sempre tive consideração por ela. O problema foi perceber que não estava sozinha.

Ao lado dela caminhava uma menininha que devia ter uns três anos.

Bonita, arrumadinha e com um sorriso capaz de desarmar qualquer sujeito mal-humorado.

Mas não foi isso que me chamou a atenção.

Foi o rosto.

Parei por um instante, observando a criança enquanto ela conversava animadamente com a avó. Quanto mais olhava, mais aquela carinha me parecia familiar.

O formato dos olhos, o sorriso, até o jeito de inclinar a cabeça...

Rapaz, eu conhecia aquelas feições.

Conhecia muito bem.

— Sonja! — chamei, aproximando-me das duas.

Ela virou o rosto e abriu um sorriso educado.

— Ora, veja só! Quanto tempo!

— Pois é. E quem é essa princesinha aqui?

A menina se escondeu um pouquinho atrás da perna da avó, olhando para mim com curiosidade.

— Essa é a Júlia — Sonja respondeu.

Abaixei-me para ficar na altura da pequena.

— Oi, Júlia. Tudo bem com você?

Ela assentiu timidamente.

— Tudo.

Sorri para ela, mas minha cabeça já estava trabalhando a mil por hora.

Júlia.

Três anos.

E a cara do meu filho.

Meu Deus do céu!

Não queria tirar conclusões precipitadas, mas alguma coisa dentro de mim dizia que aquela história estava longe de ser uma simples coincidência.

Olhei novamente para Sonja.

— Podemos conversar um instante?

O sorriso dela diminuiu.

— Agora?

— Agora.

Ela percebeu que eu não estava brincando. Pediu à menina que esperasse um pouquinho perto dela e me acompanhou alguns passos adiante, sem se afastar demais da criança.

Cruzei os braços.

— Quem é o pai da Júlia?

Sonja me encarou, surpresa com a pergunta.

— Por que quer saber?

— Porque essa menina tem a cara do Nando, mulher! Não sou cego!

Ela desviou os olhos.

Pronto.

Aquela reação foi suficiente para aumentar minhas suspeitas.

— Sonja, não me venha com rodeios. Eu conheço você há tempo demais para não perceber quando está escondendo alguma coisa.

— Isso não é assunto seu.

Soltei uma risada curta, sem acreditar no que estava ouvindo.

— Não é assunto meu? Se essa criança for quem estou pensando, é assunto meu, sim!

Sonja apertou os lábios.

Olhei para Júlia, que agora observava uma vitrine, distraída com alguns brinquedos expostos.

Não queria discutir aquela história na frente dela.

— Vamos conversar na sua casa — determinei. — Com calma e sem a menina ouvir o que não precisa.

Sonja hesitou, mas acabou concordando.

O caminho até a casa dela foi acompanhado por um silêncio que só aumentava minha curiosidade. Eu tentava organizar as possibilidades na cabeça, embora uma delas já estivesse ganhando força demais.

Quando finalmente chegamos, Sonja acomodou Júlia na sala com alguns brinquedos e foi comigo até a cozinha.

Assim que ficamos sozinhos, virei para ela.

— Pode começar.

Ela suspirou profundamente.

— Eu sabia que esse dia chegaria.

— Então você confirma?

Sonja me encarou por alguns segundos, como se estivesse decidindo se deveria ou não continuar escondendo aquela verdade.

Por fim, assentiu.

— Sim. Júlia é filha de Lívia e Nando.

Fiquei imóvel.

Por alguns instantes, não consegui dizer absolutamente nada.

Depois, passei as mãos pelo rosto e soltei a primeira coisa que me veio à cabeça:

— Caramba! Eu sou avô!

Minha voz saiu mais alta do que pretendia.

Sonja levou um dedo aos lábios, pedindo silêncio.

— Fale baixo! A menina está na sala.

Baixei imediatamente o tom.

— Desculpa. Mas, Sonja, pelo amor de Deus! Como isso aconteceu? Por que ninguém me contou?

— Lívia decidiu esconder a gravidez. Ela tinha seus motivos, e eu respeitei a decisão dela.

— E o Nando não sabe de nada?

— Não.

Encostei as mãos na bancada, tentando assimilar a informação.

