Capítulo dois

Quando o intertravamento da porta externa soou, eu estava encarando a parede, sem expressão.

“Clique—clique—”

Duas vezes, uma pausa de meio segundo, depois um rebote mais pesado.

Aquele não era o ritmo normal de retorno.

Meu coração afundou quando corri até a janela de observação. No segundo seguinte, a figura de Mike surgiu cambaleando à vista.

Ele estava praticamente arrastando os pés.

O ombro direito do traje de proteção estava rasgado, como se tivesse enganchado em alguma coisa e sido arrancado.

A proteção do cotovelo esquerdo estava rachada, e sangue escorria de dentro, escuro e espesso.

Senti a garganta travar enquanto me atrapalhava para abrir a trava de isolamento da porta interna.

“Mike!” Corri para ampará-lo. “Como foi que você—”

Ele ergueu a mão e a pousou no meu ombro; o aperto ainda era forte, empurrando-me um passo para trás.

“Não chegue muito perto.” Ele respirava com dificuldade. “Preciso passar pela descontaminação primeiro.”

Ele se forçou para dentro da câmara de desinfecção, e a névoa do desinfetante o cobriu como uma camada de geada branca. Através do vidro, vi um corte no canto da boca dele, os dentes sujos de sangue.

Cerrei os punhos, as unhas cravando nas palmas.

Em três anos, ele já tinha se ferido na superfície antes, mas desta vez os ferimentos eram graves demais.

Quando a descontaminação terminou e ele saiu, ainda tentou agir com naturalidade, até puxando o canto da boca.

“Olha essa sua cara.” As primeiras palavras dele foram, na verdade, para zombar de mim. “Parece que eu morri.”

Minha voz tremeu: “Você quase—”

Eu não consegui dizer.

Quis soltar a proteção do braço dele para verificar o ferimento. No instante em que toquei a fivela, ele agarrou meu pulso.

“Não.” O tom dele ficou frio na mesma hora. “Me escuta.”

“Você está sangrando.” Ergui os olhos para ele. “Temos remédio, temos bandagens—”

“Remédio é vida.” Mike afastou minha mão, como se estivesse treinando um recruta. “Você usa uma vez, tem uma vez a menos. Não entende isso?”

Olhei para a expressão inflexível dele, sentindo como se uma pedra tivesse ficado entalada no meu peito.

Os recursos no bunker eram contados em dias. Principalmente os suprimentos médicos.

Ele se sentou numa cadeira, apoiando as costas na parede, e fechou os olhos por alguns segundos para se recuperar antes de abri-los de novo.

“Lá fora está pior”, começou, em voz baixa. “Hoje eu vi alguém que conhecia.”

Meu coração deu um salto: “Quem?”

O rosto de Mike estava sombrio: “Lembra daquele cliente? O gordo que vivia dizendo que ‘dinheiro não é problema’?”

Claro que eu lembrava.

“O que aconteceu com ele?”, perguntei.

Os olhos de Mike escureceram: “Morto na beira da estrada. Retalhado. Abriram a barriga dele, e tudo estava—”

Ele não continuou; apenas ergueu a mão e fez um gesto de corte para baixo.

Meu estômago revirou com força, quase me fazendo vomitar os biscoitos comprimidos desta manhã.

Abri a boca e por fim consegui dizer: “Desculpa.”

Mike arqueou uma sobrancelha: “Desculpa pelo quê?”

“Você continua saindo... e eu não consigo fazer nada—”

“Cala a boca.” O tom dele era impaciente, mas parecia conter alguma emoção. “Você é útil aqui. Entende de sistemas, entende de finanças, entende todas aquelas senhas de contas. O que você faria lá fora? Lutar com facas? Ou virar um detector de radiação?”

Fiquei com o rosto em brasa por causa da reprimenda, incapaz de retrucar: “Pelo menos me deixa levar suprimentos para a Lena hoje.”

Mike ergueu os olhos, e o olhar dele ficou instantaneamente gelado: “Não.”

“Você está ferido.” Forcei-me a sustentar o olhar dele. “Precisa descansar. Eu vou até a entrada da passagem mais próxima, o bunker dela não é longe, vou seguir a rota que você me ensinou—”

Mike riu, uma risada sem calor algum. “O que eu te ensinei foi ‘não vá’.”

Fiquei sem palavras.

Ele foi até a prateleira de armazenamento e começou a colocar comida e água na mochila. Os movimentos eram firmes, como se o ferimento não existisse. Cada vez que ele enfiava um pacote de comida comprimida lá dentro, eu me sentia mais ridículo.

“Eu vou”, ele disse.

Entrei em pânico: “Você está gravemente ferido!”

Mike fechou a mochila e ergueu os olhos para mim, baixando a voz, como se estivesse pregando aquelas palavras dentro da minha cabeça.

“Escute bem. Precisamos sobreviver até a ordem voltar, ou até construirmos a ordem nós mesmos.”

Ele apontou para mim: “E você, Arthur, esse seu cérebro inteligente é um recurso. Não algo para ser entregue às facas.”

Minha garganta apertou: “Mas você também... você também é um de nós.”

“É exatamente por isso que eu tenho que sair.” Mike disse aquilo com toda a naturalidade. “Eu sei lutar, sei correr, sei aguentar. Você não.”

Ele caminhou até a porta pesada, pousou a mão no painel de acesso e olhou de volta para mim.

“Não faça nenhuma idiotice.” O tom dele estava carregado de pressão. “Arthur, você é a nossa esperança.”

Eles sempre diziam isso, mas aquela esperança frágil realmente valia todo o sacrifício deles?

Eu sabia melhor do que ninguém — os dois estavam fazendo isso por mim.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo