Capítulo 3

Ele bateu no chão de costas, estatelado. Ninguém se mexeu.

Eu encarei ele de cima, respirando pesado.

— Você não me marcou de volta. A cicatriz não vai durar. Quer ir brincar de velório com ela? Tá bom — ainda dá pra desfazer isso tudo. Eu nem mordi tão forte.

Na vida passada, essa mesma cena — o memorial, as lágrimas, a chantagem emocional — foi o começo dos cinquenta anos de silêncio da Elena. O instante em que Kaelen escolheu os sentimentos da Liora em vez da própria companheira e nunca mais voltou disso.

Eu não sou a Elena. Ela engolia esse tipo de coisa e sorria por cima da dor. Eu não consigo. Nem um pouco.

A voz da Liora cortou o silêncio.

— Você nem pediu permissão pra marcar ele! E agora ainda joga ele no chão como se fosse um boneco? — Ela deu um passo à frente, o queixo tremendo, os olhos em brasa.

— Que tipo de companheira faz isso? Você é uma estrangeira — uma Beta — quem você acha que é?

Alguns lobos na multidão murmuraram, concordando. Eu senti a maré virar.

Então Kaelen se levantou. Sacudiu a terra do ombro. Passou reto pela Liora.

Ele parou na minha frente e pegou minha mão.

— Ela me marcou porque eu quis. — A voz dele ecoou pela clareira. — E eu pretendo marcar ela de volta.

Ele olhou para a Liora. — Amanhã, você vem com a gente.

O rosto dela desabou. Ela levou as mãos à boca e saiu correndo.

A mão de Kaelen apertou meus dedos. Ele se inclinou, baixando a voz até quase um sussurro. — Vamos terminar a cerimônia. Eu explico tudo hoje à noite.

Eu não puxei minha mão. Mas também não me aproximei.

O resto da cerimônia passou como um borrão. Lobos vinham nos parabenizar. Alguns calorosos. Alguns duros, engessados. Eu não sorri para nenhum.

Quando a porta do quarto de união finalmente se fechou atrás de nós, eu dei um tapa na mesa. Forte.

— Vamos deixar uma coisa bem clara. Eu acabei de pôr minha marca em você na frente da sua alcateia inteira. Isso não foi brincadeira.

Eu me virei para encarar ele. — Se você é o tipo de Alfa que carrega a marca de uma mulher e corre pro lado de outra, me diz agora. A cicatriz ainda tá recente. Ela fecha em uma semana. Eu volto pro Leste antes do vínculo pegar de vez.

— Você não vai embora.

— Como é?

— Eu disse que você não vai embora. — Ele sentou na beirada da cama e esfregou a nuca — bem onde estava a minha marca. — Eu fui soldado a vida inteira, Roxy. Eu dou ordens, eu obedeço ordens, eu não... falo de sentimentos.

Ele ergueu os olhos para mim. — Mas eu deixei você me marcar hoje à noite porque eu quis. Não por dever. Não por causa do contrato. Porque eu olhei pra você e alguma coisa no meu lobo disse — ela.

Meu coração bateu com força contra as costelas. Eu cruzei os braços mais apertado.

— Seu lobo tem um péssimo julgamento. Eu te joguei de costas faz dez minutos.

A boca dele repuxou. Quase um sorriso. — Eu sei. Foi aí que caiu a ficha.

— ...Eu tenho pavio curto. Curto de verdade. E eu não sei ser sutil. Se tiver algo errado, eu não vou dar indireta — eu vou arrombar a porta. Você tem certeza de que quer isso na sua vida?

— Tenho.

A certeza na voz dele fez meu rosto esquentar. Eu odiei isso.

Eu não lembro quem se mexeu primeiro. Num segundo eu estava de braços cruzados; no seguinte, a mão dele estava na minha cintura e meus dedos estavam agarrados na frente da camisa dele.

As presas dele roçaram meu pescoço. Eu senti as pontas afiadas pressionarem bem no meu pulso — sem furar a pele. Esperando.

— Me manda parar — ele murmurou — e eu paro.

Eu puxei ele mais pra perto. — Eu mandei parar?

BAM. BAM. BAM.

— Alfa! A Liora deixou um bilhete — ela diz que tá indo pra Silverfall!

Kaelen enrijeceu. As presas se afastaram da minha pele.

Mais cinco segundos e o vínculo teria sido real. Permanente.

E ela roubou esses cinco segundos.

— Você ia me marcar. — Minha voz saiu baixa, dura. — Mais cinco segundos. E você vai sair por aquela porta. Por ela. De novo.

Ele parou com a mão no batente da porta. De costas pra mim. Eu via a tensão nos ombros dele — preso entre duas forças.

— É Silverfall, Roxy. Se ela realmente for praquele penhasco e—

— Então manda outra pessoa. Você tá prestes a virar Lycan e não consegue delegar uma equipe de busca?

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