Meu filho tinha uma filha de três anos.

Uma neta linda, que eu acabara de conhecer por acaso, enquanto ele continuava vivendo sem saber da existência dela.

Eu deveria estar furioso com Lívia por ter escondido algo tão importante.

Mas, conforme Sonja me explicou o que havia acontecido naquela época, minha indignação começou a tomar outro rumo.

Ela contou sobre o relacionamento dos dois, sobre as declarações de Nando de que não queria ter filhos e sobre a maneira como Lívia descobriu a gravidez justamente quando ele estava se envolvendo com outra mulher.

Contou também que minha menina precisou enfrentar momentos difíceis praticamente sozinha, tentando organizar a própria vida enquanto se preparava para trazer uma criança ao mundo.

Quando Sonja terminou, fiquei alguns segundos em silêncio.

Eu conhecia meu filho.

Amava aquele moleque, claro que amava. Mas não era cego para os defeitos dele.

Nando sempre teve dificuldade para lidar com sentimentos que exigiam responsabilidade. Gostava de liberdade, de diversão e de acreditar que poderia resolver tudo quando bem entendesse.

Talvez um dia amadurecesse.

Mas, naquela época, Lívia não podia esperar que ele aprendesse a ser o homem de que ela precisava.

— Eu não tiro a razão dela — admiti finalmente. — Não completamente.

Sonja pareceu surpresa.

— Não está bravo?

— Estou tentando entender, mulher! Acabei de descobrir que tenho uma neta de três anos. É claro que estou mexido com isso.

Respirei fundo.

— Mas também sei que Lívia não tomou essa decisão sem pensar. Se ela acreditou que precisava proteger a filha daquela situação, imagino que tenha tido motivos suficientes.

— Ela nunca quis que Júlia crescesse sem amor. Eu e ela fazemos tudo o que podemos para que a menina tenha uma vida feliz.

— E isso eu não vou questionar.

Olhei novamente para a sala.

Júlia estava sentada no tapete, brincando com uma boneca. De vez em quando, soltava uma risadinha que fazia meu coração apertar.

Era minha neta.

Minha netinha.

E eu tinha perdido três anos inteiros da vida dela sem sequer saber que existia.

Aquilo doía.

Não por acreditar que Lívia me devia explicações sobre todas as decisões que tomou, mas porque agora eu sabia que havia uma criança maravilhosa crescendo longe de mim.

— Sonja, preciso te perguntar uma coisa.

— O quê?

— Você acha que Lívia vai me deixar fazer parte da vida da Júlia?

Ela me observou com atenção.

— Acho que vai depender da maneira como você lidar com essa situação.

Assenti lentamente.

— Não vou pressioná-la.

E eu estava falando sério.

Não pretendia transformar aquela descoberta em uma guerra com Lívia. Ela já havia passado por dificuldades suficientes e não precisava de mais um homem tentando decidir o que deveria fazer.

Mas havia uma coisa sobre a qual eu não tinha a menor dúvida.

Eu não abriria mão da oportunidade de conhecer minha neta.

— Só preciso que você não conte nada ao Nando por enquanto — pediu Sonja.

Olhei para ela.

— Não vou contar. Essa decisão cabe à Lívia.

A velha soltou um suspiro de alívio.

— Obrigada.

— Mas vou avisando: não me peça para fingir que essa menina não existe. Agora que sei da verdade, quero participar da vida dela.

Sonja sorriu pela primeira vez desde que começamos aquela conversa.

— Eu imaginava que você diria isso.

— Claro que diria! Você acha que vou descobrir que tenho uma neta e continuar vivendo como se nada tivesse acontecido?

Balancei a cabeça.

— Nem pensar.

Naquela mesma tarde, tomei uma decisão.

Antes de voltar para o morro, passei em algumas lojas e comprei brinquedos para Júlia. Não fazia ideia do que uma criança daquela idade gostaria de ganhar, então fui escolhendo tudo o que me parecia bonito e divertido.

Saí de lá com sacolas demais para uma pessoa só.

O vendedor até perguntou se eu estava preparando uma festa.

— Estou conhecendo minha neta, rapaz!

Falei aquilo com tanto orgulho que acabei sorrindo sozinho no meio da loja.

