Capítulo 1 Mia

Mia

— Me manda mensagem quando chegar em casa — diz Kaitlyn, por cima do trovão abafado do baixo que vaza do clube atrás de nós.

Ergo a mão num cumprimento preguiçoso. — Sim, mãe.

Ela estreita os olhos para mim, o que funcionaria melhor se o delineador não estivesse borrado e o cabelo não estivesse grudando no gloss. — Estou falando sério, Mia.

Ao lado dela, Isabel já está meio dentro do Uber, um salto no carro, o outro ainda fincado na calçada. — Tem certeza de que não quer vir com a gente? Você pode dormir lá em casa.

— Tenho.

— Está tarde — diz Kaitlyn.

Olho para o céu, como se isso pudesse ajudar meu argumento. Está tarde, mas a noite está limpa e quente, a cidade lavada por postes prateados e pelo calor que sobrou do verão. O tipo de noite que faz tudo parecer mais suave do que é.

— Eu estou bem — digo a elas. — Meu carro está só a alguns quarteirões.

A boca de Kaitlyn se torce. — Alguns quarteirões no centro às duas da manhã.

— Eu não bebi tanto.

— Você tomou dois drinques.

— Exatamente. E a caminhada vai tirar o resto antes de eu dirigir para casa.

Isabel se inclina do banco de trás, o rosto surgindo entre Kaitlyn e a porta aberta. — Fica lá em casa. A gente pede batata frita.

Quase me convence.

Quase.

Mas aí eu penso no abrigo de animais amanhã de manhã, no turno cedo para o qual eu me voluntariei feito uma idiota, porque o Bruno, o bulldog de três patas, só deixa eu limpar a baia dele sem agir como se estivesse sendo levado para a guerra. Penso em acordar na minha própria cama, tomar banho no meu próprio banheiro, vestir um jeans velho e sair antes mesmo de o resto da casa estar acordado.

— Não dá — digo. — Tenho o abrigo cedo amanhã.

Sorrio e dou um passo para trás, afastando-me do meio-fio. — Vejo vocês duas na escola na segunda.

Kaitlyn aponta para mim. — Mensagem. Pra. Mim.

— Vou mandar.

Ela ainda parece pouco convencida, mas o motorista do Uber olha pelo retrovisor como quem está se perguntando se a gente pretende ter essa conversa inteira no tempo dele. Por fim, Kaitlyn suspira e entra.

— Te amo! — Isabel grita.

— Também te amo.

A porta do carro se fecha. Eu aceno enquanto elas se afastam, os rostos iluminados por um instante pelo azul do celular de Kaitlyn antes de o Uber entrar no trânsito e sumir na esquina.

Por um segundo, eu só fico ali parada.

O clube pulsa atrás de mim, só calor, corpos e música alta demais para pensar. As pessoas transbordam para a calçada em grupinhos brilhantes, rindo alto demais, se apoiando umas nas outras, fumaça de cigarro se enrolando em ombros nus e jaquetas de couro. Alguém grita chamando um amigo. Alguém derruba um celular e xinga.

Sons normais.

Noite normal.

Puxo a bolsa mais para cima no ombro e começo a andar.

Meu carro está estacionado numa rua lateral a alguns quarteirões dali, porque, claro, eu recusei manobrista; porque, claro, eu insisti que era uma pessoa normal, que conseguia achar vaga como todo mundo. Essa decisão pareceu independente três horas atrás.

Agora meus pés doem e minha cabeça está leve — não exatamente bêbada, só cansada e quente e pronta para a minha cama.

As ruas vão ficando mais vazias quanto mais eu me afasto do clube. O barulho vem em bolsões. Uma explosão de risada do lado de fora de um bar. Música vibrando através de paredes de tijolo. O tilintar de vidro em algum lugar atrás de um restaurante. Depois silêncio de novo, fundo o bastante para eu ouvir meus saltos batendo no asfalto.

Desbloqueio o celular para ver a hora.

2h07.

Ótimo.

Meu pai surtaria se soubesse que eu estou andando sozinha pelo centro a essa hora.

Na verdade, não. A assistente dele surtaria, depois contaria para ele, e aí ele mandaria uma mensagem vaga com pontos de exclamação demais e provavelmente deixaria um carro de aplicativo parado na porta de casa pelo próximo mês.

