Capítulo 6 HOJE A MAMÃE ESTÁ DE FOLGA

Lívia narrando

A semana passou tranquila, pelo menos dentro do possível. Os negócios continuavam caminhando, os problemas estavam sob controle e eu conseguia respirar um pouco entre uma responsabilidade e outra.

Nando, por outro lado, parecia estar desenvolvendo uma nova especialidade: ficar emburrado toda vez que me via.

Era quase engraçado.

Desde que comecei a conversar mais com o pai dele, o homem andava com uma expressão tão fechada que parecia ter engolido um limão inteiro. E o melhor era que eu sabia exatamente o motivo.

Ele estava louco para descobrir o que tanto conversávamos.

Coitado.

Se soubesse que o assunto era Júlia, provavelmente teria um treco ali mesmo.

O coroa estava encantado com a neta. Desde que descobriu a verdade, não perdia uma oportunidade de perguntar por ela, saber como estava e querer conhecer cada detalhe de sua rotina. Eu ainda estava avaliando a melhor maneira de permitir essa aproximação sem colocar meu segredo em risco, mas não podia negar que era bom ver o carinho sincero dele.

Quanto a Nando, continuaria sem saber de nada até que eu decidisse o contrário.

Aquela decisão era minha, e ninguém iria me pressionar a mudar de ideia.

Naquela noite, entretanto, eu não queria pensar em segredos de família, relatórios financeiros ou problemas no morro.

Teria baile.

E eu estava precisando de uma boa dose de diversão.

Na madrugada seguinte, viajaria para São Paulo para fiscalizar um dos morros que também faziam parte dos nossos negócios. Seria uma viagem cansativa, cheia de reuniões e responsabilidades. Portanto, aquela era minha última oportunidade de relaxar antes de voltar à rotina.

E eu pretendia aproveitá-la.

Depois de um banho demorado, comecei a me arrumar.

Escolhi um conjunto que valorizava minhas curvas, deixei o cabelo solto e caprichei na maquiagem. Queria uma produção bonita, ousada e que combinasse com meu humor.

Quando terminei, parei diante do espelho e sorri para minha própria imagem.

— Hoje ninguém me segura!

Peguei a bolsa, conferi o celular e saí.

O baile já estava movimentado quando cheguei. A música fazia o chão vibrar, as luzes coloridas cortavam a escuridão e o camarote estava cheio de gente conhecida.

Naquela noite, o morro recebia vários aliados. Havia conversas acontecendo por todos os lados, cumprimentos, risadas e aquele movimento que deixava o ambiente ainda mais animado.

Do jeitinho que a mamãe gostava.

Subi para o camarote e fui recebida por alguns conhecidos. Cumprimentei um, abracei outro e logo me acomodei perto da grade, observando a multidão.

Era bom estar ali sem precisar resolver nada imediatamente.

Pelo menos até ouvir a voz que eu conhecia bem demais.

— Precisava colocar os peitos para fora desse jeito, Lívia?

Fechei os olhos por um segundo.

Meu Deus, eu não merecia.

Virei lentamente e encontrei Nando parado atrás de mim, com a expressão fechada e os olhos passeando pela minha roupa como se ele tivesse algum direito de aprová-la ou desaprová-la.

Soltei uma risadinha sem humor.

— Me erra, Nando.

Ele franziu a testa.

— Estou falando sério.

— E eu também. Para você, é Mandraka. Corta essa intimidade que você não tem mais.

O maxilar dele ficou tenso.

Continuei antes que resolvesse transformar aquela conversa em uma discussão interminável.

— Agora dá licença, porque você está atrapalhando meus esquemas.

Ele estreitou os olhos.

— Que esquemas?

Olhei para ele como se estivesse diante da pergunta mais absurda do mundo.

— Ai, garoto! Vai procurar alguém para conversar e me deixa em paz.

— Você está muito abusada ultimamente.

— Ultimamente? Nando, querido, acho que você não me conhece tão bem quanto imagina.

Dei as costas antes que ele pudesse responder e atravessei o camarote com a maior tranquilidade do mundo.

Por dentro, estava me divertindo muito mais do que deveria.

Era impressionante como ele conseguia ficar incomodado com coisas que já não lhe diziam respeito. Quando estávamos juntos, nunca precisei pedir autorização para escolher minhas roupas, e não seria agora que começaria a aceitar palpites.

Se ele estava arrependido das próprias escolhas, o problema era dele.

Eu tinha uma vida para viver.

E pretendia vivê-la muito bem.

Peguei um copo de uísque e fui para o outro lado do camarote, onde a música parecia ainda mais envolvente. Dei um pequeno gole, apoiei o copo na mesa e comecei a observar as pessoas.

Foi quando o vi.

Rapaz...

