Capítulo 9 UMA NOITE FORA DOS PLANOS

Lívia narrando

Estava tudo correndo muito bem em São Paulo.

Os negócios continuavam seguindo o planejamento, os responsáveis estavam cumprindo minhas orientações e, até aquele momento, não havia encontrado nenhum problema grave que justificasse uma intervenção maior.

Era exatamente assim que eu gostava de trabalhar: organização, responsabilidade e resultados.

Morte, por outro lado, parecia ter desenvolvido uma nova missão pessoal. Além de acompanhar meus passos, agora fazia questão de reclamar sempre que eu passava tempo demais trabalhando.

Aquele coroa não tinha jeito!

Já havia me perguntado umas cinco vezes se eu pretendia sair daquela sala antes do amanhecer. Eu respondia que sim, mas voltava imediatamente para os documentos, porque ainda precisava conferir alguns números.

Quando finalmente terminei, o relógio já passava da meia-noite.

O baile continuava animado na quadra, com música alta e gente aproveitando a madrugada, mas eu estava cansada demais para participar. Minha cabeça precisava de descanso, e meu corpo estava pedindo uma cama havia horas.

Organizei os papéis, guardei o celular e me levantei.

Assim que saí da sala, encontrei Morte encostado na parede, com os braços cruzados e uma expressão que misturava impaciência e diversão.

— Pensei que você nunca mais fosse sair dessa sala.

Soltei uma risadinha.

— Estava trabalhando, ué. Está precisando de alguma coisa?

Ele suspirou dramaticamente.

— Quero ir para casa. E, para completar, esqueci de pegar a chave.

Olhei para ele, incrédula.

— O senhor passou esse tempo todo me esperando porque esqueceu a chave?

— Não começa, garota.

— Eu não estou começando nada! Só estou tentando entender como um homem que se lembra de tanta coisa consegue esquecer justamente a chave de casa.

Ele apontou para a saída.

— Vamos logo antes que eu me arrependa de ter vindo com você.

Comecei a rir.

— Bora, coroa. Também estou indo descansar.

Peguei minhas coisas e seguimos para o carro.

A volta foi tranquila, apesar de quase termos sido parados em uma blitz. Por um instante, achei que teríamos de esperar mais do que gostaria, mas conseguimos seguir viagem sem maiores contratempos.

Quando chegamos ao apartamento, deixei a bolsa sobre o sofá e caminhei diretamente para o quarto.

Eu estava exausta.

Aquela viagem tinha exigido muito mais energia do que eu imaginava. Durante o dia, precisava conferir os negócios, conversar com os responsáveis e acompanhar cada detalhe. À noite, ainda havia reuniões e imprevistos que pareciam surgir justamente quando eu acreditava que tudo estava resolvido.

Tomei um banho demorado, deixando a água quente aliviar a tensão dos ombros.

Depois, vesti uma lingerie confortável e me deitei, agradecendo mentalmente pela existência de uma cama.

Eu só queria dormir.

Nada de reuniões, relatórios, telefonemas ou homens curiosos fazendo perguntas.

Fechei os olhos.

Finalmente, paz.

Ou quase.

— Lívia!

Abri os olhos imediatamente.

— Meu Deus, homem! O que foi agora?

A voz de Morte veio do corredor.

— Onde você está? Quero falar contigo!

Sentei-me na cama, já perdendo a paciência.

— Estou no quarto! O senhor não sabe onde fica?

Ele apareceu à porta alguns segundos depois e parou assim que me viu.

Fiquei observando sua expressão mudar.

Primeiro, surpresa.

Depois, um silêncio que durou um pouco mais do que o necessário.

Por fim, ele desviou o olhar, pigarreando discretamente.

Eu não consegui segurar o sorriso.

— Que foi, homem? Nunca viu uma mulher de lingerie?

Morte passou a mão pelo rosto.

— Você não tem jeito, sabia?

— Tenho, sim. Só não entendi o problema.

Ele voltou a me olhar, dessa vez com uma expressão diferente. Havia algo naquele olhar que eu conhecia muito bem, embora não esperasse encontrar justamente nele.

Interesse.

Atração.

E uma tensão que parecia ter surgido de repente entre nós.

— Você fica assim em casa mesmo? — perguntou, com a voz um pouco mais baixa.

Olhei para mim mesma e depois para ele.

— Ué, estou na minha casa. Quer que eu durma de casaco e calça jeans?

Ele soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Você gosta de me provocar.

— Eu? Imagine!

Meu sorriso aumentou.

— Está incomodado demais, não acha?

Morte sustentou meu olhar.

— Mais do que deveria.

A resposta me surpreendeu.

Não porque eu não percebesse sua atração, mas porque ele não parecia disposto a esconder o que estava sentindo.

E eu seria hipócrita se dissesse que aquela situação não despertava minha curiosidade.

Morte era um homem interessante. Seguro de si, experiente e dono de uma presença que não precisava de esforço para ser notada. Além disso, havia uma confiança entre nós que vinha de muitos anos.

Eu gostava de estar perto dele.

E, naquele momento, comecei a perceber que talvez não fosse apenas carinho.

Ele deu alguns passos em minha direção, mas parou antes de se aproximar demais.

Por um instante, nenhum de nós disse nada.

Eu poderia ter feito uma piada, mandado que fosse dormir ou fingido que não entendia o que estava acontecendo.

Mas não fiz.

Quando ele finalmente se aproximou, fui eu quem diminuiu a distância entre nós.

O beijo aconteceu sem grandes explicações.

Foi intenso, inesperado e carregado de uma atração que nenhum dos dois parecia disposto a negar. Segurei sua nuca, correspondendo ao gesto, enquanto ele me envolvia pela cintura.

