Capítulo 7 OS ERROS QUE FICARAM PARA TRÁS
Nando narrando
Passei boa parte do baile observando Lívia.
Era ridículo, eu sabia. Havia música, bebida, aliados por todos os lados e gente aproveitando a noite, mas meus olhos insistiam em procurar aquela mulher no meio da multidão.
E ela parecia estar fazendo questão de testar minha paciência.
Não podia negar que o que tivemos foi intenso pra caramba. Durante dois anos, compartilhamos momentos que ainda estavam vivos na minha memória, mesmo que eu tentasse fingir que tudo aquilo pertencia a um passado distante.
Mas, naquela época, eu não queria nada sério.
Pelo menos, era isso que dizia a mim mesmo.
A verdade era um pouco mais complicada. Eu gostava de Lívia, admirava sua coragem e sentia uma atração por ela que nunca consegui explicar direito. Só que, no fundo, acreditava que aquela mulher era demais para mim.
Ela sempre foi determinada, inteligente e dona de uma personalidade que não aceitava ser diminuída por ninguém. Enquanto eu ainda tentava entender o que queria da vida, ela já parecia saber exatamente onde pretendia chegar.
Talvez eu tivesse medo de não conseguir acompanhar seus passos.
Talvez fosse mais fácil manter tudo sem compromisso do que admitir que aquela garota tinha se tornado importante demais.
Seja como for, fiz minhas escolhas.
E agora estava pagando o preço.
Do outro lado do camarote, Lívia conversava animadamente com o aliado que meu pai havia apresentado a ela. O sujeito parecia bastante interessado, e ela não demonstrava a menor intenção de encerrar a conversa.
Para completar, estava usando uma roupa que valorizava suas curvas e um decote que chamava atenção por onde passava.
Pelo amor de Deus!
Será que ela precisava mesmo ficar tão bonita?
Apertei o copo entre os dedos, irritado comigo mesmo.
Eu não tinha o menor direito de reclamar. Lívia podia conversar com quem quisesse, vestir o que desejasse e aproveitar a noite como bem entendesse.
Ainda assim, ver outro homem se aproximando dela despertava uma sensação desagradável no meu peito.
E o pior era que ela parecia estar se divertindo com aquilo.
O sujeito se inclinava para falar ao ouvido dela, e Lívia sorria. Em determinado momento, os dois trocaram algumas palavras que não consegui ouvir, mas a expressão no rosto dela deixou claro que a conversa estava agradando.
Desviei os olhos.
Ou tentei.
Poucos segundos depois, estava olhando novamente.
— Ficar com essa cara fechada não vai resolver nada, sabia?
A voz do meu pai surgiu ao meu lado.
Virei o rosto e encontrei o velho com um sorriso debochado.
— Vai cuidar da sua vida, coroa.
Ele soltou uma gargalhada.
— Estou cuidando. Acontece que a sua está tão interessante que fica difícil não acompanhar.
Revirei os olhos.
— Não começa.
Meu pai apoiou os braços na grade do camarote e observou a movimentação por alguns segundos.
— Já passou pela sua cabeça que, se você tivesse feito escolhas diferentes naquela época, hoje poderia estar vivendo outra realidade?
Franzi a testa.
— Que papo é esse?
Ele virou o rosto na minha direção.
— Estou falando sério, Nando. Já imaginou se tivesse assumido a Lívia? Talvez vocês estivessem juntos até hoje. Talvez tivessem construído uma família, tido filhos... Sei lá.
Soltei uma risada sem humor.
— Qual é, coroa? Eu nunca me imaginei sendo pai.
— Nunca se imaginou ou nunca quis pensar nisso?
A pergunta me pegou desprevenido.
Fiquei em silêncio por alguns instantes.
Meu pai continuou:
— Você sempre foi muito preocupado em aproveitar a vida, meu filho. Só que, às vezes, a gente fica tão ocupado procurando o que quer que acaba deixando passar algo que poderia ser muito melhor.
Olhei novamente para Lívia.
Ela estava rindo de alguma coisa que o aliado havia dito.
Aquilo me incomodou mais do que deveria.
— Não sei por que o senhor está falando disso agora — resmunguei.
Meu pai demorou um pouco para responder.
— Porque conheço você. E conheço aquela garota há tempo suficiente para saber que nem tudo é tão simples quanto parece.
