Capítulo Três

Nove em ponto.

Apertei o botão de chamada.

—Lena, você está me ouvindo? Sou eu, Arthur.

A estática estalou, como se alguém rasgasse papel dentro do meu ouvido.

Nenhuma resposta.

Chamei de novo, desta vez com a voz mais firme:

—Lena? É só apertar o botão de confirmação.

Ainda nada.

Fitei a luz indicadora. Continuava apagada, fria, indiferente.

Me obriguei a manter a calma. Talvez a antena tivesse se soltado, talvez ela estivesse lidando com o rato.

Ela já tinha se atrasado antes, mas nunca por mais de dois minutos.

Vi o ponteiro dos segundos passar de 9:02.

9:03.

9:05.

Minha garganta começou a secar, como se tivesse sido raspada com lixa.

—Lena, não me assusta. —Baixei a voz. —Se você estiver me ouvindo, só dá um toque no microfone uma vez.

Nada.

Virei para olhar a porta pesada do bunker. Mike tinha saído à tarde para levar suprimentos até ela.

Antes de ir, ele tinha me dito naquele tom inflexível: Não se mexe, guarda a porta.

Às 9:15, liguei a energia de reserva uma vez, recalibrei a frequência, descartando problemas do meu lado. Depois de concluir o procedimento, chamei novamente.

—Lena, eu estou aqui. Me responde.

Na estática, só a minha respiração.

Comecei a imaginar o lado dela: canos vazando, cantos úmidos, sombras de ratos correndo. Ela tinha caído? Estava infectada? Ela—

Eu não ousava dizer aquela palavra em voz alta.

Às 9:27, a trava de intertravamento da porta externa soou de repente.

“Clique—clique—”

Saltei de pé, quase me atirando contra a janela de observação.

Mike tinha voltado.

Desta vez ele andava ainda mais devagar, os ombros tensos, como se estivesse suportando dor. A mochila estava com metade do peso de antes. Ele entrou na câmara de desinfecção e só empurrou a porta para abrir depois que o processo terminou.

Não esperei ele falar; fui direto:

—A Lena não me respondeu. Ela não entrou em contato comigo hoje.

Os passos de Mike pararam.

Por um segundo, vi algo cintilar nos olhos dele, logo reprimido. Como se alguém tivesse apagado uma luz depressa, deixando apenas um rastro de brilho.

—Talvez o equipamento dela tenha dado defeito —a voz dele saiu baixa. —Ainda não entra em pânico.

Eu encarei Mike.

—Ela nunca deixou de responder antes.

Mike largou a mochila. Sentou numa cadeira, cotovelos apoiados nos joelhos, estranhamente calado.

—Você foi até o lugar dela —eu disse, palavra por palavra. —Me diz, o que você viu.

Mike não ergueu a cabeça.

Dei um passo à frente, a voz tremendo, mas mais feroz:

—Mike!

Ele finalmente levantou os olhos.

Naqueles olhos havia cansaço, contenção e algo que eu não queria reconhecer —algo como luto.

Senti como se estivesse sufocando.

—Fala —eu pressionei.

O pomo de Adão de Mike subiu e desceu.

—Arthur... —Quando ele falou, a voz estava tão rouca que não parecia a dele. —A Lena... está morta.

Minha mente zumbiu.

—Impossível. —Ouvi minha própria voz, leve como ar. —Repete isso.

—Eu falhei em protegê-la.

Eu o encarei, minha visão começando a escurecer. Nos meus ouvidos estava a voz de Lena, repetindo com aquela entonação risonha—

—Quando a gente conseguir sair, eu vou chorar nos seus braços.

Eu ainda nem tinha abraçado ela.

Como ela podia simplesmente—

—Você está mentindo! —virei e gritei com Mike. —Você está mentindo? Como ela pode estar morta?!

Gritei até a garganta arranhar. —Eu vou ver ela! Eu vou agora mesmo!

Corri até o armário dos trajes de proteção, puxando com brutalidade o equipamento que ele tinha avisado repetidas vezes ser de “nível de proteção inadequado”, vestindo tudo de qualquer jeito.

Mike deu um passo e agarrou meu ombro; o aperto era assustador, me arremessando para trás.

Cambaleei e bati na parede, uma dor aguda atravessando minha escápula.

—Você não pode sair —a voz de Mike era de ferro. —Lá fora está mais caótico. Você sai, você morre.

—Ela está morta! —encarei-o, com os olhos ardendo. —Eu pelo menos preciso ver ela uma última vez!

—E ver ela vai mudar o quê? —Mike se aproximou, a presença dele como uma parede. —Você vai desenterrar ela? Ou quer morrer lá fora também, e me fazer recolher outro cadáver?

Meu peito subia e descia com violência.

Mike agarrou meu pulso, arrancou o traje de proteção das minhas mãos, jogou de volta no armário e trancou.

—Escuta bem —ele disse, palavra por palavra. —Você precisa viver. Só se você viver é que isso tem sentido.

Fitei com força a porta do armário, a respiração descompassada.

A razão me dizia que ele estava certo, mas a emoção era como uma fera, rasgando meu peito.

Eu me esforcei para me acalmar.

O tempo passou, pingando devagar. Por fim, eu assenti, com a voz rouca:

—Tá... Eu não vou sair.

Os ombros de Mike relaxaram, quase imperceptivelmente.

—Eu vou sair mais uma vez. —Mike olhou para trás, e o olhar dele era pesado como água. —Pra checar o perímetro. E... resolver algumas coisas.

Eu quis perguntar o que ele queria dizer com “resolver”, mas minha garganta não conseguiu produzir som.

Ele só deixou uma frase:

—Não faça nenhuma idiotice.

A porta pesada se fechou. Eu fiquei ali até os pés adormecerem.

Tudo entre Lena e eu veio à tona, em ondas, na minha cabeça. E eu tive ainda mais certeza: eu precisava ver com meus próprios olhos a última imagem de Lena.

Caso contrário, eu ficaria preso para sempre a essa frase — “ela está morta” —, obrigado a aceitar um fim que alguém me contou.

Voltei para o rádio; meus dedos ficaram brancos ao apertar o botão de transmissão, como se eu estivesse falando com o ar.

—Lena... —sussurrei. —Espera por mim.

A única resposta foi o chiado da estática.

Eu passei a noite inteira ali sentado.

No dia seguinte, Mike preparou a mochila como sempre.

O rosto dele mostrava um cansaço mais profundo, mas os olhos continuavam firmes.

—Vou sair para procurar comida —ele me disse. —E confirmar a situação de novo.

Antes de ir, ele reforçou mais uma vez, num tom ainda mais pesado do que na noite anterior:

—Arthur, de jeito nenhum você sai. Tá me ouvindo? De jeito nenhum.

Eu olhei para ele e assenti.

Até a porta fazer clique e se fechar.

Eu me virei e caminhei até o armário dos trajes de proteção, pondo a mão no metal frio.

Eu tinha que ir ver Lena uma última vez.

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