Capítulo 3

Fiquei no Bunker Zero, a duzentos pés de profundidade, até o décimo dia.

Minha rotina era impecavelmente disciplinada. Quatro horas de treinamento físico por dia, duas horas desmontando e polindo minhas armas de fogo. O resto do tempo eu passava sentado diante da matriz de vigilância, observando, passo a passo, a base de quatro mil pessoas lá em cima descer à paralisia total.

Nos primeiros dias, os civis se deleitaram na pura e simples euforia de dormir até tarde todas as manhãs, sem exceção.

Mas o consumo de recursos era brutalmente real.

No quinto dia, as rações de reserva já tinham sido completamente desperdiçadas. As bombas d’água da fazenda hidropônica entupiram gravemente porque ninguém se deu ao trabalho de limpá-las, e mais de dois terços das plantações murcharam e morreram, arruinando colheitas inteiras.

No décimo dia, uma crise de verdade explodiu.

Às 10h, mais de mil pessoas invadiram a praça central.

— Não recebemos rações há três dias! Cadê a carne que vocês prometeram?!

— Por que vocês estão mandando a gente desentupir os esgotos de novo? O que aconteceu com a nossa liberdade?!

A multidão empurrava e se acotovelava com violência contra os guardas. Faltou um triz para aquilo virar um motim em larga escala.

Marcus estava na varanda da sala de controle, com um megafone na mão, tentando desesperadamente acalmá-los. Mas, no fim, sob uma saraivada de fúria, recuou covardemente para dentro.

Toquei um botão e mudei a imagem da câmera para o interior da sala de controle principal.

Elena estava ao lado de Marcus, tão em pânico e inquieta quanto ele.

— Não dá para obrigar eles a trabalhar nas fazendas — Marcus cerrou os dentes, ofegando. — Se eu mandar os guardas apontarem armas e enfiar todo mundo no campo agora, em que eu sou diferente do Gideon? Essas pessoas me jogam da varanda num piscar de olhos.

— Mas não tem mais comida! Alguém tem que limpar as fazendas, e um pedaço do muro externo desabou ontem e ninguém foi nem consertar. A gente precisa achar pessoas dispostas a trabalhar.

Marcus andava de um lado para o outro pela sala. Alguns minutos depois, o olhar dele se prendeu ao equipamento de transmissão sobre a mesa.

— A gente precisa de sangue novo — Marcus encarou Elena. — Muito. Gente tão desesperada que vai ficar feliz em tirar a imundície dos esgotos e remendar o arame farpado por uma única tigela de sopa mofada.

— O pessoal aqui dentro não vai fazer isso. Eles acham que agora são heróis intocáveis — disse Elena.

"Se o pessoal aqui dentro não fizer, o pessoal lá de fora vai fazer." Marcus se aproximou do console. "Tem uma porrada de refugiados vagando por aí. Estão a um passo de morrer de fome. Se a gente só der um teto pra eles, eles fazem qualquer coisa que a gente mandar. E ainda vai mostrar praqueles idiotas fazendo baderna na praça que a gente está salvando vidas, que está fazendo a coisa certa."

Sentado no meu bunker, acendi um charuto.

Para resolver um conflito interno que ele mesmo tinha criado, ele estava perfeitamente disposto a introduzir elementos incontroláveis e extremamente perigosos, embrulhando tudo com cuidado como se fosse um grande ato de benevolência.

Naquela tarde, Marcus acessou todas as frequências de rádio públicas num raio de cinquenta milhas.

Na transmissão, anunciou com ousadia: "A Base Blackstone derrubou sua ditadura! Estamos abrindo oficialmente nossas portas a todos os irmãos e irmãs que sofrem."

Ao anoitecer.

Uma fila de faróis surgiu no lado oeste da base.

Era um comboio de três caminhões surrados, parando bem em frente ao primeiro portão de segurança de aço da base.

Cerca de sessenta refugiados sujos de fuligem e famintos se espremeram para fora dos veículos.

O capitão da guarnição no portão era Razor. Nos últimos dias, tinham deliberadamente deixado ele de lado, relegando-o a cuidar de registros básicos de entrada.

No monitor, Razor conduziu oito guardas para fora do posto avançado. "Todo mundo em fila, duas fileiras, com as mãos atrás da cabeça! Sigam para a zona de inspeção para revista íntima. Quem não tiver arranhões vai ser mandado para o bloco de quarentena à direita, para isolamento obrigatório de quatorze dias!"

Razor caminhou pela fila, fuzil em punho. Por fim, parou perto da traseira de um dos caminhões.

Ali estava uma mulher, agarrando com força uma menininha que parecia ter sete ou oito anos. A garota estava encolhida dentro de um casacão de inverno e um cachecol grosso, tremendo violentamente, colada à mãe.

Razor percebeu na hora que havia algo errado. Ele foi até lá a passos firmes e usou o cano da arma para empurrar o braço da mulher para o lado. "O que ela tem?"

"Ela está com febre... é só um resfriado normal!" A mãe tentou, em pânico, proteger o pescoço da menina.

Razor não perdeu tempo discutindo. Esticou a mão e arrancou com violência o cachecol do pescoço da garota, revelando um arranhão evidente, incontestável, cujas bordas já começavam a escurecer.

Clac.

