Capítulo Cinco.
Aquele conhecimento era uma agonia.
"É melhor andarmos," disse James, encostando-se na rocha. "Com certeza deve haver uma casa por aqui em algum lugar."
"Ok." Ela desceu. Então espirrou.
James a puxou para perto e verificou sua testa.
Ela o olhou com as sobrancelhas levantadas. "O que você está fazendo?"
"Você está se sentindo bem?" ele perguntou, soltando-a. "Não está com muito frio, está?"
Estou congelando, James. Pela primeira vez, invejo sua habilidade de crescer uma pelagem."
Ele riu. "Vamos lá, andar vai fazer seu sangue circular."
Enquanto subiam a montanha, Anna sentiu o toque tímido da mão de James. Ele segurou seus dedos enluvados e apertou. Por algum motivo, suas mãos entrelaçadas a faziam se sentir melhor. Eles não falaram, mas ela não sentiu necessidade de palavras. Carros eram escassos, andar até Toronto não era uma opção. Ela se mantinha em forma correndo, mas tantos quilômetros montanha acima estavam além de sua capacidade física. Se James se transformasse, ele poderia se mover um pouco mais rápido sem ela.
Ela olhou ao redor e parou.
"James." Ela gritou animada.
"Olha! Um telefone público."
"Você está falando sério? Eles ainda existem?"
"É melhor torcer para que sim."
Eles correram em direção ao telefone, mas o alívio durou pouco. Anna olhou para a destruição em descrença silenciosa. Alguém havia cortado o receptor.
A única coisa que restava era um cabo prateado pendurado inutilmente na estrutura de metal.
James xingou uma série de palavrões. Ele se virou de repente, assustando-a. "E agora?"
Como James dirigiu a pergunta para as árvores atrás dela, ela não respondeu. Ele olhou para a floresta como se o vandalismo fosse culpa dela, a neve caindo em seu nariz reto e bochechas inclinadas. Seu cabelo enrolava ao redor da gola da camisa. Ela nunca tinha visto James usar o cabelo comprido. Ela gostou. Seu olhar estava fechado, mantendo-a de fora. Os olhos de James não eram janelas para a alma, mas reflexos opacos.
Ah, sim, ela pensou. Aí está o guarda-costas, aquele que desliga as emoções e se concentra nas ações.
"Talvez eu pudesse me abrigar em algum lugar, e você poderia se transformar. Você cobriria mais terreno como um urso."
"Não vou te deixar. Nem por um segundo."
Sim. Era o que ela imaginava. Anna caminhou atrás dele, limpando alguns fios de cabelo úmido da testa. Uma fada madrinha ou uma lâmpada mágica seriam muito úteis. Ela olhou para o céu, esperando um raio de sol ou um azul prateado, mas só viu as nuvens cinzentas feias e a constante nevasca. Estava ficando mais escuro também. O sol estava se pondo e logo seria noite. O som rítmico de gravetos e cascalho esmagando-se molhados sob seus pés lembrou Anna de um comercial que ela tinha visto na televisão. O anúncio consistia em pessoas mastigando batatas fritas ao som de –
"Anna," James gritou. Sua cabeça se ergueu justo quando ouviu o guincho de pneus no pavimento molhado. Ela se virou, cegada pelas luzes brilhantes de um carro grande que vinha em sua direção. Antes que pudesse abrir a boca para gritar, seu corpo foi jogado ao chão.
Pedras se cravaram dolorosamente em suas costas. Ela mal conseguia respirar com o enorme corpo masculino em cima dela.
"James?" Ela disse no ombro pressionado contra sua boca. Ele não respondeu e o terror a preencheu.
O carro o atingiu? Ele estava bem?
Então ela sentiu suas mãos acariciando seu cabelo. Todo o corpo dele tremia. Ela o sentiu ajustar lentamente sua posição até poder ver seu rosto.
O idiota dirigindo o carro não parou. Na verdade, nem sequer diminuiu a velocidade. Ela podia dizer que James estava pensando algo semelhante. Seus olhos escuros estavam tempestuosos e sua boca uma linha fina.
Anna lambeu os lábios nervosamente.
"James? Eu não estou morta. Você pode me soltar."
Ele lhe deu um olhar severo e então pressionou seus lábios contra os dela. Surpresa, ela abriu a boca. Ele enfiou a língua dentro, provando-a até que ela se sentisse fraca. De repente, ele parou.
"Não faça isso comigo de novo."
Ele lhe deu outro olhar feroz antes de rolar para o lado.
Ela se sentou atordoada. Ele ofereceu a mão, e ela a pegou. Seus joelhos estavam trêmulos enquanto ela se levantava, mas James a estabilizou. Ela limpou a lama de seu jeans.
Ele tirou um galho do cabelo dela e jogou no chão. "Devemos continuar antes que algo mais aconteça." Antes que Anna pudesse responder, James começou a subir a montanha em um ritmo acelerado. Enquanto ela se apressava para segui-lo, não pôde deixar de notar como o jeans dele apertava nas nádegas. Ele tinha um traseiro tão bonito.
