Capítulo 1 Quebrados

O ventilador velho no canto rangia a cada volta, lento, empurrando o mesmo ar quente de um lado para o outro no escritório. Era o único barulho ali.

Olívia encarava a tela do computador. As planilhas estavam abertas há horas e os números não mudavam. Só pioravam. Vermelho atrás de vermelho. A dívida tinha passado do ponto de susto e entrado no ponto de não retorno. Se ela não fizesse alguma coisa agora, não ia sobrar empresa para salvar.

Ela esfregou o rosto com as duas mãos. Sentia o cansaço pesando nos ombros, nos olhos. A Costa Engenharia tinha sido tudo para o avô dela. Para o pai, Roberto, sempre foi mais um cartão de visitas. Um visionário para dar entrevista, um desastre para organizar qualquer gaveta. E Irene, a mãe, nunca tinha olhado um boleto na vida, só se preocupava se o sobrenome ainda abria portas no clube.

O estalo do salto no corredor avisou antes da voz.

— Olívia, querida? Você está aí?

Olívia não respondeu. Continuou olhando para a planilha, como se os números fossem se reorganizar sozinhos se ela encarasse o suficiente. Irene entrou com uma taça de vinho na mão e um vestido novo. Dava para ver que era caro só pelo caimento.

— Você devia descansar, filha. Ficar aí remoendo essas coisas faz mal pra pele, para o humor.

Olívia finalmente levantou os olhos.

— Faz mal? Mãe, a gente está quebrado. Quebrado de verdade. Você entende o que isso significa?

Irene fez aquela cara de quem ouviu uma indelicadeza.

— Não precisa desse drama todo. É só uma fase ruim. Seu pai sempre dá um jeito.

— Uma fase ruim?

Olívia se levantou tão rápido que a cadeira arrastou. Pegou o maço de relatórios impressos em cima da mesa.

— Sabe qual é o jeito do papai? Ignorar. Ele finge que a conta não chegou. E o seu jeito qual é? Comprar vestido, marcar jantar, fazer festa como se a gente ainda tivesse dinheiro sobrando!

Irene cruzou os braços, ofendida, a taça ainda na mão.

— Você está sendo muito injusta. Nós fizemos de tudo para manter essa empresa de pé. E para manter essa família.

— Não, vocês não fizeram. Quem está aqui todo dia tentando segurar as pontas sou eu. Vocês estão afundando tudo e ainda me olham como se eu fosse a exagerada!

Roberto apareceu na porta naquele instante, com um copo de uísque na mão, completamente fora do clima. Parecia que tinha acabado de sair de um comercial.

— O que está acontecendo aqui? Por que essa gritaria?

Olívia se virou para ele. Os olhos já brilhavam de raiva.

— O que está acontecendo é que a gente vai falir, pai. É isso que está acontecendo.

Ele deu de ombros. Deu mesmo de ombros.

— Ah, Olívia, sempre demos um jeito. Você se preocupa demais.

— Dar um jeito como? Me explica como! — Ela jogou os relatórios na mesa, as folhas espalharam. — A gente deve para fornecedor, para banco, para todo mundo. O telefone não para de tocar cobrando e vocês continuam vivendo como se nada estivesse acontecendo.

— Olívia, querida... — Irene tentou.

— Não. Chega. — Ela levantou a mão. — Vocês não entenderam até agora. Então a partir de hoje sou eu que decido. Acabou reforma que ninguém pediu, acabou festa, acabou roupa de grife, acabou tudo. Vamos cortar tudo que não for essencial.

Roberto bufou, o rosto fechou.

— Você não pode chegar aqui e mandar em nós, Olívia.

— Não estou pedindo permissão. Estou avisando como vai ser.

O silêncio que ficou depois foi pesado, esquisito. Olívia sentiu na hora que tinha passado de um limite. E não se arrependeu. Se ninguém ia tomar uma atitude, seria ela.

Mais tarde, no apartamento pequeno onde morava sozinha, longe da casa grande dos pais, ela estava de novo na frente dos números. A luz da luminária era fraca. A conta não fechava. Só abria mais buraco.

Ela se jogou para trás na cadeira e fechou os olhos. Uma lágrima escorreu, só uma. Ela limpou rápido, com raiva de si mesma. Não podia se dar ao luxo de chorar.