Por alguns segundos, esqueci completamente o cansaço, os negócios e todas as preocupações que haviam ocupado minha cabeça durante a semana.

Naquele quarto, não existiam reuniões nem responsabilidades.

Éramos apenas dois adultos que desejavam estar ali.

Quando nos afastamos, Morte me observou com um sorriso discreto.

— Você ainda vai acabar comigo, garota.

Soltei uma gargalhada.

— O senhor fala demais.

— E você provoca demais.

— Então estamos quites.

Ele voltou a me beijar, e eu o puxei para mais perto.

O restante da noite ficou reservado para nós dois, longe dos olhares curiosos e das fofocas que pareciam acompanhar cada passo meu.

Não fiz promessas.

Ele também não.

Naquela madrugada, não estávamos tentando construir um relacionamento ou decidir o que aconteceria depois. Apenas permitimos que a atração falasse mais alto, sem transformar aquele momento em algo que nenhum de nós estava pronto para definir.

E, quando finalmente nos acomodamos, percebi que estava sorrindo.

Fazia tempo que eu não me permitia viver algo sem analisar todas as consequências antes.

Talvez fosse justamente por isso que aquela noite parecia tão diferente.

Na manhã seguinte, acordei primeiro.

Por alguns segundos, fiquei olhando para o teto, tentando organizar os pensamentos.

Depois, virei o rosto e encontrei Morte ao meu lado.

Ele ainda dormia tranquilamente, como se não tivesse acabado de virar uma parte da minha rotina de cabeça para baixo.

A cena era curiosamente agradável.

Mas eu sabia que precisava conversar com ele antes que as coisas começassem a ganhar um significado que não havíamos combinado.

Levantei-me, vesti um roupão e fui até a cozinha preparar café.

Quando voltei, ele já estava acordado.

Sentado na cama, passou a mão pelos cabelos e me observou com uma expressão séria.

— Bom dia.

— Bom dia, coroa.

Ele sorriu.

— Dormiu bem?

— Dormi. E você?

— Melhor do que esperava.

Revirei os olhos, mas não consegui esconder o sorriso.

Depois de alguns minutos, sentei-me na poltrona diante dele.

— Precisamos esclarecer uma coisa.

O sorriso de Morte diminuiu.

— Imaginei que você fosse dizer isso.

Respirei fundo.

— O que aconteceu ontem não vai se transformar em uma obrigação, certo? Não quero cobranças, expectativas ou alguém tentando decidir o que devo fazer da minha vida.

Ele ficou em silêncio, esperando que eu terminasse.

— Gosto da sua companhia, tenho carinho por você e não vou fingir que não gostei do que aconteceu. Mas estou bem sozinha. Não estou procurando um relacionamento.

Morte me observou por alguns segundos.

— Por que você é tão dura, Lívia? Por que parece ter tanto medo de se entregar?

A pergunta me atingiu de um jeito inesperado.

Desviei os olhos para a xícara que segurava entre as mãos.

Eu sabia a resposta.

Ou, pelo menos, conhecia algumas partes dela.

Passei muito tempo aprendendo que não podia depender de ninguém para construir a vida que desejava. Tive de tomar decisões difíceis, superar decepções e continuar em frente mesmo quando tudo o que queria era parar por um instante.

E, depois de me tornar mãe, aquela necessidade de proteger o que era importante para mim ficou ainda maior.

Não podia me dar ao luxo de tomar decisões sem pensar nas consequências.

Principalmente quando envolviam sentimentos.

— Porque aprendi que nem todo mundo fica — respondi finalmente. — E eu não posso construir minha vida esperando que alguém decida se quer fazer parte dela.

Morte baixou os olhos por um instante.

— Eu não sou o Nando.

— Eu sei.

Voltei a encará-lo.

— Mas também não quero colocar expectativas em cima de você. Nem em mim.

Ele assentiu lentamente.

— Não vou te obrigar a nada, garota. Só queria entender por que você parece sempre pronta para fugir antes mesmo de alguém tentar ficar.

Fiquei em silêncio.

Aquela era uma pergunta para a qual eu ainda não tinha uma resposta simples.

Talvez eu realmente tivesse aprendido a me proteger tanto que, às vezes, acabava afastando até as pessoas que mereciam uma oportunidade.

Mas não estava pronta para discutir tudo aquilo naquela manhã.

Levantei-me e coloquei a xícara sobre a mesa.

— Vamos tomar café antes que eu me arrependa de ter acordado cedo.

Morte soltou uma gargalhada.

— Você não alivia uma, né?

— Nunca prometi aliviar.

Ele se levantou e veio até mim.

Por um instante, achei que fosse insistir na conversa, mas apenas tocou delicadamente meu rosto.

— Está bem, Mandraka. Vamos com calma.

Sorri, aliviada.

— Assim eu gosto.

Ele me deu um beijo na testa e caminhou até a cozinha.

Fiquei olhando para ele por alguns segundos, sentindo uma estranha mistura de tranquilidade e inquietação.

Eu não sabia o que aquela noite significaria para nós.

Talvez fosse apenas um momento inesperado.

Talvez fosse o início de alguma coisa que nenhum dos dois havia planejado.

Mas uma coisa eu sabia: não permitiria que aquele acontecimento mudasse quem eu era ou me fizesse abandonar a vida que construí com tanto esforço.

Eu continuaria sendo Lívia.

Continuaria sendo Mandraka.

E, acima de tudo, continuaria sendo a mãe que Júlia precisava.

Quanto ao coroa...

Bem, ele teria de descobrir sozinho até onde eu estava disposta a deixá-lo chegar.

Porque, se existia uma coisa que eu não sabia fazer, era entregar as rédeas da minha vida a outra pessoa.

E Morte, pelo visto, estava começando a descobrir isso da maneira mais interessante possível.

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