Capítulo Um

Depois da grande explosão, eu me escondi no bunker por três anos.

Nunca vou esquecer o som daquele dia — como se uma cidade inteira fosse partida ao meio. As paredes tremeram, o teto soltou poeira, meus ouvidos se encheram de um zumbido.

No segundo seguinte, Mike me puxou com força do chão do escritório.

— Anda! Agora!

Eu tentei voltar para pegar meu laptop e os contratos, mas ele me impediu.

— Pra que você quer esses papéis? Quer viver ou não? — xingou ele.

Quando a porta do bunker se fechou, ouvi alguém gritando lá fora, como um pássaro sendo engolido por uma onda de calor.

No começo, ainda dava para ouvir chamados de socorro dispersos no rádio de ondas curtas.

— No centro... tem alguém aí?

— A gente tá no... estacionamento subterrâneo... ar...

As vozes vinham e iam, como um rádio morrendo. Mike apertou o botão do dial, o rosto duro como pedra. Ele nunca me deixava falar, só ouvir.

— Não responda — disse. — Se responder, eles rastreiam o sinal. Gente é mais perigosa do que radiação.

Depois, até o rádio ficou em silêncio.

A única coisa que ainda conseguia atravessar essa parede era o sinal sem fio da minha namorada, Lena.

Ela estava perto, em outro bunker de reserva. Nós dois nos contatávamos em horários marcados. Toda noite, às nove em ponto. Nem um segundo a mais. A voz dela chegava primeiro com um pouco de chiado elétrico e, depois, aquela risadinha leve de sempre.

— Arthur, você tá bem?

Toda vez que eu ouvia Lena, eu sentia como se ainda não tivesse sido enterrado vivo.

Ela sempre usava o tom mais leve possível para descrever a situação dela:

— Hoje os canos vazaram de novo. Enrolei fita neles três vezes, como se estivesse pondo um curativo.

Mas ela nunca reclamava, mesmo com as condições piores.

Só acrescentava no final:

— Amor, você tem que ficar vivo.

Eu sabia que ela fazia isso para me manter de pé.

E, do meu lado... falando bem cruamente, eu era tipo um perdedor bem cuidado até demais.

Mike era ex-forças especiais, musculoso e eficiente.

Depois da explosão, era sempre ele que subia à superfície para procurar suprimentos.

Ele disse que a cidade tinha virado ruína, o vento cheio de pó de vidro.

Mas ele voltava a cada dois dias, trazendo enlatados, rações secas, comprimidos, cartuchos de filtro e, uma vez, ele até trouxe duas caixas de chocolate. Quase chorei naquele dia.

— Você tem sorte — disse Mike, jogando as coisas na mesa com uma risada despreocupada. — Tem a mim.

Eu quis agradecer incontáveis vezes, mas aquelas duas palavras eram leves demais, leves demais para combinar com o peso do que ele trazia de volta.

Hoje ele voltou ainda mais tarde.

A trava da porta externa fez um “clique”, e eu quase me levantei por reflexo.

Mike largou a mochila e puxou uma lata.

O lado de fora estava coberto de poeira; o rótulo, enrolado nas bordas; impresso com texto em inglês; a data de fabricação, vencida havia muito tempo.

Ele bateu na lata com os nós dos dedos, fazendo um “toc” surdo.

— Ensopado de carne com feijão. — Ele ergueu os olhos para mim. — Vencido, mas dá pra comer. A Lena não quis, disse que seu estômago é fraco, queria guardar pra você.

Ele empurrou a lata na minha direção, num tom casual, mas aquilo pareceu um soco no meu peito.

Fiquei encarando a lata, mas, na minha cabeça, estava o rosto da Lena. Ela claramente estava lidando com infiltrações e frio do lado dela e, ainda assim, pensou em guardar “as coisas boas” para mim.

— Ela... tá bem? — perguntei.

Mike parou por um instante e então deu de ombros.

— Como sempre.

Assenti, tentando engolir aquela sensação azeda.

Mas eu ainda não consegui segurar. Baixei a cabeça.

— Mike, se não fosse por você...

— Não começa com isso. — Ele me cortou, com um tom decidido. — Come.

Naquele instante, eu até me senti com sorte. A explosão destruiu tudo, mas eu ainda tinha um irmão, ainda tinha uma namorada.

De repente, um grito explodiu no rádio.

— Ah—!

Saltei da cadeira e corri até o console, os dedos tremendo enquanto eu apertava o botão de transmissão.

— Lena? Lena, o que foi? Me responde!

Primeiro veio uma respiração acelerada, depois uma voz engasgada de choro.

— Um rato... ele tá me mordendo! Arthur, ele tá mordendo meu pé!

Minha mente ficou em branco, o sangue subindo à cabeça.

Em três anos, foi a primeira vez que eu a ouvi tão fora de si.

Virei e alcancei a roupa de proteção.

Mike se levantou e agarrou meu pulso. A força dele era assustadora, me puxando de volta para onde eu estava.

— Você enlouqueceu? — ele me encarou. — Você dá um passo lá fora e morre.

— Ela tá sendo mordida! — Eu cerrei os dentes, a voz rouca. — Eu não posso...

— Não pode o quê? — Mike me empurrou para trás, me obrigando a encarar os olhos dele. — Você vai lá fora, você morre. Você morre, ela também não aguenta.

Eu arfava como se alguém estivesse pressionando meu peito.

Mike me soltou, pegou a mochila de saída na parede; os movimentos tão rápidos que parecia ter ensaiado aquilo incontáveis vezes.

— Eu vou — ele disse.

Eu congelei.

— Você já saiu hoje, e vai sair de novo...

— Cala a boca. — Mike puxou a alça para o ombro, num tom que não deixava espaço para discussão. — Eu sou mais indicado pra isso do que você.

Mike enfiou o fone do walkie-talkie no ouvido, foi até a porta pesada, colocou a palma da mão no painel de destravamento e olhou de volta para mim.

Aquele olhar não tinha reclamação — só uma aceitação simples, objetiva, da responsabilidade.

— Arthur — ele disse, baixo. — Não vai se deixar morrer. Enquanto você estiver vivo, a gente ainda tem esperança.

No momento em que a porta se fechou, o bunker mergulhou em silêncio.

Voltei para o rádio e apertei com força o botão de transmissão.

— Lena, escuta. O Mike tá indo. Levanta o pé, arruma alguma coisa pra bloquear, não entra em pânico.

A resposta dela, entre lágrimas, veio chiada.

— Eu sei... eu sei... Arthur, não sai.

Fechei os olhos, os nós dos dedos brancos de tanto apertar.

Em três anos, Mike correu pela superfície, Lena resistiu na escuridão — e os dois sempre me colocaram em primeiro lugar.

Eu tinha dado tão pouco e, mesmo assim, recebido demais.

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