Capítulo 1 Prólogo 1.0 Ethan Brassard

A base da minha família sempre foi o amor e o respeito.

Fui criado em meio a cinco mulheres e, antes que você pense algo, ainda não enlouqueci! Por sorte, tenho meu pai ao meu lado, para dividirmos o fardo… e, claro, meus cunhados, que ajudam a equilibrar as coisas.

Cada uma delas tem um papel importante na minha vida, mas minha mãe ocupa um lugar especial. Sei que sou suspeito para falar, mas a dona Maya é o tipo de pessoa que conquista por onde passa. Sempre atenta aos filhos, vive repetindo que “não importa quanto tempo passe, ela sempre estará lá para cada um de nós”. E isso é algo que eu jamais divido com ninguém.

Ela sempre me ensinou a nunca desistir daquilo que quero e eu seguia esse conselho à risca, todos os dias. Mas, hoje, infelizmente, isso já não significa tanto para mim.

Quando recebi a pior notícia da minha vida, eu tinha apenas dezessete anos. Achei que morreria junto com ela. Tudo perdeu o sentido. Eu não entendia o que estava acontecendo comigo… chorei, gritei, questionei milhões de vezes: por que ela foi tirada de mim?

Infelizmente, essa resposta ainda não foi encontrada. Como costuma dizer minha sogra, “tudo está nas mãos de Deus”.

Meus sogros tentaram se manter fortes algo que, naquele momento, eu simplesmente não consegui fazer.

Poucos sabiam sobre a gravidez da Bonnie. Apenas eu, meu pai e meu sogro.

Decidimos não contar a mais ninguém. Já estava sendo insuportável enterrar o amor da minha vida… agora imagine um bebê junto a tudo isso?

Três dias depois, tive meu primeiro pesadelo com ela. Bonnie gritava comigo, dizendo que me odiava por ela estar grávida.

Eu não entendia o porquê daquela reação. Nossos pais sempre foram compreensivos, e, mesmo que uma gravidez inesperada assuste, ela não parecia apenas abalada, estava desesperada, histérica, tomada por raiva… como se tivesse cometido um crime por estar esperando um filho meu.

Quando nos entregamos um ao outro pela primeira vez, sabíamos o que poderia acontecer. Então por que ela reagiu assim?

Por muitas noites me perguntei se o que ela sentia por mim era realmente amor.

Ela desistiu de mim com tanta facilidade… e se lançou no primeiro abismo que encontrou: o da dor, o do ódio, o da culpa.

Infelizmente, nunca terei a resposta do porquê tudo isso aconteceu.

E, sem ela ao meu lado, nada mais parece fazer sentido.

Foi então que tomei uma decisão.

Eu não me via namorando novamente, mas uma coisa eu sabia com absoluta certeza: não queria ter filhos.

Não depois de tudo.

Mesmo sendo menor de idade, procurei um médico.

Lembro-me de entrar naquele consultório com a mesma expressão fria de quem já não sente mais nada. O ambiente cheirava a álcool e solidão e, de alguma forma, aquele cheiro combinava comigo.

O médico levantou os olhos do prontuário e me observou em silêncio por alguns segundos.

— Quantos anos você tem, garoto? — perguntou, franzindo o cenho.

— Dezessete. — respondi sem hesitar.

— E o que exatamente está fazendo aqui?

Engoli em seco.

— Quero fazer uma vasectomia.

Ele pousou a caneta sobre a mesa e respirou fundo.

— Sabe que esse é um procedimento definitivo, certo? — falou com um tom entre surpresa e preocupação. — Você é muito jovem. Ainda tem uma vida inteira pela frente.

— Não quero ter filhos. — repeti, firme.

Ele recostou-se na cadeira, cruzando os braços.

— Isso não é algo que se decide assim, impulsivamente. Há algo acontecendo? — insistiu. — Perdeu alguém? Está passando por algum trauma?

Parei por um instante, tentando controlar o tremor na voz.