Ela olhou para a floresta ao redor. Mil olhos, mais brilhantes que as estrelas, pareciam encará-la dos galhos. Pequenos choques percorreram sua espinha, e ela se aproximou de James. Ele não comentou sobre sua aparição repentina ao seu lado. Depois do que pareceu um século, ela tocou seu ombro. "Podemos parar um minuto? Preciso recuperar o fôlego."
Ele assentiu e a levou até uma grande rocha marrom que se projetava de um grupo de árvores. Ela afundou na superfície dura e áspera e suspirou agradecida. Parecia um colchão macio para suas costas doloridas. "Há quanto tempo estamos andando?"
James olhou para o relógio. "Trinta minutos. Você vai aguentar?"
"Claro," ela mentiu. Não sentia vontade de dar mais um passo, mas não ia admitir isso para ele.
"O ar fica mais rarefeito quanto mais subimos," ele disse. "Andar morro acima nessa altitude não é exatamente um exercício recomendado."
"A menos que você seja um metamorfo urso."
"É, bem. Tem isso."
Um Lincoln branco parou no acostamento. Seus faróis a cegaram brevemente antes que o motorista os desligasse.
Ela viu James franzir a testa. Ele cruzou os braços sobre o peito enquanto se colocava na frente dela. Ela se ajoelhou e espiou por cima do ombro dele. "O que você vai fazer, brincar de 'jogo do frango' com aquele carro? Estou apostando no Lincoln."
"E se for o mesmo carro que quase te atropelou?"
O coração de Anna quase saltou do peito.
"Você acha que eles estão voltando para terminar o trabalho?"
A janela do lado do motorista chamou sua atenção. O vidro desceu lentamente. Enquanto Anna tentava ver dentro do carro, um homem mais velho com cabelos brancos chocantes colocou a cabeça para fora. "O que diabos vocês estão fazendo?" o homem perguntou com uma voz rouca. "Vocês não sabem que está nevando? Podem pegar pneumonia com esse tempo."
"Não vejo como isso é da sua conta, amigo," disse James.
O velho levantou uma sobrancelha espessa e então riu. "Não vê como, hein? Por um lado, eu tenho um carro com aquecedor. Aqui dentro está seco também."
Anna bateu no ombro de James.
"Estamos procurando uma carona. Aqui está." Ela pontuou a frase com um espirro.
"Parece que sua esposa está pegando um resfriado," o homem gritou. "Eu tenho um lugar de aluguel de cabanas a cerca de oito quilômetros daqui. Vou levar vocês até lá, e vocês podem usar o telefone para ligar para quem precisarem."
Anna olhou para James, se perguntando por que ele estava tão indeciso de repente.
"Agradecemos sua ajuda, senhor."
Ele finalmente disse. Ele se virou e ajudou Anna a descer da rocha. Quando entraram no banco de trás do Lincoln, ela suspirou de prazer. James a envolveu em seus braços e pressionou sua cabeça contra o ombro dele. Ela não protestou, mas se aconchegou. A coisa sobre metamorfos ursos é que eles eram ótimos abraçadores.
"Meu nome é James e esta é Anna," disse James. Ele puxou um dos cachos soltos de Anna e ouviu um leve ronco escapar. Ela devia estar mais exausta do que deixava transparecer. "Acho que ela está dormindo."
"Desse jeito? Não me surpreende. Pessoalmente, gosto delas com um pouco de carne nos ossos. Agora minha esposa - essa é uma mulher robusta. A propósito, sou Jordan. Como é que vocês estão a pé? O carro de vocês quebrou? Onde está?"
James riu. O homem disparava perguntas como uma metralhadora. "Tivemos um acidente, e nossos celulares não pegavam sinal. Estávamos esperando encontrar uma carona ou uma casa."
"Não tem nada por aqui, filho. Vocês tiveram sorte de eu aparecer. Ninguém está viajando por essas estradas - está escurecendo e parece que essa nevasca vai virar uma tempestade de neve completa. Então, para onde vocês recém-casados estão indo? Coscow?"
"O que te faz pensar que somos recém-casados?"
Jordan pegou o olhar de James no espelho retrovisor. "Estou apaixonado pela minha esposa, Mary, há quarenta anos, então acho que já consigo reconhecer a emoção. Você sabia que só existe uma pessoa para você no mundo inteiro? Só uma. Acho que isso nos torna homens de sorte."
James abriu a boca para negar que era casado com Anna, mas hesitou. Ele queria ser casado com ela, droga. Ele apertou o abraço ao redor dos ombros dela e olhou para ela. A sensação familiar de conforto o invadiu enquanto ele beijava levemente sua testa. Ele inalou o cheiro de lavanda dela, floral e todo Anna. James pegou o sorriso conhecedor de Jordan no espelho.
Ele tinha sido sincero em precisar da ajuda de Anna para encontrar Donna e Joey. Mas não ia perder a oportunidade de mostrar a ela que eles pertenciam um ao outro.
Ele não ia perder Anna.
Não de novo.
"Anna?"
A voz grave e sexy invadiu seus sonhos. Alguém puxava seus braços, mas ela resistia. Queria explorar as promessas sensuais que a voz parecia conter. Ela se aconchegou mais ao corpo quente ao lado dela.
"Querida, é hora de acordar."
