Capítulo 4

A Rejeição

POV de Camilla

O mundo girava, minha visão estava turva.

Sussurros se transformaram em rugidos. Olhos me encaravam, arregalados e sem piscar, me julgando e culpando.

Eu estava no meio do Grande Salão, sozinha, despojada de dignidade, orgulho e amor. A túnica cerimonial branca, que antes simbolizava honra, agora grudava no meu corpo trêmulo como um sudário.

A luz da lua cheia descia do céu acima, mas seu brilho prateado não me abençoava esta noite—ele queimava.

Porque a matilha que eu amava a vida inteira agora me via como nada mais do que uma mentirosa.

Uma traidora.

“Você ouviu?”

“Ela tentou trair o Alpha Michael.”

“Ela fugiu de vergonha depois de tentar seduzir um guerreiro de outra matilha.”

“A irmã dela salvou o Alpha. Ele fez a escolha certa.”

Nada disso era verdade.

Mas ninguém se importava.

Não quando as mentiras de Caroline já estavam enraizadas nos ouvidos de todos. Não quando Michael—o único homem em quem eu achava que podia confiar—estava no centro da sala ao lado da minha irmã e me olhava como se eu não fosse nada.

Absolutamente nada.

Eu nem conseguia falar. Minha garganta ardia com lágrimas não derramadas. Meu coração se despedaçou enquanto meus olhos percorriam a sala, desesperados—suplicando—para que alguém acreditasse em mim.

E então eu o vi.

Meu pai.

Jack. O guerreiro reverenciado da matilha, o homem que me treinou com suas próprias mãos. O homem que uma vez colocou a mão no meu ombro e disse que eu tinha o coração de uma Luna.

Ele estava perto dos anciãos, com os braços cruzados firmemente, seu rosto esculpido em pedra.

Eu o encarei, silenciosamente implorando para que ele me defendesse.

Ele desviou o olhar.

Minha alma se quebrou.

Ontem, eu estava me preparando para o momento mais sagrado da minha vida—minha marcação. Lembro-me de estar na frente do espelho enquanto as mulheres anciãs entrelaçavam fios de prata na minha trança e sussurravam bênçãos da Deusa da Lua.

Lembro-me de sorrir enquanto meu pai me dizia que eu estava igual à minha mãe na noite de acasalamento dela.

Mas pela manhã, tudo havia sido destruído.

E minha gêmea—meu próprio sangue—estava no centro de tudo.

Ela não apenas roubou meu companheiro.

Ela roubou minha voz.

Ela inventou uma história que eu nunca vi chegando. Que eu tinha dúvidas sobre Michael. Que eu planejava trair a matilha e rejeitar sua marca.

Que eu queria me juntar a outra matilha e desonrar o nome da minha família.

E ela fez tudo isso tão perfeitamente—sua voz tremendo o suficiente para soar convincente. Suas lágrimas brotando o suficiente para parecerem honestas.

Foi brilhante e devastador.

Porque todos acreditaram nela.

Especialmente Michael.

Quando eu o confrontei, tremendo de raiva, ele nem me deixou falar.

“Você me enganou,” ele rosnou, sua voz desprovida de calor. “Enquanto eu planejava nosso futuro, você planejava escapar dele. Você realmente achou que eu não descobriria?”

“Michael, eu—”

“Você flertou com um guerreiro da fronteira sul! Achou que eu não notaria como você olhou para ele durante o banquete?”

“Do que você está falando? Isso nunca aconteceu!”

Ele não ouviu.

“Ela foi honesta comigo, Camilla,” ele disse, gesticulando para Caroline, que estava atrás dele com uma falsa tristeza.

“Ela me contou a verdade. Que você nunca esteve investida. Que eu era apenas um degrau para você alcançar algum posto mais alto em outra matilha.”

Meu peito arfava. “Isso não é verdade. Eu te amava, Michael, eu te escolhi.”

“Não,” ele disse friamente. “Você escolheu a ambição.”

E na frente de toda a matilha, ele se virou para longe de mim.

Ele pegou a mão de Caroline.

E a marcou.

A rejeição não foi falada em palavras. Não precisava ser.

Estava lá no seu silêncio. Na maneira como ele se recusava a encontrar meus olhos. Na maneira como ele permitiu que as mentiras de Caroline se tornassem verdade.

Eu deveria ter lutado mais. Eu deveria ter gritado, eu deveria ter jogado a verdade na cara deles.

Mas eu não consegui.

Porque quando as pessoas que você mais ama viram as costas para você, sua voz morre na sua garganta.

Então eu fiz a única coisa que pude fazer.

Eu saí, para a floresta profunda e perigosa.

