Capítulo 1

Depois de renascer, a primeira coisa que eu e minha prima fizemos foi trocar os companheiros.

A Elena ficou emparelhada com Kaelen Thornfield — o Alfa mais frio que o Oeste já produziu. Cinquenta anos juntos e ele nunca a marcou. Nem uma vez. Ela existia na matilha dele como um fantasma com um título e nenhuma prova de que pertencia ali.

Eu? Eu fiquei presa ao Everett Calloway, um Beta que tratava o cartão da biblioteca com mais respeito do que a própria companheira. Ele achava que mulheres tinham que ser delicadas, falar baixo e servir de enfeite. Eu achava que ele devia aprender a dar um soco antes de me dar lição sobre feminilidade. A gente aguentou onze meses antes de ele se mudar pros arquivos da matilha e eu seguir com a minha vida.

Aí eu e a Elena acordamos com vinte e três de novo. E era a manhã dos nossos contratos de acasalamento.

Eu já tinha arrumado minha bolsa quando a Elena me encontrou.

— O que você está fazendo? — Ela encarou a bolsa de viagem em cima da minha cama.

— Trocando. — Fechei o zíper. — Eu vou pegar o contrato do Oeste. Você fica com o Everett.

— Roxy, você não pode simplesmente—

— Por que não? O acordo do vovô diz que uma neta Blackwell se une ao herdeiro Thornfield. Não diz qual delas. — Joguei a bolsa no ombro. — Você aguentou cinquenta anos num casamento congelado com aquele homem. Cinquenta anos, Elena. Sem marca, sem vínculo, sem filhos. Eu vi você sumir.

Os olhos dela ficaram vidrados. Ela sabia exatamente o que eu queria dizer. Nós duas lembrávamos.

— Ele é um Alfa — ela sussurrou. — Você é Beta. A matilha inteira vai te devorar.

— Ótimo. Eu mordo de volta.

— E tem aquela garota… a Liora. Ela é o motivo de eu— — A voz dela falhou.

— Eu sei quem ela é. — Peguei minhas chaves. — É exatamente por isso que tem que ser eu, e não você. Você é boa demais pra esse tipo de guerra. Eu não sou.

Ela segurou meu pulso.

— Roxy…

— Olha. Se der certo, ótimo. Se não der, eu rasgo o contrato e volto dirigindo pra casa. Nenhuma marca dura pra sempre se só um lado quer. Eu vou ficar bem.

Ela ficou em silêncio por um bom tempo. Então tirou o celular do bolso.

— O que você está fazendo?

— Transferindo pra você as minhas economias. — Os dedos dela deslizaram pela tela antes que eu conseguisse impedir. — Tudo.

— Elena, eu não preciso—

— Você vai atravessar o país sozinha pra assumir a vida que era pra me destruir. — Ela levantou os olhos. Estavam vermelhos, mas a voz saiu firme. — O mínimo que eu posso fazer é garantir que você tenha dinheiro pra gasolina.

Minha garganta apertou. Eu empurrei o celular de volta pra ela, mas a transferência já tinha sido concluída.

— …Você é irritantemente eficiente pra alguém que chora tanto.

Ela riu. Soou como alívio.

Isso foi dois dias atrás. Eu estava na estrada desde o amanhecer, minha caminhonete carregada com tudo o que eu tinha, vendo o Leste encolher no retrovisor.

Meu celular acendeu pela décima primeira vez. Mãe.

Coloquei no viva-voz.

— Roxanne Blackwell, você dá meia-volta com essa caminhonete agora mesmo, ou eu juro por Deus—

— Mãe, eu deixei um bilhete na geladeira.

— UM BILHETE? Você acha que um post-it compensa roubar o contrato de acasalamento da sua prima e fugir pro meio do nada? O que há de errado com você? Eu te criei melhor do que—

— Te amo, mãe. O sinal tá ruim aqui nas montanhas. Posso cair.

— Não ouse desligar na mi—

Eu desliguei.

A culpa pesou no meu peito como uma pedra. Ela me perdoaria uma hora. Provavelmente. Talvez depois que eu mandasse um presente de Natal bem caprichado.

Mas voltar não era uma opção. Não dessa vez.

Três dias dirigindo. As rodovias viraram estradas menores, as estradas menores viraram chão de terra, e o chão de terra deu lugar a nada além de floresta e silêncio. A trinta milhas do território de Cold Moon, a mangueira do radiador estourou.

Sem sinal. Sem guincho. Só eu e um motor arrebentado no meio do nada.

Quando finalmente consegui fazer funcionar de novo, eu estava com graxa até os cotovelos, diesel no cabelo e uma unha arrancada fora, limpa. Meu corpo inteiro doía e eu fedida como se tivesse saído rastejando de um ferro-velho.

A Elena teria uma crise de pânico aqui. Por outro lado, era por isso que ela estava segura em Ironveil com um homem que provavelmente a enrolaria em plástico-bolha se ela espirrasse.

E eu estava ali, cheirando a posto de gasolina, prestes a conhecer o Alfa mais poderoso do Oeste.

Ótima primeira impressão, Roxy.

Eu estava sentada no capô da caminhonete no posto de controle da fronteira da matilha, com as pernas balançando, os braços manchados de graxa preta. Dois sentinelas me observavam de seus postos. Nenhum dos dois tinha dito uma palavra desde que eu apareci e anunciei que era a companheira arranjada do Alfa deles.

Eu não podia culpá-los. Eu provavelmente parecia que tinha perdido uma briga com um bloco de motor.

Minha loba se mexeu por dentro — inquieta, alerta. Território novo. Matilha desconhecida. Recepção hostil garantida.

Então vem.

Eu estava limpando a graxa dos antebraços com um pano quando uma voz veio flutuando do portão. Aguda, soprosa, pingando nojo.

— Kaelen, que cheiro horrível é esse? Parece graxa de motor e— meu Deus, isso é suor?

Eu levantei o olhar.

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