Quem era aquele homem?

Alto, porte atlético, barba bem cuidada e uma presença que chamava atenção sem que ele precisasse fazer esforço. Usava uma roupa escura, alguns acessórios discretos e correntes douradas que brilhavam sob as luzes do ambiente.

Era um dos aliados que haviam chegado naquela noite.

E, pelo que eu conseguia perceber, estava sozinho.

Melhor ainda.

Sorri de canto.

Não era como se eu estivesse procurando um relacionamento. Muito menos alguém para ocupar um lugar que não existia mais na minha vida.

Mas admirar uma pessoa bonita não era crime.

E eu tinha olhos, graças a Deus.

Continuei observando discretamente até que o coroa apareceu ao meu lado.

— Está procurando alguma coisa, garota?

Quase engasguei com a bebida.

— Estou procurando paz, coroa. Mas parece que hoje ninguém quer me deixar em paz.

Ele soltou uma gargalhada.

— Sei muito bem que tipo de paz você está procurando.

Revirei os olhos.

— O senhor anda muito intrometido.

— E você está muito sorridente para quem acabou de mandar meu filho procurar o que fazer.

— Problema dele.

Meu companheiro de conversa acompanhou meu olhar e logo percebeu quem havia chamado minha atenção.

O sorriso dele aumentou.

— Ah, entendi.

— Entendeu o quê?

— Nada. Vem comigo, que vou te apresentar uma pessoa.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ele já estava caminhando em direção ao homem.

Acompanhei-o, curiosa.

Quando nos aproximamos, o sujeito se levantou para cumprimentá-lo.

— Como vai, rapaz? Está aproveitando a festa?

— Estou, sim. E o senhor?

— Tudo tranquilo. Quero apresentar uma pessoa.

O coroa colocou a mão no meu ombro.

— Essa aqui é a Lívia, mais conhecida como Mandraka.

O homem voltou o olhar para mim, e eu lhe ofereci um sorriso confiante.

— Prazer.

Ele segurou minha mão com delicadeza.

— O prazer é meu.

Sua voz era grave, e o sorriso tinha um charme perigoso.

— Já ouvi falar muito de você — comentou.

Ergui uma sobrancelha.

— Espero que tenham falado bem.

Ele riu.

— Falaram que você é inteligente, determinada e que não costuma levar desaforo para casa.

Olhei para o coroa.

— Está vendo? O senhor fica espalhando minhas qualidades por aí.

— E estou mentindo? — ele respondeu, divertindo-se.

O homem puxou uma cadeira para mim.

— Pode se sentar. Assim você me conta se as histórias são verdadeiras.

Gostei da atitude.

Sentei-me ao lado dele, cruzando as pernas enquanto o coroa começava a contar algumas histórias sobre meu trabalho. Naturalmente, escolheu justamente aquelas que mostravam minha capacidade de resolver problemas e minha fama de não aceitar que ninguém decidisse por mim.

Eu já estava me preparando para interrompê-lo quando senti a mão do meu novo conhecido tocar delicadamente minha coxa.

Olhei para ele.

O gesto era discreto, acompanhado de um sorriso que deixava bastante clara a intenção por trás daquela aproximação.

Ele se inclinou um pouco, aproximando os lábios do meu ouvido.

— Se você quiser, podemos sair daqui e conversar em um lugar mais tranquilo.

Um arrepio leve percorreu minha pele.

Finalmente alguém que sabia fazer uma proposta sem transformar tudo em um interrogatório!

Virei o rosto na direção dele, mantendo o sorriso.

— Você costuma ser tão direto assim?

— Só quando encontro alguém que desperta minha curiosidade.

Gostei da resposta.

Muito.

Olhei rapidamente ao redor e, do outro lado do camarote, avistei Nando conversando com alguns homens. Mesmo de longe, percebi que ele continuava olhando na nossa direção.

Ah, não.

Não iria estragar minha noite por causa dele.

Voltei minha atenção para o homem ao meu lado.

— Então acho que podemos conversar melhor — murmurei.

Ele sorriu e retirou a mão da minha perna, respeitando meu espaço enquanto aguardávamos uma oportunidade de sair dali sem interromper a conversa do coroa.

Encostei as costas na cadeira e tomei mais um gole da bebida.

Naquela noite, eu não estava procurando promessas, declarações ou um príncipe encantado.

Queria música, diversão e a companhia de alguém interessante.

O resto ficaria para depois.

Porque, se havia uma coisa que eu tinha aprendido nos últimos anos, era que não precisava entregar meu coração para aproveitar a vida.

E, naquele momento, meu coração estava muito bem guardado.

Quanto ao resto...

Bem, a mamãe estava oficialmente de folga.

E pretendia aproveitar cada minuto.

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