Voltei a encará-lo.
— O senhor está querendo me dizer alguma coisa?
Ele balançou a cabeça, mantendo aquele sorriso misterioso.
— Só estou dizendo que talvez você nunca tenha parado para pensar no que a Lívia realmente queria naquela época.
Franzi a testa.
— Como assim?
Meu pai olhou para o movimento do baile antes de responder.
— Ela já me disse que ser mãe seria uma das maiores felicidades da vida dela.
Fiquei imóvel.
— Ela falou isso?
— Falou.
Engoli em seco.
Aquela informação parecia simples, mas alguma coisa nela mexeu comigo.
Nunca havia imaginado Lívia falando sobre maternidade. Durante nosso relacionamento, eu me concentrava tanto em manter as coisas do jeito que me agradavam que talvez nunca tivesse prestado atenção suficiente aos desejos dela.
Será que ela queria ter filhos naquela época?
Será que esperava construir alguma coisa comigo?
E, se esperava, por que nunca me contou?
Pensei na possibilidade de ela ter desejado uma família enquanto eu insistia em viver sem compromisso. A ideia me deixou desconfortável, embora eu soubesse que não podia voltar no tempo para mudar minhas decisões.
Meu pai deu um tapinha no meu ombro.
— Pense nisso.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa, ele se afastou, deixando-me sozinho com uma quantidade absurda de pensamentos.
Fiquei olhando para o lugar onde ele estava segundos antes.
Que conversa era aquela?
Por que tinha resolvido falar sobre filhos justamente naquela noite?
E por que parecia tão certo de que eu precisava refletir sobre minhas escolhas?
Sacudi a cabeça, tentando afastar aquelas perguntas.
Eu estava exagerando.
Meu pai gostava de provocar e, provavelmente, tinha percebido meu ciúme. Talvez estivesse apenas tentando me fazer enxergar o quanto eu parecia ridículo olhando para Lívia como se ainda tivéssemos alguma coisa.
Só que a conversa havia deixado uma pulga atrás da minha orelha.
Voltei a olhar para ela.
Agora a música tinha mudado, e Lívia parecia conhecer cada batida. Ela se movimentava com confiança, ria com as amigas e aproveitava a noite sem se preocupar com os olhares ao redor.
Era como se nada pudesse atingi-la.
E talvez fosse exatamente isso que mais me incomodava.
Eu lembrava da mulher que ela era quando estávamos juntos. Lembrava de suas risadas, de suas provocações e dos momentos em que ela baixava a guarda perto de mim.
Agora, quando olhava para ela, enxergava uma mulher que havia aprendido a viver muito bem sem a minha presença.
E eu não sabia como lidar com isso.
Não demorou muito para que Lívia atravessasse o camarote.
Eu estava perto da saída quando ela passou por mim, acompanhada de um sorriso satisfeito e daquela postura que parecia desafiar qualquer pessoa a tentar lhe dizer o que fazer.
— Já vai embora? — perguntei, antes que conseguisse me controlar.
Ela parou e me lançou um olhar impaciente.
— Está controlando minha vida agora, Nando?
Suspirei.
— Eu só fiz uma pergunta.
— E eu respondi. Algum problema?
Passei a mão pelo rosto.
— Pelo amor de Deus, Lívia! Não dá para conversar com você?
Ela cruzou os braços.
— Depende. Você quer conversar ou quer saber onde vou, com quem vou e o que pretendo fazer?
— Não é isso.
— Então seja direto, porque estou sem paciência para adivinhação.
Olhei para ela, procurando as palavras certas.
Eu queria perguntar sobre o passado, sobre o que ela realmente havia sentido por mim e sobre a possibilidade de ter desejado algo que eu nunca tive coragem de oferecer.
Mas não consegui.
Em vez disso, acabei fazendo a pergunta errada.
— Por que você ficou tão dura comigo?
O sorriso desapareceu do rosto dela.
Por um instante, pensei que fosse me responder com outra provocação. Estava acostumado àquela dinâmica entre nós, às respostas atravessadas e às brincadeiras que escondiam qualquer conversa mais séria.
Mas, daquela vez, Lívia não riu.
Ela me olhou de um jeito diferente, como se minhas palavras tivessem tocado em algo que preferia manter guardado.
