Capítulo 3 Laranja
O sol ainda estava baixo, aquela luz laranja começando a sujar o céu, quando Vicente saiu de casa. Camiseta fina, shorts, tênis de corrida. Bateu o portão da mansão e foi direto para a praia, rápido, como se estivesse fugindo de alguma coisa.
A brisa da manhã estava fria, mas ele nem sentiu. A cabeça não parava desde a conversa com o pai. Era um martelo sem ritmo.
A areia úmida afundava sob o pé. Ele começou a correr. O barulho das ondas quebrando era a única coisa que abafava o resto. Na corrida ele conseguia fingir que o mundo era só aquilo, perna, respiração, batida no chão.
Um casamento. Eles querem que eu me case.
Ele aumentou o ritmo, com raiva. As coxas queimando. Era um absurdo completo. Tinha se matado de trabalhar, virado noites, cortado gente que gostava, para agora ser chantageado por um bando de conselheiros que se importava mais com foto de família do que com balanço.
A voz do pai voltava na cabeça, seca.
Eles têm influência suficiente para forçar sua saída.
Vicente cerrou os dentes. Perder o Grupo Falcão não era uma opção. Não era só uma empresa. Era a única coisa que fazia ele ser quem ele era. Tudo que ele tinha construído estava ali dentro.
Mas casar? Ele nunca tinha se visto ao lado de ninguém. Relacionamento para ele sempre foi sinônimo de dor de cabeça, de distração, de alguém cobrando tempo que ele não tinha. Ele precisava de algo prático. Que funcionasse.
Correu até não aguentar mais e parou perto do píer, ofegante, as mãos nos joelhos. Suor escorrendo pela testa, pela nuca. Olhou para o horizonte, onde o sol já estava mais forte. Puxou o ar com força, tentando achar um pingo de clareza.
Três meses. Tenho três meses para resolver isso.
Passou as mãos nos cabelos molhados e soltou o ar longo.
Precisava de um plano.
O restaurante onde marcou com Sávio era discreto, daqueles que empresário gosta porque ninguém faz barulho e ninguém tira foto. Quando entrou, Sávio já estava no canto, de óculos, celular na mão.
Vicente puxou a cadeira e sentou sem pedir licença.
— Sempre pontual, como eu esperava.
Sávio deu aquele meio sorriso de lado.
— E você sempre dramático. O que foi tão urgente que me tirou da cama antes das oito?
Vicente fez um sinal para o garçom.
— Café preto, por favor.
Assim que o garçom se afastou, ele apoiou os cotovelos na mesa e olhou sério para o amigo.
— Preciso de uma esposa.
Sávio arregalou os olhos.
— Isso é... uma proposta? Porque se for, eu vou ter que recusar. Você não é meu tipo.
— Engraçadinho. — Vicente estava sem paciência para piada. — Não estou falando de romance. Estou falando de negócio.
Sávio se recostou, cruzou os braços.
— Tá, então explica direito.
Vicente baixou a voz.
— Meu pai foi bem claro ontem. O Conselho quer um homem de família na cadeira. Se eu continuar solteiro, eles vão começar a me sabotar até eu cair. Para eles eu sou insuficiente porque não casei.
— Isso é ridículo — Sávio franziu a testa. — Você está dando o maior lucro da história do grupo e os caras estão preocupados com o seu estado civil?
— Bem-vindo ao mundo corporativo.
Vicente deu de ombros e tomou um gole do café que acabava de chegar, amargo.
— E eu não vou perder meu cargo por uma estupidez dessas.
— Tá, e qual é o plano então?
— Um casamento por contrato. Nada emocional. Um acordo entre duas partes que precisam uma da outra. Tempo determinado, cláusulas claras.
Sávio arqueou as sobrancelhas.
— Na teoria parece simples. Na prática, onde você vai achar alguém que tope isso?
— É aí que você entra. — Vicente olhou fixo para ele. — Eu preciso de alguém com um perfil específico. Alguém que precise de mim tanto quanto eu preciso dela.
Sávio coçou o queixo, já entendendo onde aquilo ia parar.
— Alguém quebrado. Com problema de grana.
— Exatamente. E alguém que não complique. Que seja discreta, que cumpra o combinado e que entenda que é um contrato, não um conto de fadas.
— Você está falando como se estivesse contratando uma estagiária, não arrumando uma esposa.
— De certa forma estou.
Vicente girou a xícara na mão.
— Conhece alguém assim?
Sávio ficou em silêncio por uns segundos, com os olhos semicerrados, puxando da memória.
— Na verdade, talvez.
— Quem?
— Lembra da Olívia Costa?
Vicente tentou lembrar. O nome batia em algum canto.
— Não me é estranho.
— Família dela tem uma empresa pequena, negócio de família mesmo. Estão atolados em dívida. Pelo que eu ouvi por aí, é ela que está segurando tudo sozinha, tentando não deixar quebrar. Está desesperada.
Vicente esfregou o queixo, a cabeça já calculando.
— Parece promissora.
— Mas, Vicente... — Sávio hesitou e olhou bem para o amigo. — Você tem certeza? Casamento de fachada parece fácil no papel, mas dá muita merda se sair do controle. E se ela se apegar? E se vazar?
— Nada vai sair do controle. Eu vou garantir que o contrato amarre tudo. É só um contrato, Sávio. Nada mais.
Sávio assentiu devagar, ainda com aquela cara de quem não está comprando a ideia.
— Se você está decidido mesmo, eu posso levantar tudo sobre ela. A empresa, as dívidas, a situação real.
— Faz isso. E rápido. Não tenho muito tempo.
Vicente se levantou, jogou umas notas na mesa e ajeitou o blazer.
Sávio ficou olhando ele sair do restaurante, balançando a cabeça. Vicente sempre foi de agir rápido, resolver na hora. Mas aquilo ali tinha cheiro de problema grande.
Lá fora, Vicente entrou no carro, bateu a porta e ligou o motor. Enquanto dirigia de volta para o Grupo Falcão, um nome já rodava na cabeça dele como se fosse a solução.
Olívia Costa.
Ainda era só um nome. Em breve, seria a peça que faltava para ele manter tudo o que tinha.