Quando cheguei ao carro, olhei para as sacolas e balancei a cabeça.

Lívia que se preparasse.

Eu podia respeitar sua decisão de manter o segredo, mas não pretendia ficar longe daquela menina para sempre.

Eu estava velho, sim.

Mas ainda tinha muito amor para dar.

E, pelo visto, minha nova missão seria conquistar o coração da minha netinha sem transformar a vida da mãe dela em uma confusão ainda maior.

Já era noite quando cheguei ao morro.

Fui direto para a boca, carregando algumas das sacolas que havia deixado no carro. Minha intenção era conversar com Lívia antes que a coragem me abandonasse.

Encontrei-a na sala, sentada atrás da mesa, concentrada na contabilidade.

Aquela garota parecia não cansar nunca.

Havia documentos espalhados diante dela, uma calculadora ao lado e uma caneca de café que provavelmente já estava fria.

Ela nem levantou a cabeça quando entrei.

— Algum problema, coroa?

Aproximei-me da mesa e coloquei uma das sacolas sobre ela.

— Depende do que você chama de problema. Temos, sim, uma pequena questão chamada Júlia, de três anos.

Lívia parou de escrever.

Devagar, ergueu os olhos para mim.

Por um instante, vi a surpresa atravessar seu rosto. Mas ela logo recuperou a expressão tranquila.

— Está tentando me intimidar, coroa? — perguntou, recostando-se na cadeira. — Não vai funcionar.

A voz estava calma, mas havia uma amargura discreta em suas palavras.

Puxei uma cadeira e me sentei diante dela.

— Eu sei que você tem seus motivos para manter a menina longe do Nando.

Ela me observou em silêncio.

— Sua avó me contou a história.

Lívia soltou uma risadinha sem humor.

— Imagino que não tenha sido por livre e espontânea vontade. Conhecendo o senhor, deve ter feito um interrogatório completo.

— Digamos que precisei insistir um pouquinho.

— Eu sabia.

Ela voltou a organizar os papéis, mas percebi que seus dedos estavam mais tensos.

— Não vim aqui para te repreender, garota — falei. — Não sou juiz da sua vida e não pretendo decidir o que é melhor para você ou para sua filha.

Lívia ergueu os olhos novamente.

— E nem poderia. A culpa dessa história é do seu filho.

— Eu sei.

A resposta pareceu surpreendê-la.

Suspirei e apoiei os braços sobre a mesa.

— Mas me conta uma coisa. Como conseguiu passar por tudo isso sozinha?

Pela primeira vez naquela noite, o olhar dela perdeu um pouco da dureza habitual.

— Eu tive um ótimo treinador — respondeu baixinho. — Alguém que me ensinou a ser forte, a engolir o choro quando fosse necessário, levantar a cabeça e recomeçar.

Senti um aperto no peito.

Eu sabia que ela estava falando de mim.

Durante anos, ensinei Lívia a enfrentar as dificuldades sem depender da aprovação de ninguém. Queria que ela aprendesse a se defender, a pensar antes de agir e a não permitir que os outros decidissem seu destino.

Só não imaginei que um dia ela precisaria colocar tudo aquilo em prática para enfrentar uma situação tão dolorosa.

— Fico feliz por ter conseguido te ensinar alguma coisa de bom — respondi.

Ela sorriu de leve.

— Conseguiu, sim.

Fiquei olhando para aquela menina que, de alguma forma, já não era mais uma menina. Era uma mulher feita, com responsabilidades, conquistas e uma filha que dependia dela.

E eu sentia orgulho.

Muito orgulho.

— Só quero te fazer um pedido — falei.

Lívia apoiou os cotovelos na mesa.

— Lá vem.

— Não me proíba de ver a Júlia. Não quero tomar decisões por você, nem interferir na maneira como cria sua filha. Só quero conhecer minha neta e participar da vida dela, se você permitir.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois, abriu aquele sorriso debochado que eu conhecia tão bem.

— Sei que o senhor vai guardar segredo. Afinal, foi você quem me treinou. Sabe do que sou capaz, não é?

Soltei uma gargalhada.

— Ai, garota! Eu te odeio, sabia?

