Capítulo 4 Ideia

O ar do 28º andar do Falcão sempre era gelado demais. Sávio entrou sem bater e largou uma pasta fina na mesa de Vicente.

— Tá aqui.

Vicente abriu. Não era muita coisa. Balanço da Costa Engenharia, foto da Olívia num evento de construtora com vestido preto simples, cabelo preso. Uma matéria pequena sobre atraso de obra no interior.

— Vinte e cinco. Administração na UFRJ. Tocando a empresa do avô praticamente sozinha há uns dois anos — Sávio resumiu. — O pai não assina mais nada, a mãe ainda vive como se tivesse dinheiro. Devem três folhas e dois fornecedores grandes.

Vicente ficou mais tempo na foto do que nos números.

— Ela tentou banco?

— Tentou. Negaram tudo hoje de novo. É por isso que é agora. Se você for oferecer, tem que ser essa semana.

Vicente fechou a pasta.

— E ela aceitaria um acordo desses?

Sávio deu de ombros.

— Se você chegar como Vicente Falcão oferecendo contrato de casamento, não. Se chegar como investidor interessado na empresa, ela pelo menos escuta.

Vicente levantou e foi até o vidro. Lá embaixo São Paulo fervia.

— Então marca. Não fala meu nome. Fala que é um fundo interessado em construção familiar. Quero conversar com ela primeiro.

Sávio assentiu e já estava saindo quando Vicente completou, mais baixo:

— E não quero que ela se sinta encurralada. Se ela disser não, acabou.

Sávio parou na porta por um segundo, surpreso, e depois saiu.

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Olívia subiu a ladeira da casa a pé porque tinha deixado o carro no mecânico para economizar. Foi aí que viu. Um SUV branco, zero, estacionado atravessado no jardim que já estava com o mato alto. O contraste com a tinta descascada da casa era quase ofensivo.

Dentro, a sala estava cheia. Leonardo, o irmão, Patrícia, a cunhada, e os pais rindo de alguma coisa na TV.

— De quem é o carro lá fora? — ela perguntou, ainda na porta, com a bolsa no ombro.

O riso morreu um pouco.

— Nosso — Patrícia respondeu, animada. — Pegamos hoje. Não ficou lindo no jardim?

Leonardo fez um gesto vago.

— Conseguimos uma condição boa. Sessenta vezes. Precisava, o outro já estava me deixando na mão para visitar cliente.

Olívia largou a bolsa na cadeira com mais força do que queria.

— Condição boa? Leonardo, o gerente do banco me disse hoje que a gente não tem garantia nem para mil reais. E vocês financiam um carro de cento e cinquenta?

— Ai, lá vem — Patrícia revirou os olhos. — Sempre a mesma ladainha.

— Não é ladainha, Patrícia. É boleto. É oficial de justiça na porta. Sou eu que atendo o telefone cobrando.

— Você acha que a gente não sabe? — Leonardo levantou a voz. — Você acha que é a única que trabalha? Eu também estou tentando. Só que eu não fico me fazendo de mártir.

— Eu não estou me fazendo de nada. Eu estou tentando não deixar a gente perder a casa.

O pai, Roberto, que até então estava quieto no sofá, interveio cansado:

— Olívia, chega. Você chega nervosa e já quer brigar com todo mundo.

Ela olhou para ele. Era sempre assim. Ele nunca tomava partido, só pedia silêncio.

— Pai, a gente vai perder tudo.

— Não vai — a mãe disse rápido, como se dizer resolvesse. — Seu irmão precisa do carro para trabalhar.

Olívia não respondeu mais. Subiu para o quarto e trancou a porta. Jogou-se na cama ainda de sapato. Do andar de baixo, o volume da TV voltou a subir.

Ela ficou olhando para o teto com a luz apagada, com aquela sensação de estar puxando um barco sozinha enquanto todo mundo dentro dele furava o casco. Pela primeira vez, a pergunta não era como salvar a empresa. Era até onde ela iria para fazer isso.

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