Capítulo 2

Uma Ômega estava parada no portão, beliscando o próprio nariz, encostada no homem ao lado como se ele fosse um escudo contra o meu cheiro.

Olhei para o homem em quem ela se agarrava. Alto. Largura de parede. Rosto talhado em granito — com mais ou menos a mesma quantidade de calor.

Então esse era o herdeiro de Thornfield. O futuro candidato a Lycan. O mesmo que deixou minha prima apodrecer por cinquenta anos.

Saltei do capô da caminhonete, peguei minha bolsa de viagem e passei direto pela Ômega, como se ela fizesse parte da paisagem.

— Thornfield. — Parei na frente dele e estendi o contrato de acasalamento. — Roxy Blackwell. Matilha do Leste. Lê, assina e me aponta um chuveiro. Tô na estrada há três dias e tô com cheiro de pneu queimado.

Ele pegou o contrato. Não disse nada. Os olhos dele foram do papel para mim.

Nada.

Atrás de mim, a voz da Ômega tremeu:

— Kaelen... ela é sempre tão mal-educada assim?

Não me virei.

— Querida, eu nem comecei.

Joguei a bolsa no ombro e fui em direção ao portão sem esperar resposta. Se ele viesse atrás, ótimo. Se não viesse, eu mesma encontrava o maldito chuveiro.

Dez segundos depois, passos atrás de mim. Olhei de lado. Kaelen, carregando minha segunda bolsa, a mesma expressão vazia. Nem uma palavra.

Maravilha. Uma parede muda com pernas. Não é à toa que a Elena passou cinquenta anos sufocando. Liora fazia a passarinha ferida, Kaelen fazia o mudo, e Elena — orgulhosa, doce Elena — nunca teve chance.

Mas eu não fico quieta. Se tem problema, eu grito do alto do telhado. E se gritar não funcionar, eu tenho punhos.

O contrato de acasalamento já tinha sido registrado antes de eu chegar — meu avô tinha garantido isso. Dois dias depois, a Matilha Lua Fria fez uma cerimônia pra gente.

Os pais de Kaelen já estavam mortos há muito tempo. Os meus estavam a um continente de distância e ainda furiosos. Os convidados eram todos lobos da matilha que eu nunca tinha visto. Mesmo assim, alguém pendurou lanternas na linha das árvores e outra pessoa trouxe assado de alce o bastante pra alimentar um exército.

Quase parecia de verdade.

— Tô com tanta inveja da Roxy.

A voz da Liora flutuou por cima da multidão. Suave. Trêmula. Perfeitamente no tempo.

— Um contrato antigo de família, e ela vira companheira do Kaelen. Ela tem muita sorte. — A respiração dela falhou. — Diferente de mim...

As risadas morreram. As conversas pararam no meio. Todo lobo na clareira se virou pra olhar — primeiro pra ela, depois pra mim.

Liora estava com o rosto meio enterrado nas mãos, os ombros tremendo. A própria imagem da dor.

Na nossa última vida, esse mesmo teatrinho destruiu a Elena. As lágrimas. A cena pública. A culpa silenciosa que fazia minha prima sentir que tinha roubado algo que nunca foi dela.

Dessa vez, não.

Minha loba avançou antes de eu pensar duas vezes. Dei um passo à frente, agarrei Kaelen pela gola e beijei ele. Com força.

Então recuei só o suficiente pra mostrar meus caninos — e afundei os dentes na lateral do pescoço dele.

A clareira ficou muda. Todo mundo encarou. Uma Beta tinha acabado de marcar o Alfa mais forte dos territórios do oeste. Na própria cerimônia de acasalamento. Sem pedir.

Afastei, lambi o sangue do meu lábio e me virei pra encarar Liora. Ela estava congelada, as lágrimas ainda molhando as bochechas, a boca aberta.

— A questão das marcas é a seguinte. — Toquei o ferimento recém-aberto no pescoço de Kaelen. — Elas não são dadas. São tomadas. E eu acabei de tomar a minha.

Me encostei em Kaelen, uma mão no peito dele, e sorri docemente pra ela.

— Chora à vontade, querida. Mas se você vai chorar na cerimônia de acasalamento dos outros por causa do companheiro dos outros... pelo menos traz um lenço.

O rosto de Kaelen não mudou. Mas as orelhas dele estavam pegando fogo.

A multidão explodiu em cochichos. Eu não liguei. Deixa falarem. Todo lobo ali viu minha marca no pescoço dele. Era a única declaração que importava.

Liora enxugou os olhos, puxou um ar trêmulo e olhou pra Kaelen com aquela expressão de cervinha ferida.

— Eu tô feliz por você. De verdade. — Ela juntou as mãos. — É que... amanhã é o aniversário. A morte dos meus pais. O meu aniversário. O dia que a gente sempre honra juntos. — Ela engoliu em seco. — Eu já preparei tudo no memorial. Você não precisa ir se... se a sua companheira não quiser. Eu dou conta sozinha.

Eu dou conta sozinha. E, assim, todo par de olhos na clareira caiu em cima de mim.

O maxilar de Kaelen travou.

— Eu vou estar lá.

Minha mão, ainda na cintura dele, se fechou num punho. A marca que eu tinha acabado de deixar latejou na minha consciência.

E então eu arremessei ele.

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