Capítulo 2 Cláusulas

Do outro lado da cidade, a sede do Grupo Falcão não precisava se esforçar para impressionar. O prédio tomava o quarteirão inteiro no distrito financeiro e os andares de cima brilhavam no sol como se fossem feitos para isso. Lá no topo, no escritório de vidro, Vicente Falcão terminava de posar para a Business Elite.

Terno cinza sob medida, gravata afrouxada de propósito, barba feita na hora. O fotógrafo suava para achar um ângulo melhor, mas Vicente não precisava de muito. Ele só ficava parado e o espaço inteiro parecia se organizar ao redor dele.

— Perfeito, senhor Falcão! Acho que fechamos.

Vicente deu aquele meio sorriso que não chegava nos olhos.

— Ótimo. Tomara que a foto passe o que importa. Competência.

Ele tirou o paletó, agradeceu com um aceno curto e a equipe começou a desmontar tudo. Foi quando a editora da revista se aproximou, uma mulher elegante, uns quarenta e poucos anos, gravador na mão.

— Podemos começar? É rapidinho.

Ele concordou e apontou para as poltronas de couro. Atrás dele, a cidade inteira cabia na janela.

— O senhor assumiu o Grupo Falcão há dois anos e os números nunca estiveram tão bons. A que o senhor atribui isso?

— Estratégia — ele respondeu sem pensar muito. — Quando entrei, tinha muita gordura. Cortamos o que não funcionava, apostamos onde ninguém estava olhando e refizemos a casa inteira por dentro. E eu tive gente que comprou a minha visão e trabalhou até tarde para fazer acontecer.

— Tem gente no mercado que diz que o senhor é frio, calculista. O senhor concorda?

Vicente se inclinou um pouco para frente. Um brilho atravessado no olhar.

— Frio e calculista? Talvez eu seja. Mas um bom líder não pode decidir com o coração, né? Eu faço o que precisa ser feito para proteger o que é da minha família e para fazer crescer.

Ela sorriu. Gostou da franqueza.

— E o homem por trás do empresário? A gente sabe muito pouco da sua vida pessoal.

Ele se recostou, cruzou as pernas.

— Meu foco sempre foi a empresa. O resto... digamos que tudo tem sua hora.

Foi uma resposta que não dizia nada e dizia tudo. Ela anotou mentalmente para usar como gancho.

— Última. Onde o senhor vê o Grupo Falcão em cinco anos?

— No topo. Não tem outro lugar aceitável para mim.

Apertos de mão, promessa de capa, a equipe indo embora com tripé nas costas. A porta fechou e o silêncio voltou. Vicente ficou ali sozinho, de pé, olhando a cidade lá embaixo.

Ele só chegou na mansão Falcão já de noite. Exausto do dia inteiro de reunião e pose, mas com a cabeça ainda ligada no duzentos. A casa, com muro alto e arquitetura toda imponente, parecia mais um bunker de luxo do que uma casa de verdade. Para ele, nunca tinha sido diferente. Era só o lugar onde ele dormia.

Mal atravessou o hall, o mordomo já veio.

— Senhor Vicente, seu pai o aguarda no escritório.

Vicente franziu a testa. O pai nunca chamava assim, seco.

Subiu as escadas sem olhar para os quadros caros da parede. Bateu duas vezes na porta do escritório e entrou.

— Pai.

Giancarlo Falcão estava atrás da escrivaninha de madeira maciça, sessenta e poucos anos, cabelo grisalho bem cortado, aquele olhar que sempre pesava. Largou o jornal de lado e apontou para a cadeira na frente com um gesto curto.

— Senta, Vicente. Precisamos conversar.

Vicente não gostava daquele tom. Conhecia bem. Era cobrança vindo.

— Sobre o que?

Giancarlo tirou os óculos com calma.

— Recebi uma ligação do Conselho hoje. Tem gente da família incomodada com a sua liderança. Apesar dos resultados.

— Incomodada? — Vicente ergueu uma sobrancelha, incrédulo. — Eu coloquei o grupo no maior lucro da história. Os investidores estão felizes, as ações subiram. E eles reclamam do quê?

— Não é de número, Vicente. — Giancarlo suspirou, escolhendo as palavras. — É de imagem. O Grupo Falcão sempre foi uma empresa de família. Para eles, você precisa cumprir um requisito básico para se consolidar.

— Que requisito?

— Você precisa se casar.

O silêncio caiu na sala como uma pedra. Vicente piscou devagar, como se não tivesse ouvido direito.

— Isso é piada?

— Não é piada.

Giancarlo cruzou as mãos em cima da mesa, sério.

— Tem gente dizendo por aí que um homem solteiro, que só vive para o trabalho, não representa os valores da família. Eles querem ver estabilidade. Continuidade. Um herdeiro.

Vicente soltou uma risada seca.

— Então por causa da opinião de meia dúzia de velho arcaico eu tenho que mudar minha vida inteira?

— Não é só opinião. Eles têm voto suficiente para tornar a sua permanência aqui insuportável se quiserem.

Vicente se levantou de repente, passou a mão no cabelo, começou a andar de um lado para o outro como um bicho preso.

— Isso é ridículo. Eles não podem me obrigar a casar.

— Não diretamente. Mas podem.

Ele parou no meio da sala e encarou o pai, a mandíbula travada.

— E você? Você está do lado deles?

Giancarlo sustentou o olhar.

— Eu estou do lado da empresa. Sempre estive.

Vicente voltou a se jogar na cadeira, bufando.

— Então o que eles querem? Que eu arrume uma esposa em quanto tempo?

— Três meses — Giancarlo respondeu firme. — É tempo suficiente.

— Resolver? É assim que você chama? Resolver? — Vicente riu de novo, mas sem humor nenhum. — Você quer transformar o que deveria ser uma escolha minha em uma transação comercial?

— Chame do que quiser, Vicente. Se não fizer, você perde tudo o que construiu.

Vicente não respondeu. Ficou ali, em silêncio, digerindo.

— Pensa — Giancarlo encerrou. — Às vezes a gente precisa sacrificar uma coisa pessoal para não perder o que realmente importa.

Vicente saiu sem olhar para trás. Rosto fechado, porta fechada com mais força do que precisava.

No quarto, serviu dois dedos de uísque e ficou parado na frente da janela, vendo as luzes da cidade piscando lá embaixo. A raiva foi abaixando e dando lugar àquela frieza calculista de sempre.

Casamento. Para ele nunca tinha sido sobre amor. Agora, menos ainda. Seria um contrato. Cláusulas claras, interesses alinhados, cada um sabendo o que ganha.

E, de repente, uma ideia começou a se formar na cabeça dele.

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