— Perdi o amor da minha vida... — confessei. — E, junto com ela, perdi o filho que ela carregava.

O silêncio que se instalou foi quase sufocante. O médico desviou o olhar, como se procurasse as palavras certas, mas eu percebi que ele não as tinha.

— Sinto muito. — murmurou, enfim. — Mas mesmo assim... você é muito novo para tomar uma decisão tão definitiva. O tempo cura, garoto.

— O tempo não traz de volta os mortos, doutor. — respondi, com um amargo sorriso. — Eu não quero filhos. Não quero reviver essa dor. Nunca mais.

Ele permaneceu me olhando, talvez tentando encontrar algum traço de dúvida em mim. Não encontrou.

— Tem certeza disso? — perguntou pela última vez.

— Absoluta. — respondi, sem piscar.

Depois de alguns segundos, ele soltou um longo suspiro.

— Tudo bem. Se é mesmo o que deseja... farei os exames e autorizarei o procedimento.

Assenti, sem emoção alguma.

Naquele momento, eu só queria apagar o que restava do futuro que ela havia levado embora.

No dia marcado, contei aos meus pais que precisava viajar. Disse que precisava de um tempo sozinho, longe de tudo. Eles não gostaram da ideia, mas acabaram cedendo, talvez acreditando que o afastamento me faria bem.

Reservei um quarto em um hotel próximo à clínica.

No caminho, o mundo parecia mudo. Nenhum som, nenhuma cor, nada.

Durante o procedimento, não me importei com riscos, com dor, nem com consequências.

Eu só queria que tudo acabasse. Que aquele corte fosse simbólico, que me arrancasse a dor de dentro, mesmo que fosse por alguns segundos.

E quando tudo terminou, percebi que não havia alívio algum.

Apenas um vazio ainda maior.

Perdi o último ano da escola. Tranquei-me no quarto. Evitei qualquer contato com o mundo, como se esconder pudesse me salvar de mim mesmo.

Não falava com ninguém nem mesmo com meu sobrinho, o Zayan, que sempre foi como um irmão para mim. E a Olívia... eu sequer conseguia encarar o olhar da minha irmã.

Me sentia inferior a todos.

Cada uma das minhas irmãs estava casada, com filhos, construindo famílias.

E eu? Eu apenas existia.

Sentia inveja, não daquela felicidade deles, mas do que ela representava. Porque tudo isso… só faria sentido ao lado da Bonnie.

Meu pai percebeu que eu estava me perdendo.

Foram meses vendo um corpo vagando pela casa, um fantasma de mim mesmo. Até que, numa tarde silenciosa, ele entrou no meu quarto.

— Ethan… — chamou baixo, com aquele tom que misturava paciência e cansaço.

Não respondi. Continuei olhando pela janela, fixo em nada.

Ele se aproximou, sentou-se na beira da cama e soltou um suspiro pesado.

— Seis meses, filho… — murmurou. — Já se passaram seis meses.

Fechei os olhos, sentindo o peso dessas palavras.

— Eu sei. — respondi, sem emoção.

— Não, você não sabe. — Ele falou mais firme. — Você parou no tempo.

Virei-me para ele, irritado.

— O que quer que eu faça, pai? Que finja que nada aconteceu? Que siga em frente como se ela não tivesse morrido?

Ele me encarou por um instante, com os olhos marejados.

— Não é isso, filho. Eu só… não quero te perder para a vida. — A voz dele vacilou. — Porque o seu corpo está aqui, mas a sua mente… — respirou fundo — …ficou enterrada com ela. E não pense que não sei sobre a dor que estar sentindo, mas algum ano atrás perdeu uma pessoa muito importante na minha vida, e que por meses não sabia como reagir, o que fazer; mas é preciso seguir em frente sabe.

As palavras dele me atravessaram como uma lâmina.

Não consegui responder.

Só fiquei ali, com a garganta apertada, tentando conter algo que não tinha mais força pra segurar.