— Os erros dos outros me ensinaram a ser forte.
A frase saiu baixa, sem gritos ou acusações.
E talvez por isso tenha doído tanto.
Fiquei olhando para ela, sentindo o peso daquelas palavras.
Eu sabia que estava falando de mim.
Não precisava explicar, mencionar o nosso relacionamento ou listar as vezes em que eu havia deixado claro que não pretendia assumir um compromisso. Tudo estava naquela resposta.
Lívia tinha aprendido alguma coisa com a nossa história.
E, pelo jeito, a lição tinha sido nunca mais permitir que alguém tivesse tanto poder sobre seus sentimentos.
Ela sustentou meu olhar por mais um instante, depois virou as costas.
— Boa noite, Nando.
E foi embora.
Dessa vez, não tentei impedi-la.
Fiquei parado, observando-a desaparecer entre as pessoas, enquanto a música continuava tocando ao meu redor.
Por alguns segundos, tive vontade de correr atrás dela.
Queria dizer que não havia sido minha intenção machucá-la. Queria explicar que, naquela época, eu não sabia lidar com o que sentia e que talvez tivesse sido covarde demais para admitir o quanto ela significava para mim.
Mas desculpas não apagavam escolhas.
E eu não sabia se ela ainda estava disposta a ouvir qualquer coisa que viesse da minha boca.
Voltei para casa naquela noite com a cabeça cheia.
Tentei dormir, mas a conversa com meu pai continuava voltando aos meus pensamentos.
Ela já me disse que ser mãe seria uma das maiores felicidades da vida dela.
A frase parecia ecoar na minha mente.
Eu nunca tinha me imaginado como pai. Sempre achei que construir uma família era algo distante, uma responsabilidade para um futuro que eu nem sabia quando chegaria.
Mas será que eu havia sido tão egoísta a ponto de não perceber que Lívia poderia desejar uma vida diferente?
Fechei os olhos e respirei fundo.
Não adiantava ficar remoendo o passado.
Eu precisava seguir em frente.
Na manhã seguinte, levantei cedo e tentei retomar a rotina.
Os negócios não paravam, e eu tinha documentos para conferir, reuniões para organizar e problemas que exigiam minha atenção.
Durante o dia, ainda pensei em Lívia algumas vezes, mas me mantive ocupado.
Na madrugada seguinte, soube que ela havia partido para São Paulo.
Mais duas semanas longe.
Mandraka tinha negócios para fiscalizar por lá e, pelo que me disseram, seria responsável por acompanhar de perto as atividades de uma das nossas áreas.
Não fiquei surpreso.
Lívia era respeitada porque sabia o que fazia. Quando assumia uma responsabilidade, dificilmente deixava alguma coisa passar despercebida. Os homens que trabalhavam com ela podiam até tentar questionar suas decisões no começo, mas logo aprendiam que era melhor prestar atenção.
Ela não precisava levantar a voz para ser ouvida.
Bastava entrar no lugar.
Ao saber que ela já estava a caminho, recostei-me na cadeira do escritório e soltei um suspiro.
Duas semanas.
Eu teria duas semanas para organizar meus pensamentos, cuidar dos negócios e tentar entender por que aquela mulher ainda conseguia mexer tanto comigo.
Talvez a distância me ajudasse a colocar tudo em perspectiva.
Talvez eu finalmente conseguisse aceitar que nosso relacionamento havia terminado e que Lívia tinha todo o direito de seguir a própria vida.
Ou talvez eu descobrisse que o problema nunca foi o momento em que ela apareceu.
Talvez o problema tivesse sido eu, que tive a oportunidade de construir alguma coisa ao lado de uma mulher incrível e só comecei a compreender o valor disso quando ela deixou de me oferecer um lugar em sua vida.
Olhei para os documentos sobre a mesa.
Eu precisava trabalhar.
Precisava pensar no futuro.
E, principalmente, precisava parar de agir como se ainda tivesse algum direito sobre as escolhas de Lívia.
Porque, se havia uma coisa que aquela mulher já tinha deixado muito clara, era que ninguém voltaria a decidir por ela.
Nem mesmo eu.
E, enquanto Mandraka estivesse em São Paulo, eu teria tempo suficiente para descobrir se era capaz de aceitar isso de verdade.