Enfio o celular de volta na bolsa e penso em colocar os fones. Por um segundo, quase sinto o alívio da música preenchendo o silêncio, de desaparecer em algo familiar pelo último quarteirão.

Então olho por cima do ombro.

A rua atrás de mim está vazia.

Ainda.

Melhor não.

É uma cidade segura. Na maior parte.

Mas, segura ou não, ainda são duas da manhã no centro.

Continuo andando.

A próxima esquina deve me levar à rua onde estacionei. Já estou imaginando meu carro esperando sob o brilho amarelo de um poste, já visualizando o trajeto silencioso até em casa, a mansão vazia, as luzes da cozinha deixadas acesas pela equipe da limpeza.

Viro à direita.

E paro.

Esta não é a rua.

Por um segundo, meu cérebro se recusa a processar isso. Ele me oferece paredes de tijolo, lixeiras transbordando, asfalto úmido, as costas sombreadas dos prédios. Um beco. Estreito, mal iluminado e completamente errado.

Solto o ar e quase rio.

“Idiota”, murmuro.

Estou prestes a me virar quando ouço.

Um som baixo, falho.

Não exatamente uma voz.

Um grunhido.

Meu corpo fica imóvel.

O beco parece prender a respiração comigo.

Eu devia ir embora. Esse é meu primeiro pensamento, agudo e imediato. Virar, ir embora, chegar à avenida principal, encontrar outra pessoa.

Então vem de novo.

Um som molhado, forçado, mais adiante.

“Alô?”, chamo.

Nenhuma resposta.

Meu pulso começa a acelerar.

Dou um passo à frente, depois outro. O salto do meu sapato prende numa rachadura do asfalto, e eu me seguro na parede de tijolos para me equilibrar. O beco cheira a água de chuva, lixo e alguma coisa metálica que não consigo identificar.

Então eu vejo.

No começo, ele é só uma forma no chão.

Um homem, dobrado de um jeito estranho perto da entrada dos fundos de um prédio, um braço apoiado no asfalto como se tivesse tentado se arrastar e não tivesse ido longe. A jaqueta escura está aberta. O cabelo está úmido na testa. Ele não deve ser muito mais velho do que eu.

“Meu Deus.”

Corro até ele antes que eu consiga pensar melhor.

“Você está bem?”

Pergunta idiota. Pergunta horrível.

Ele levanta a cabeça, e é aí que eu vejo a poça embaixo dele.

Escura.

Se espalhando.

Escura demais para ser água.

Meu estômago despenca tão rápido que quase tropeço.

“Meu Deus”, sussurro de novo. “Meu Deus. Tá. Não se mexe. Vou ligar pro 190.”

Tateio atrás do celular, meus dedos de repente inúteis. Tremem tanto que quase deixo a bolsa cair. A tela acende brilhando demais no escuro, borrando através do pânico nos meus olhos.

O homem solta um som áspero e segura meu pulso.

A mão dele está escorregadia.

Quente.

Eu congelo.

“Corre”, ele rouqueja.

Eu encaro. “O quê?”

O aperto dele se fecha, desesperado e fraco ao mesmo tempo. “Corre.”

“Não. Não, você precisa de ajuda. Vou chamar alguém.”

“Por favor.” Os olhos dele encontram os meus, arregalados, vidrados e apavorados. “Corre.”

O medo na voz dele rasteja direto por baixo da minha pele.

Meu polegar treme sobre a tela. Aperto o botão de chamada de emergência uma vez, aí erro, aí aperto de novo. Minha respiração está alta demais. Meu coração está alto demais. Tudo está alto demais, menos o beco.

O beco está em silêncio.

Até que uma voz atrás de mim diz: “Eu não faria isso se fosse você.”

O celular escorrega da minha mão.

Bate no asfalto com um estalo seco.

Eu me viro.

Na boca do beco, meio engolido pela sombra, um homem está parado, perfeitamente imóvel.

Por um segundo horrível, minha mente tenta torná-lo comum. Só alguém passando. Só alguém que me ouviu. Só alguém que pode ajudar.

Então a luz pega na faca na mão dele.

Sangue pinga da lâmina no asfalto.

Uma vez.

Duas.

O homem inclina a cabeça.

E sorri.

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