Razor engatilhou o fuzil na mesma hora, pressionando o cano contra o crânio da menina. "Todo mundo para trás! Alvo infectado identificado. Execução imediata no local!"

A mãe soltou um grito e caiu de joelhos, agarrando-se à coxa de Razor como se a vida dependesse disso.

— Ela não foi arranhada por um zumbi! Ela mesma se arranhou ontem à noite por causa de uma alergia! É só isso!

Razor olhou para baixo, completamente impassível.

— Esse chororô não cola comigo. Você tem ideia de quantas pessoas infectadas eu já vi?

No instante em que Razor ia apertar o gatilho, um jipe freou cantando pneus bem em frente aos portões.

Marcus e Elena saltaram. Marcus avançou, agarrou o pulso de Razor e empurrou o fuzil para baixo com violência.

— Que porra você acha que está fazendo?! Ela é só uma criança! — Marcus rugiu.

— Ela foi arranhada por um zumbi. — Razor apontou para o ferimento enegrecido. — Você deixa ela entrar e, além de não conseguir um pingo de trabalho com isso, cada pessoa nesta base vai morrer.

— Não vem me dar lição com as regras de sangue-frio do Gideon! — Marcus se virou, gritando para os civis que assistiam do alto das muralhas. — Nós não somos mais bárbaros! Isto é uma vida humana!

Razor deu um passo duro à frente, fincando-se bem no centro do vão do portão.

Pá!

Marcus estapeou Razor com brutalidade no rosto. Um fio de sangue brotou imediatamente do canto da boca de Razor.

— Eu sou o líder aqui! — Marcus puxou a arma lateral e a pressionou direto contra o peito de Razor. — Você está dispensado do serviço. Entregue sua arma e vá para trás. Eu assumo daqui.

Elena avançou e se agachou, enfiando um doce no bolso da menininha. Ela lançou a Razor um olhar de puro nojo.

— Você é tão repugnante quanto o seu mestre tirano morto. Não ouviu a mãe dela? É só uma alergia que ela coçou e arranhou. A base tem antibiótico de sobra.

Razor limpou o sangue da boca, jogou o fuzil na terra e se virou. Bem antes de sair do alcance da câmera, ergueu o queixo e lançou um olhar para a lente encaixada no canto superior esquerdo. Mesmo sem poder me ver, eu ainda assenti, aprovando.

Saboreando sua vitória duramente conquistada, Marcus se virou de novo e acenou com grandiosidade para os refugiados.

— Bem-vindos à Base Blackstone! Nada de quarentena — é só pegar a bagagem e entrar direto!

Na transmissão, os sessenta refugiados passaram pelos portões da base como uma barragem rompida.

A mãe, carregando a menina infectada, curvou-se várias vezes diante de Marcus ao cruzar o limiar.

Marcus acomodou todo esse grupo de refugiados diretamente na área interna mais densamente povoada da base — o ginásio central da Zona C.

A noite caiu pesada.

Metade da base mergulhou na escuridão absoluta por falta total de combustível para os geradores.

1h15.

Na tela três, o piso do ginásio estava tomado de ponta a ponta por refugiados dormindo profundamente.

Na imagem térmica infravermelha, a temperatura corporal da garotinha despencou de uma febre altíssima para um azul completamente frio, sem vida — tudo em questão de cinco minutos.

Imediatamente depois, o corpo dela se ergueu num tranco, como uma mola retesada. Sem soltar um único grito, a menina avançou e mordeu, atravessando com facilidade a artéria carótida da mãe adormecida ao lado.

No exato mesmo momento, na tela dois, lá na torre residencial da Zona D, o homem que fora liberado da quarentena dez dias antes com um arranhão no pescoço finalmente parou de respirar quando a falência total dos órgãos o atingiu.

Meio minuto depois, ele se levantou com ângulos horrivelmente retorcidos e se jogou com violência sobre a esposa.

Um surto em múltiplos pontos. Zero aviso prévio.

2h00.

As luzes se acenderam no segundo andar do prédio de controle mestre.

Marcus se sentou na cama, visivelmente irritado.

Ele ouviu barulhos fracos e caóticos de pancadas e coisas se quebrando ecoando lá de fora.

Simplesmente presumiu que era a multidão furiosa de mais cedo, protestando a falta de rações e quebrando coisas de novo.

Ele jogou o cobertor para o lado, vestiu depressa um sobretudo elegante e o abotoou com cuidado. Elena esfregou os olhos e o seguiu, sonolenta.

— Não se preocupe, nós trouxemos os refugiados; agora temos gente para fazer o trabalho pesado — disse Marcus, ajeitando a gola. — Eu resolvo isso. Só preciso fazer umas promessas novas, e eles voltam quietinhos e fecham a boca.

Escoltado por quatro guarda-costas recém-acordados, Marcus desceu as escadas com confiança e atravessou o saguão do térreo.

— Senhor, o barulho lá fora não parece certo — murmurou um dos guardas, a expressão se contraindo.

— Abaixe as armas. Violência só vai escalar um conflito por nada. Eles não teriam coragem de me machucar.

Marcus caminhou direto até o pesado conjunto de portas da frente, trancadas.

Eu conseguia ver com nitidez cristalina pela vigilância em visão noturna — aquilo não eram civis protestando bem ali do lado de fora. Era um enxame faminto de zumbis.

Marcus estendeu a mão e, confiante, segurou a maçaneta.

A porta se abriu.

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