— Eu vou dar um jeito nisso — ela sussurrou no quarto vazio. Falou firme, como quem faz promessa. — Nem que eu tenha que brigar com vocês dois.

Mesmo que tivesse que enfrentar a própria família, ela ia salvar aquela empresa. Ou ia junto com ela.

Na manhã seguinte ela acordou antes do despertador. Dormiu umas quatro horas, mal. No espelho do banheiro, o rosto entregava tudo. Prendeu o cabelo num coque apertado, passou uma água fria, vestiu a única roupa que ainda passava alguma credibilidade, uma camisa branca bem passada e a calça preta social. Se ia pedir dinheiro para banco, precisava pelo menos parecer que tinha controle de alguma coisa, mesmo se por dentro estivesse em frangalhos.

O trânsito para o Centro estava caótico. Buzina, moto cortando, ônibus freando. Cada sinal vermelho era um soco no estômago, mais um minuto para a cabeça dela criar um cenário pior. E se fosse o último não?

O prédio do banco era todo de vidro espelhado, alto, frio. Ela respirou fundo antes de passar pela porta giratória. Lá dentro tudo era ar condicionado forte demais, gente de terno indo e vindo, telefone tocando.

— Bom dia. Tenho reunião marcada com o senhor Almeida. Sala 302.

A recepcionista nem olhou direito, só digitou.

— Pode subir. Terceiro andar, à direita.

O salto dela batendo no mármore fazia um eco alto demais. Quando abriu a porta da sala 302, o gerente já estava sentado, uma mesa enorme entre eles, tudo muito organizado. Óculos pequenos, meia idade, cara de quem não se abala.

— Senhorita Costa, por favor, sente-se.

Ela sentou na beirada da cadeira, tentou sorrir.

— Obrigada por me receber, senhor Almeida.

— Claro. Estamos à disposição. — Ele abriu uma pasta, folheou sem pressa. — Recebi sua solicitação de crédito. Analisei com calma o balanço da empresa.

Olívia prendeu a respiração sem perceber.

— Infelizmente não vamos conseguir aprovar.

Aquilo caiu como um tapa seco.

— Mas por quê? — A voz saiu mais fina do que ela queria.

Almeida tirou os óculos, limpou na camisa.

— Seu histórico financeiro é muito delicado, senhorita Costa. Dívida acumulada alta, fluxo de caixa negativo há meses, nenhuma garantia real de que o pagamento será honrado. Os ativos que vocês declararam não cobrem nem metade do valor pedido.

Ela se inclinou para frente, as mãos apertando a bolsa no colo.

— Eu sei como está no papel, eu sei. Mas a gente está se reestruturando. Eu tenho um plano de corte de custos, de renegociação com fornecedores. Eu só preciso de um fôlego, de capital de giro para fazer rodar. Só isso.

Ele balançou a cabeça devagar, aquele gesto de quem já ouviu aquilo mil vezes naquela mesma sala.

— Não é falta de esforço. São números. E hoje, os números não estão a seu favor.

O estômago dela revirou, mas ela não desmontou.

— E se eu der garantia pessoal? Eu tenho um apartamento. Não é grande, mas é meu. Posso colocar como garantia.

Ele hesitou um segundo.

— Ainda assim a análise de crédito ficaria negativa. O valor do imóvel não cobre o risco da operação.

Não tinha mais o que dizer. Insistir ali só ia deixá-la menor.

— Entendi. Obrigada pelo seu tempo.

— Espero que as coisas melhorem para a senhora — ele disse, já voltando os olhos para os papéis.

Lá fora o calor do meio dia bateu na cara dela como uma parede. A rua estava lotada, gente passando rápido, e ela ficou ali parada na calçada, sem saber para onde ir. Andou sem rumo por dois quarteirões, até entrar num café pequeno, quase vazio. Pediu só uma água.

Sentou na última mesa, no canto, e apoiou a cabeça nas mãos. Pensou na empresa, nos pais, naquela pasta que o gerente fechou com tanta facilidade. As lágrimas vieram, ela segurou. Não ali. Não agora.

Pegou o celular, abriu a lista de contatos e foi rolando. Nome atrás de nome. Ninguém para ligar. Nenhum amigo influente, nenhum tio rico. Era só ela.

Tomou a água de um gole só.

— Eu vou dar um jeito — murmurou de novo. Baixinho, só para ela ouvir. Como uma reza.

Ela não fazia ideia de como. Mas não ia desistir.

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