Capítulo 8 UMA COMPANHIA INESPERADA
Lívia narrando
Saí do morro ainda de madrugada, com a moto já preparada para a viagem e a cabeça cheia de coisas que precisava resolver em São Paulo.
Mas, antes de pegar a estrada, tinha uma parada obrigatória: a casa da minha avó.
Eu jamais conseguiria viajar por duas semanas sem me despedir das minhas meninas. Principalmente da minha pequena Júlia, que parecia ter desenvolvido um talento especial para fazer meu coração ficar apertado toda vez que eu precisava ir embora.
Quando cheguei, fui recebida pelo cheirinho de café e pelo sorriso acolhedor da minha avó. Júlia ainda estava sonolenta, mas bastou me ver para abrir os bracinhos.
— Mamãe!
Meu coração derreteu na mesma hora.
Abaixei-me e a peguei no colo, enchendo seu rostinho de beijinhos.
— Bom dia, minha princesa!
— Você vai trabalhar?
Pronto.
Era sempre assim. Eu podia enfrentar situações complicadas, tomar decisões difíceis e passar horas resolvendo problemas sem demonstrar fraqueza, mas bastava minha filha fazer uma pergunta daquelas para que toda a minha pose desaparecesse.
— Vou, meu amor. A mamãe precisa resolver umas coisinhas, mas volto logo.
Ela abraçou meu pescoço.
— Não demora!
Fechei os olhos por um instante, apertando-a contra mim.
— Vou sentir muita saudade de você.
— Eu também!
Minha avó se aproximou e acariciou os cabelos da pequena.
— Vamos deixar a mamãe se despedir, meu amor. Ela precisa trabalhar.
Júlia fez um biquinho que quase acabou comigo.
Fiquei mais alguns minutos conversando com ela, prometendo ligar todos os dias e ouvir suas histórias antes de dormir. Só depois de muitos abraços e beijinhos consegui colocá-la no chão.
Despedi-me da minha avó, que me acompanhou até a porta.
— Cuide-se, Lívia.
— Pode deixar, vó. E cuide da minha princesa.
— Sempre.
Dei um último beijo na testa dela e saí antes que minha coragem acabasse de vez.
Eu precisava aprender a lidar com aquelas despedidas. Júlia estava bem cuidada, minha avó era uma mulher de confiança e eu trabalhava justamente para garantir que minha filha tivesse uma vida tranquila.
Ainda assim, deixar minha pequena nunca seria fácil.
Respirei fundo, caminhei até meu carro e parei ao perceber que havia alguém encostado na porta do passageiro.
Olhei melhor.
Ah, não!
O que aquele homem estava fazendo ali àquela hora?
Era o coroa.
Ou melhor, Morte, como era conhecido por muita gente no nosso mundo.
Eu e Nando o chamávamos de coroa desde sempre, mas seu apelido carregava uma reputação que fazia muita gente pensar duas vezes antes de contrariá-lo.
Ele estava com os braços cruzados, usando aquela expressão de quem já tinha decidido alguma coisa e não pretendia discutir.
Aproximei-me, desconfiada.
— O que o senhor está fazendo aqui uma hora dessas?
Ele abriu um sorriso debochado.
— Vou contigo para São Paulo.
Fiquei olhando para ele, tentando entender se estava falando sério.
— Como é que é?
— Você ouviu muito bem.
— E por qual motivo?
Morte abriu a porta do passageiro e colocou uma bolsa no banco.
— Para garantir que você volte viva.
Soltei uma gargalhada.
— Desde quando o senhor virou minha babá?
Ele me lançou um olhar atravessado.
— Entra no carro e dirige logo, garota. Você pergunta demais!
Revirei os olhos.
Era impressionante como aquele homem conseguia ser mandão até quando estava tentando demonstrar preocupação.
Entrei no carro, coloquei o cinto e liguei o motor.
— Só para deixar claro: quem vai dirigir sou eu, quem vai decidir o horário das paradas sou eu e, quando chegarmos, cada um cuida da própria vida.
Ele ajeitou o cinto, completamente tranquilo.
— Terminou?
— Por enquanto.
— Ótimo. Agora dirige.
Balancei a cabeça, sorrindo.
Eu não sabia se ria ou se mandava aquele homem voltar para casa.