— Eu sei que doeu. — continuou ele, num tom mais brando. — E sei que nada vai apagar isso. Mas, Ethan, a vida não parou. Ela ainda está acontecendo, mesmo que você se recuse a vê-la.

— E pra quê? — perguntei, a voz rouca. — Pra eu tentar de novo e perder tudo outra vez? Eu não aguentaria, pai.

Ele balançou a cabeça, os olhos fixos nos meus.

— Você já perdeu, filho. Mas se continuar assim, vai perder o que ainda te resta. Vai perder a si mesmo.

Ficamos em silêncio.

O tipo de silêncio que pesa, que parece ocupar todo o ar do quarto.

Naquele instante, percebi o quanto ele estava certo e o quanto eu o estava fazendo sofrer.

Minha dor não era só minha.

Minha ausência machucava todos à minha volta.

Quando ele se levantou, colocou a mão sobre o meu ombro e disse, num sussurro:

— Ela te amava, Ethan. E se realmente acredita nisso… então viva. Por ela.

Fiquei ali, sozinho, com o eco das palavras dele me dilacerando por dentro.

E pela primeira vez, percebi que o luto não estava me matando devagar… eu é que estava me deixando morrer.

Decidi tentar mudar ou pelo menos fingir que mudava.

Fingi estar melhor, apenas para dar a eles um pouco de conforto. Voltei a estudar e comecei a estagiar na empresa. Planejava entrar na faculdade depois de concluir os estudos. Acreditava que, com a mente ocupada entre trabalho e aulas, talvez conseguisse esquecer a dor.

Comecei a juntar dinheiro. Evitava sair de casa e, quando meus pais recebiam visitas, eu...

Me trancava no quarto.

E assim se passaram três anos…

Não vou mentir dizendo que a dor passou, porque não passou, mas aprendi a sobreviver a ela.

Consegui juntar uma boa quantia e comprei meu próprio apartamento, em um condomínio próximo à casa dos meus pais. Eu não suportava mais viver naquele lugar onde tudo me lembrava dela.

Mesmo contrariados, meus pais acabaram aceitando, com a condição de que eu sempre desse notícias e passasse um tempo com eles. E assim fui levando... um dia de cada vez.

Comecei a sair com meus sobrinhos e primos muito mais por insistência deles do que por vontade própria. Queriam me ver sorrir, me ter por perto de novo.

Nunca mais apareci com uma namorada, apesar das constantes cobranças da minha mãe.

Não sou de ficar com qualquer mulher em baladas. Só me envolvo quando realmente me interesso.

Deixo claro o que quero, e a escolha é sempre delas se ficam comigo por uma noite ou não. Não me apego, não lembro nomes. Pode me julgar, mas não me entrego mais a nada que envolva sentimento.

Para ser sincero, contratei algumas mulheres apenas para suprir minhas vontades.

Sem cobranças, sem promessas, sem expectativas, apenas um acordo onde ambos saem ganhando.

Digamos que o sexo se tornou o meu vício. Uma forma de extravasar tudo o que carrego aqui dentro.

Como o único solteiro da família, assumi a frente dos negócios da família Brassard.

Hoje, sou o CEO. E, por mais estranho que pareça, o trabalho tem sido minha terapia. Estar cercado de reuniões, prazos, documentos e problemas me mantém ocupado… e longe de mim mesmo.

Olívia virou gerente-geral. Quando não estou, é ela quem comanda tudo. Minhas outras irmãs continuam na parte administrativa. Milena, em especial, é minha vice no setor da gerência-geral, juntas, ela e Olívia lideram tudo com firmeza.

Formamos uma boa equipe.

Esses dias, Milena precisou se afastar.

Descobriu que estava grávida, mas acabou sofrendo um aborto… isso a deixou co

mpletamente abalada. Por enquanto, Olívia tem segurado tudo sozinha.

E assim sigo… Vivendo um dia por vez.

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