— Me ama demais e fica aí pagando de durão!

Ela começou a rir, e eu acabei acompanhando.

Por alguns instantes, a tensão desapareceu.

Aquela era a Lívia que eu conhecia desde jovem: atrevida, inteligente e incapaz de perder uma oportunidade de me provocar.

— Você não presta — resmunguei.

— Aprendi com o melhor.

Balancei a cabeça, fingindo indignação.

— Essa menina ainda vai acabar comigo.

— Vai nada. O senhor ainda tem muita energia para gastar.

— Principalmente agora que descobri que tenho uma neta!

O sorriso dela ficou mais suave.

— Júlia é uma menina maravilhosa.

— Isso eu já percebi.

— Ela gosta de carinho, de brincar e de ouvir histórias. E é muito esperta.

— Puxou a quem?

Lívia me olhou de cima a baixo.

— À família, infelizmente.

Levei a mão ao peito.

— Essa foi cruel!

Ela riu novamente.

E eu percebi que, apesar de todas as mágoas, ainda existia confiança entre nós. Não era uma confiança perfeita, nem apagava as dificuldades que ela havia enfrentado, mas era suficiente para começarmos a construir alguma coisa nova.

— Não vou contar ao Nando — prometi. — Essa decisão é sua, e eu não vou passar por cima dela.

Lívia assentiu.

— Obrigada, coroa.

— Mas vou querer ver minha neta.

— A gente conversa sobre isso.

— Conversa nada! Já comprei brinquedos!

Apontei para as sacolas.

Ela arregalou os olhos.

— O senhor está brincando!

— Estou falando sério. Passei no shopping e comprei um monte de coisas para a pequena.

Lívia levou a mão à testa.

— Meu Deus do céu! O senhor vai estragar minha filha.

— Vou nada. Só vou dar a ela um pouquinho do amor que perdi nesses três anos.

A brincadeira desapareceu do meu rosto por um instante.

Lívia percebeu.

— Eu sei — respondeu, mais suavemente.

Antes que pudéssemos continuar a conversa, ouvi passos no corredor.

A porta se abriu, e Nando apareceu.

— O que vocês tanto conversam aqui? Estão há um tempão nessa sala!

Olhei para Lívia.

Ela me olhou.

E os dois respondemos praticamente ao mesmo tempo:

— Assunto nosso.

Nando franziu a testa.

— Como assim, assunto de vocês?

— Exatamente — respondi. — Se fosse do seu interesse, você teria sido convocado para a reunião.

Lívia soltou uma gargalhada.

Nando olhou de um para o outro, completamente perdido.

— Vocês estão de brincadeira comigo?

— Um pouquinho — respondi.

Ele cruzou os braços e encarou Lívia.

— Está se criando demais, Mandraka. Está na hora de cortar suas asas.

Ela se levantou devagar, pegou a pasta e caminhou até a porta.

Ao passar por ele, lançou um sorriso provocador.

— Tenta, uai. Quem sabe você consegue?

E saiu.

Nando ficou olhando para o corredor, indignado.

Eu não consegui segurar a risada.

— Pode rir, coroa! — ele reclamou.

— Vou rir mesmo, meu filho.

Levantei-me, recolhi as sacolas e caminhei até a porta.

Antes de sair, parei ao lado dele e dei um tapinha em seu ombro.

— Vou te falar uma coisa: com essa daí, você não tem chances. Nem na guerra, nem no amor.

Ele me lançou um olhar irritado.

— Lá vem o senhor de novo!

— Acabou para você, rapaz.

Saí rindo, deixando meu filho resmungando sozinho.

Mas, enquanto atravessava o corredor, meus pensamentos voltaram para Júlia.

Eu tinha uma neta.

Uma menina linda, esperta e cheia de vida, que ainda não sabia que seu avô estava disposto a fazer qualquer coisa para conquistar um lugar no coração dela.

E eu pretendia aproveitar cada oportunidade.

Quanto a Nando...

Bem, um dia ele descobriria a verdade.

Mas não seria por minha boca.

Aquela história pertencia a Lívia, e eu respeitaria sua decisão.

Pelo menos até que ela estivesse pronta para enfrentar as consequências de revelar o segredo que guardava havia três anos.

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