Acabei fazendo o que ele pediu.
Afinal, uma companhia inesperada não seria suficiente para estragar minha viagem.
Pelo menos, era o que eu esperava.
Depois de algum tempo na estrada, o coroa resolveu que já tinha ficado quieto por tempo demais.
— Agora me conta a verdade.
Mantive os olhos na pista.
— Verdade sobre o quê?
— Por que está indo para São Paulo?
Soltei uma risadinha.
— Para trabalhar, coroa. O senhor sabe muito bem disso.
— Sei que tem negócios por lá. Mas quero saber por que resolveu ir pessoalmente agora.
Olhei rapidamente para ele.
— Porque faz tempo que não vou até lá. Aquele morro também é meu, e preciso conferir como as coisas estão andando.
Ele assentiu, satisfeito com a resposta.
— Bom. Gosto de ver você cuidando do que é seu.
— Sempre cuidei.
— Eu sei.
O silêncio voltou por alguns minutos.
Aproveitei para aumentar um pouco o volume da música, mas logo o coroa tornou a falar.
— Vamos chegar hoje e descansar. Amanhã você começa a resolver suas coisas.
— Nem pensar.
Ele virou o rosto.
— Como assim?
— Assim que chegarmos a São Paulo, vou direto para o meu apartamento. Preciso descansar um pouco e organizar meus documentos. Amanhã cedo quero estar no morro.
— Você não cansa nunca?
— Canso, sim. Só não gosto de deixar trabalho acumulado.
Ele soltou uma risada.
— Abusada.
— E o senhor é intrometido.
— Estamos quites, então.
Ri e balancei a cabeça.
A viagem seguiu entre conversas, provocações e algumas paradas rápidas. Morte contava histórias antigas, e eu aproveitava para perguntar sobre coisas que havia aprendido com ele durante os anos em que me ajudou a desenvolver minhas habilidades.
Apesar do jeito mandão, eu tinha um carinho enorme por aquele homem.
Ele havia sido uma das pessoas que me ensinaram a acreditar na minha capacidade, mesmo quando as circunstâncias pareciam desfavoráveis.
E, embora eu nunca dissesse isso com frequência, sabia que podia contar com ele.
O que eu não esperava era que nossa viagem ainda fosse render tanta fofoca.
Chegamos ao meu apartamento por volta das oito da manhã.
Assim que entramos, deixei a bolsa sobre o sofá e tirei os sapatos.
— Finalmente!
Morte observou o ambiente com curiosidade.
— Bonito apartamento.
— Obrigada. Pode ficar à vontade, mas não mexa nas minhas coisas.
Ele soltou uma gargalhada.
— Você acha que eu sou quem?
— Intrometido? Mandão? Curioso?
— Engraçadinha.
Sorri e fui até a cozinha buscar água.
Precisávamos descansar um pouco antes de sair para almoçar e seguir para o morro. Eu tinha muito trabalho pela frente, e não pretendia começar o dia de mau humor.
Depois de tomar um banho e trocar de roupa, voltei para a sala e encontrei o coroa sentado no sofá, mexendo no celular.
— Vamos?
Ele levantou os olhos.
— Agora sim. Estava esperando você terminar de se arrumar.
— O senhor devia agradecer por eu ter escolhido uma roupa confortável em vez de passar mais uma hora me produzindo.
Ele me examinou rapidamente, sorrindo.
— É diferente te ver toda arrumada assim. Deveria fazer isso mais vezes.
Olhei para mim mesma e depois para ele.
— Querido, eu fico linda de qualquer jeito.
Morte caiu na gargalhada.
— Convencida!
— Realista.
Ele se levantou e se aproximou da porta.
— Isso eu não posso negar.
Parei por um instante, olhando para ele com uma expressão desconfiada.
— Olha só! Cheio de indiretas, hein, coroa?
Ele ergueu as mãos, fingindo inocência.
— Estou apenas elogiando.
— Sei.
— Não posso mais elogiar uma mulher bonita?
Abri um sorriso provocador.
— Pode. Só não se acostume demais.
Ele riu, e nós finalmente saímos.
Fomos almoçar em um restaurante tranquilo, onde pudemos conversar sem interrupções. A companhia dele era agradável, embora eu precisasse admitir que o coroa tinha uma habilidade impressionante para transformar qualquer assunto em uma provocação.