A floresta estava silenciosa enquanto eu corria. Os galhos rasgavam minhas mangas, a vegetação rasteira arranhava meus tornozelos, e a lua me seguia como um fantasma.

Minhas lágrimas embaçavam tudo, mas eu não parava. Não me importava para onde estava indo, só sabia que precisava me afastar deles.

Da traição, da vergonha e das mentiras.

Minha loba uivava dentro de mim, não de raiva, mas de luto.

Ela tinha amado Michael. Ela o havia aceitado. E agora ela tinha sido descartada como um erro.

Desabei perto de uma margem de rio, o cheiro de pinho e musgo me envolvendo como um cobertor.

O frio penetrava em meus ossos. Minha respiração vinha em arfadas quebradas. Eu não tinha alcateia, não tinha família e não tinha companheiro.

A floresta agora era minha única companhia.

E a morte, talvez, seria minha próxima.

Mas a Deusa da Lua ainda não tinha terminado comigo.

Um farfalhar nas árvores.

O estalo de galhos.

Minha cabeça se ergueu, mas meus membros estavam fracos demais para lutar. Mal consegui me agachar em defesa antes de vê-lo.

Uma figura alta emergindo da escuridão profunda, ombros largos e músculos poderosos, seus olhos brilhando prateados na escuridão.

Seu cheiro me atingiu instantaneamente—terra, neve e algo antigo. Não era da Alcateia da Lua, não era familiar.

Perigoso e também dominante.

Um estranho.

Tentei falar, mas meus lábios mal se moviam. O mundo girou e minha visão ficou turva novamente.

A última coisa que vi antes de tudo escurecer foi o estranho ajoelhado ao meu lado, sua mão tocando meu rosto, e a voz profunda e rica que sussurrou: "Ela não é daqui... mas agora ela é minha."

Acordei com calor.

Cobertores macios, ao som de uma lareira crepitando. O cheiro de ervas selvagens e pomadas de cura.

Por um momento, pensei que estava sonhando.

Então abri os olhos—e percebi que não estava mais na Alcateia da Lua.

Esse lugar era diferente. As paredes eram feitas de madeira grossa, o ar era limpo. As janelas deixavam entrar a luz da manhã, e lá fora, eu podia ouvir o som distante de lobos treinando.

Alguém tinha me trazido aqui.

E então a porta se abriu.

Ele entrou como uma tempestade envolta em calma.

Alto e musculoso. Cabelos negros como a noite que caíam levemente sobre os olhos. E aqueles olhos—cinza-prateados como névoa sobre um lago de inverno—fixos em mim com uma intensidade silenciosa.

“Vejo que você está acordada,” ele disse.

Engoli em seco. “Onde... estou?”

“Você está no território da Alcateia de Prata,” ele disse. “Perto das montanhas do leste.”

O pânico me invadiu. “Eu não quis invadir—”

“Você não invadiu, eu te encontrei inconsciente, sozinha e sangrando. Eu te trouxe aqui.”

Sentei-me devagar. A dor atravessava minhas costelas, mas era suportável.

“Por quê?”

Ele inclinou a cabeça. “Porque ninguém merece ser deixado na floresta para morrer. Especialmente alguém que cheira a lealdade quebrada e despedaçada.”

Eu estremeci.

“Sua antiga alcateia te rejeitou.”

Não era uma pergunta.

Assenti uma vez. “Eles acreditaram nas mentiras da minha irmã. Meu companheiro marcou a irmã errada... e me deixou levar a culpa por isso.”

Ele me olhou por um longo tempo, como se tentasse ler uma linguagem escrita na minha pele.

Então, em um tom que carregava mais peso do que eu entendia, ele disse: “Tolos.”

Pisquei.

Ele se aproximou e estendeu a mão.

“Meu nome é Marcus,” ele disse. “Alfa da Alcateia de Prata.”

Alfa.

Meu coração disparou.

“Eu sou... Camila.”

“Eu sei.”

Ele me estudou por mais um momento. “Você não precisa falar sobre o que aconteceu. Não até estar pronta.

Mas você está segura aqui agora. Ninguém vai te questionar, ninguém vai te envergonhar.”

Lágrimas encheram meus olhos novamente—mas desta vez, não de dor.

De alívio.

Do primeiro sentimento de segurança que eu sentia em dias.

Peguei sua mão.

E naquele momento, algo mudou no ar.

Algo antigo, poderoso.

Ele sentiu também.

Seus olhos escureceram levemente enquanto ele inspirava, as narinas dilatando.

O ambiente ficou muito quieto.

“Você não é apenas uma loba qualquer,” ele murmurou, a voz rouca. “A Deusa da Lua tem suas mãos sobre você.”

Eu olhei para ele, tremendo.

E pela primeira vez desde que tudo desmoronou, uma centelha de esperança floresceu em meu peito.

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