Depois do almoço, seguimos para o morro.
E aí, meus amores, o trabalho começou de verdade.
Bastou chegarmos para que os responsáveis pela administração viessem nos receber.
Eu não gostava de perder tempo com cerimônias. Queria ver os relatórios, conferir os números e entender como estavam as despesas, os lucros e os materiais sob responsabilidade da equipe.
Passei boa parte da tarde analisando as contas e conversando com os responsáveis por cada setor.
Alguns resultados estavam dentro do esperado. Outros precisavam de uma atenção maior.
Eu anotava tudo, fazia perguntas e comparava os números com os registros anteriores. Não tinha vindo até São Paulo para passear. Se aquele negócio também estava sob minha responsabilidade, eu precisava saber exatamente o que estava acontecendo.
Morte acompanhava tudo de perto.
Em alguns momentos, fazia perguntas; em outros, apenas observava enquanto eu conduzia as conversas.
No fim da tarde, ele se aproximou de mim quando finalmente consegui uma pausa.
— Você não mudou nada, garota.
Olhei para ele.
— Isso é bom ou ruim?
— É bom. Continua sendo aquela menina que não sossega enquanto não entende tudo.
Sorri.
— Alguém precisa trabalhar, né?
— E alguém precisa aprender a descansar.
— Pode começar dando o exemplo, coroa.
Ele riu e balançou a cabeça.
A verdade era que eu me sentia confortável ao lado dele. Não precisava fingir ser outra pessoa, medir cada palavra ou esconder minhas preocupações.
Com Morte, eu podia simplesmente ser Lívia.
O problema foi que alguém resolveu registrar nossa chegada e espalhar a notícia pelas páginas de fofoca da região.
Uma fotografia nossa juntos começou a circular, acompanhada de comentários insinuando que a aproximação entre nós poderia significar muito mais do que uma parceria de negócios.
Eu só descobri quando meu celular começou a vibrar sem parar.
Olhei para a tela e encontrei uma mensagem de Nando.
Nando: Que história é essa de o meu pai ter ido para São Paulo com você?
Fiquei encarando a mensagem por alguns segundos.
Depois, soltei uma gargalhada.
Meu Deus, aquele homem não tinha jeito!
Não me dei ao trabalho de responder.
Eu podia imaginar perfeitamente o que estava passando pela cabeça dele. Provavelmente já havia criado uma história inteira, com direito a teorias absurdas sobre a minha relação com o pai dele.
E, sinceramente?
A ideia era engraçada demais para que eu desperdiçasse a oportunidade de me divertir.
Guardei o celular e voltei minha atenção para os documentos.
Morte percebeu meu sorriso.
— O que foi agora?
— Nada demais.
Ele estreitou os olhos.
— Lívia...
— Nando mandou mensagem perguntando por que o senhor veio comigo.
Morte ficou em silêncio por um instante.
Depois, começou a rir.
— Aquele moleque está ficando maluco!
— Acho que está apenas curioso.
— Curioso? Ele está é com ciúme!
Dei de ombros.
— Problema dele.
O coroa continuou rindo, mas eu já estava pensando em outra coisa.
Se Nando acreditava que tinha algum direito de questionar minhas companhias, estava muito enganado.
Eu não era mais sua namorada.
Não precisava dar explicações sobre onde ia, com quem conversava ou quem decidia me acompanhar em uma viagem.
E, para ser sincera, Morte era um homem interessante.
Muito interessante.
Olhei discretamente para ele enquanto voltava a examinar os relatórios.
Afinal, quem poderia me culpar por perceber que o coroa continuava sendo um homem bonito, seguro de si e cheio de personalidade?
Sorri sozinha.
Talvez aquela viagem rendesse mais histórias do que eu havia imaginado.
Quanto a Nando, ele teria de aprender a conviver com uma realidade simples: eu não precisava da aprovação dele para viver a minha vida.
E, se a nossa fotografia já estava causando tanto alvoroço, eu mal podia esperar para descobrir qual seria a próxima teoria inventada pelas páginas de fofoca.
Porque Mandraka estava em São Paulo.
E eu tinha a impressão de que aquelas duas semanas seriam tudo, menos tranquilas.
